Bem-vindo ao CEBI! (51) 3568-2560 | [email protected]

Quem tem ouvidos para ouvir, ouça! (Mt 13,24-43) [Tomaz Hughes]

Quem tem ouvidos para ouvir, ouça! (Mt 13,24-43) [Tomaz Hughes]
17 de julho de 2017 CEBI Comunicação
Este texto continua o capítulo treze de Mateus, onde se proclama as parábolas do Reino.

Hoje, lemos três parábolas que comparam o Reino de Deus a um campo de trigo, um grão de mostarda e o fermento na massa quando se faz pão. Termina como uma explicação alegórica do sentido da parábola do trigo de do joio. Podemos entender essas parábolas todas como uma mensagem de esperança para a pequena comunidade de Mateus – e para nós hoje.

Uma leitura atenta delas deve nos reanimar para a nossa caminhada e luta em favor do Reino, sem desânimo nem desesperança.

Isso fica claro nas curtas parábolas do grão de mostrada e do fermento na massa. A semente de mostarda é minúscula, mas, quando brota, forma um arbusto viçoso. Quando se faz pão, não se usa mais do que uma pequena porção de fermento, mas é o suficiente para levedar a massa toda. O efeito é desproporcional ao tamanho ou peso do grão e do fermento. Pois eles têm um dinamismo interno que dá resultados inesperados.

Jesus aplica essas observações ao Reino de Deus. O seu crescimento depende de pessoas e coisas que aparentemente são insignificantes. Porém, onde existe uma real comunidade de discípulos, há um dinamismo interno que causa efeitos muito maiores do que a sua força humana, pois é movida pela força do Espírito de Deus. Com certeza, no tempo do escrito, a comunidade mateana estava sentindo-se fraca demais para enfrentar a polêmica e a luta com o judaísmo rabínico formativo (a reestruturação do judaísmo depois da destruição de Jerusalém e do Templo). Diante das expulsões das sinagogas e das famílias, da rejeição dos discípulos por seus pares, e diante da ameaça de perseguição real, muitos devem ter desanimado, sentindo-se fracos demais para esta caminhada. Algo semelhante facilmente ocorre hoje – diante do rolo compressor da globalização do mercado, do projeto neoliberal, da propaganda do mundo materialista e consumista, da busca desenfreada do prazer, da banalização da sexualidade, muitos acham que nós não temos forças para resistir, pois somos fracos e insignificantes nos olhos dos donos do poder.

Isso é julgar somente com critérios humanos.

É fácil esquecer a ação do Espírito e da verdade, que para Deus nada é impossível. Essas duas parábolas nos ensinam a valorizar o nosso grão de mostarda e a nossa medida de fermento – ou seja, as pequenas ações e gestos de solidariedade que trazem o dinamismo do Espírito e podem alcançar resultados surpreendentes. Olhando as estatísticas da diminuição da mortalidade infantil no Brasil, diante das quais os governantes se ufanam, quem não sente que é resultado, em grande parte, do trabalho humilde e perseverante dos membros da Pastoral da Criança, que, mesmo diante de décadas de descaso governamental diante da saúde pública, fazem verdadeiros milagres em favor da vida. Poder-se-ia multiplicar os exemplos. Olhemos com os olhos de fé e de Deus e não com os do mundo, que só valoriza a força do dinheiro, do poder e da dominação.

Nesse contexto pode-se ler a parábola do campo onde foi semeado joio (erva daninha) junto com o trigo. Os servos querem arrancar à força o joio, mas o patrão não permite, pois talvez faça mais mal do que bem. Aqui o campo é o mundo, a comunidade, a Igreja.

Somos uma comunidade santa e pecadora, como reza a oração eucarística. Cada comunidade, cada pessoa é ao mesmo tempo trigo e joio.

A parábola alerta contra dois perigos, muitas vezes presentes nas Igrejas. Uma é a tendência do puritanismo – de criar uma comunidade de “santos” ou “eleitos”, intolerante com os pecadores e com as fraquezas humanas, criando uma religião rígida e fria, que esconde o rosto misericordioso de Deus. O outro perigo é o oposto – simplesmente ignorar o joio, e assim correr o perigo que a erva daninha (os males e erros) sufoquem o trigo na comunidade. A parábola aconselha paciência e cautela, e assim quer evitar os dois extremos de “elitismo” e de “deixa correr”, pois ambas as atitudes teriam como resultado a destruição da comunidade.

O Reino é de Deus e Ele não falham. Somos convidados a caminhar juntos na construção lenta, mas segura, desse Reino, apesar der sermos joio e trigo, confiantes no dinamismo do Espírito que faz com que o nosso grão de mostarda e de fermento na massa deem frutos, muito além das expectativas humanas.