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“Queer Eye” e a Igreja LGBTQI+

“Queer Eye” e a Igreja LGBTQI+
16 de junho de 2020 Comunicação

Por Josélio Silva

Queer eye ou os Cinco Fabulosos (fab five), é uma dessas séries divertidas sobre  moda, comportamento, reforma de casa, comida e vinhos. Esta quinta temporada está maravilhosa e o Episódio 1 nos presenteia com uma reflexão sobre Bíblia, Teologia e igreja inclusiva.

Os Cinco Fabulosos irão ajudar Noah Kepler, um pastor luterano gay, a se reconectar com sua própria vida e com sua comunidade.

Noah foi criado em uma comunidade batista homofóbica e fundamentalista. Reprimiu sua orientação sexual por muitos anos como forma de adequação à comunidade de fé. Mas, poucas pessoas suportam uma carga tão pesada sobre os ombros e o caminho ético que Noah encontrou foi conversar com a esposa sobre sua orientação sexual, bem como seguir fiel à vocação de pastor, em uma Igreja que acolhe membros abertamente gays.

Entretanto, Noah se sente um impostor por não ter participado da caminhada de abertura da igreja, ao mesmo tempo em que não consegue vivenciar, plenamente, a alegria de ser um homem gay.

Uma das melhores partes do Episódio 1 é o diálogo entre Noah e Bobby, um dos Cinco Fabulosos, que também vivenciou experiências de homofobia na comunidade de fé que frequentava com sua família. Vejam o que o diálogo nos revela:

Noah – A igreja sempre conserta as coisas, sem se responsabilizar pelos danos. Não, vamos assumir a responsabilidade por termos machucado os outros. Precisamos nos desculpar de verdade e de uma reconciliação sincera quanto a isso.

Bobby – O cristianismo se disfarça de um lugar, um espaço seguro, amável, mas não foi assim que crescemos.

Noah – Não. A fé foi usada contra nós, e não deveria ter sido. Há muitas histórias na Bíblia que estão lá e não são contadas. Por exemplo, tem uma que o centurião vai até Jesus e diz: “meu escravo está doente, quero que o cure”. A palavra grega que é usada nela, ele diz “meu amado”. Se considerar a distância histórica, significa “namorado”. E Jesus não diz nada sobre isso. Ele só cura o homem.

Bobby – Nossa! Onde leu isso na Bíblia?

Noah – É uma historia curta, mas poderosa e lá estamos nós, mas, mesmo assim, a história foi recontada de uma forma que nos exclui. Eu gostaria que o resto do mundo luterano visse isso.

Essa passagem pode ser lida em Mateus 8, 5-13 e Lucas 7, 1-10.  Mas é preciso ir ao texto grego para perceber as diferenças semânticas.

Em Mateus a palavra grega usada é pais, que pode ser traduzida como meu servo ou meu menino/minha criança, pois indica que se trata de uma pessoa jovem. Ocorre que esse termo é muito utilizado nas relações pederastas existentes, e relativamente aceitas no Império Romano, para se referir ao amado, sempre uma pessoa mais jovem que o amante.

Já em Lucas, a palavra grega é doulos, que precisamente pode ser traduzido como servo ou escravo, juntamente com a palavra pais no final do texto. Mas a palavra que nos chama atenção em Lucas é que ele é um servo estimado (entimos) a revelar o grande afeto do centurião.

Por outro lado, ao pedir ajuda a um desconhecido judeu, o centurião se coloca em uma situação vulnerável, pois poderia ser condenado por sua elevada estima pelo servo, sentimento que poderia denunciar algo não aceito por outra cultura. Tanto é que o centurião expressa: Senhor, não te incomodes, porque não sou digno de que entres em minha casa; nem mesmo me achei digno de ir ao teu encontro. Dize, porém, uma palavra, para que o meu criado (pais), seja curado. Recordemos que esta é a mesma oração que católicos recitam antes de receberem a eucaristia.

A reação de Jesus, ao contrário, é de grande admiração pela fé do centurião e ele expressa amigavelmente: eu vos digo que nem mesmo em Israel encontrei tamanha fé.

A passagem, porém, é recontada de outra maneira em João 4, 46-54, como possível forma de apagamento da relação afetiva entre um homem e seu rapaz, entre o senhor e seu servo, que se transforma em João, no filho de um funcionário real.

Para a comunidade LGBTQI+, que sempre teve suas histórias trancadas no armário, faz-se necessário utilizar ferramentas como a hermenêutica da desconfiança a fim de procurar por trás das palavras e de escavar por debaixo delas, a fim de descobrir que a Bíblia também é nossa história.

Embora a relação aqui apresentada trate de uma possível relação pederasta, ou seja, entre um homem mais velho e um jovem púbere, e, entre um senhor e seu servo – relação homoerótica aceitável na época do Império Romano – as relações homoeróticas e homoafetivas atualmente aceitas são fundadas nas relações de  igualdade, capacidade e consentimento mútuo e, quando dotadas da affectio maritalis, de convivência pública, contínua e duradoura, reconhecidas pelo Estado com o status de família.

O texto também nos ajuda a quebrar a ideia de que as relações entre homens não podem ser baseadas no afeto, no carinho, no amor fraternal, na não competição, na estima e no cuidado. O texto demonstra que, mesmo em tempos remotos, as relações masculinas podiam ser marcadas por estes valores já mencionados, a exemplo da relação de Jesus com o discípulo amado e de Jesus com Lázaro. Essa Boa Nova nos revela que outras masculinidades são possíveis e pode nos ajudar na caminhada de libertação do machismo, da homofobia, do racismo e do sexismo.

Outra lição que aprendemos desse episódio de Queer eye é que, um programa que trata basicamente de estética pode ser mais ético, na questão do acolhimento humano, do que a prática de muitas igrejas cristãs, e, pode discutir Bíblia, Teologia e vida com mais propriedade do que muitos cursos de Teologia, pois Deus se revela nos lugares  e situações mais inesperadas.

Josélio Silva, da coordenação estadual do  CEBI Pernambuco e colabora com os cursos em EaD do CEBI Virtual