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Meu Reino não é deste mundo?

Meu Reino não é deste mundo?
19 de novembro de 2021 Zwei Arts

Leia a reflexão sobre João 18,33-37, texto de Edmilson Schinelo e Ildo Bohn Gass

Boa leitura!

Para Jesus, a morte se mostrava iminente. Talvez lhe restasse apenas uma saída: fazer o jogo do poder, oferecido por Pilatos. Isso significaria abandonar o projeto que tinha assumido e proposto a seu grupo de seguidoras e seguidores. A conversa é tensa e Jesus pouco fala. O mundo de Pilatos não é o seu.

É assim que a comunidade joanina nos descreve o confronto entre dois projetos: o “mundo” e o “Reino”. Ao ser indagado, Jesus assume a sua realeza. Mas esclarece: “Meu Reino não é como os reinos deste mundo” (João 18,36). Estes são de mentiras, intolerância, violência, calúnia, exclusão, de poder imposto pelas armas. Jesus propõe um Reino alternativo.

Na história da interpretação dos textos joaninos, com certeza essa é uma das frases que mais serviu para manipular a proposta de Jesus. Muitos a interpretaram como a afirmação de que a missão de Jesus foi “salvar almas para depois da morte” e não “salvar vidas”. Seu Reino foi jogado apenas para o céu (o pós-morte), como se Jesus não tivesse dito em sua oração: “venha o teu reino, seja realizada na terra a tua vontade, como é realizada nos céus” (Mateus 6,10).

Meu Reino não é como os reinos deste mundo

Nos escritos joaninos, o termo “mundo significa tudo o que se opõe ao projeto de Deus. Uma tradução mais adequada da resposta de Jesus a Pilatos poderia ser: “Meu reino não é como (de acordo com, conforme) este mundo”. Ora, as comunidades joaninas sabiam muito bem como era o mundo de Pilatos, representante do Império Romano na Judeia. O “mundo do Império impunha seu poder pela força das armas e pelas negociatas e artimanhas, entre relações desleais, corruptas e corruptoras. A proposta de Jesus é outra, seu Reino não compactua com este mundo.

O Reino de Jesus se apoia no poder serviço (João 13), que não busca prestígios, mas que doa sua vida até a morte na cruz para que a vida aconteça em plenitude (João 10,10).

Jesus é rei, mas de outro projeto político

Muitas vezes, a frase em questão também é utilizada para justificar a postura de gente que afirma que “política e religião não se misturam”. No intuito de justificar seu comportamento religioso teoricamente apolítico, essa gente também “espiritualiza” a leitura do movimento de Jesus. Afirmam eles: enquanto “rei espiritual” dos judeus, o Mestre almejava anunciar uma mensagem de paz totalmente espiritual e religiosa. Infelizmente, não raras vezes, muitos dos que defendem essa postura, se líderes religiosos, vivem atrelamentos vergonhosos com políticos e empresários. E, se políticos ou empresários, quase sempre pedem as bênçãos de um líder religioso para suas ações e seus empreendimentos financeiros. Dizem eles que justificar o sistema com símbolos religiosos não seria juntar religião e política. Porém, questionar o sistema por meio da fé, isto sim, seria misturar política com religião. Quanta hipocrisia!

A proposta de Jesus é uma proposta religiosa, de vivência de uma espiritualidade radical, que não se contenta com a superficialidade, mas vai até raízes mais profundas. Por isso mesmo, é uma proposta altamente política. Ele mesmo, no capítulo 17, roga ao Pai pelos seus: “Eles não são do mundo, como eu não sou do mundo. Mas não peço que os tires do mundo, mas que os guardes do Maligno” (João 17,14b-15).

Quem é da verdade, escuta minha voz

A concepção hebraica de verdade difere da mentalidade greco-romana. Enquanto para Aristóteles “a verdade é a adequação do pensamento à realidade”, para um hebreu autêntico, verdadeira é a pessoa fiel ao projeto de seu Deus e de sua comunidade. Verdade é sinônimo de fidelidade.

Em sua conversa com Pilatos, Jesus não tem receio de afirmar: “Vim ao mundo para dar testemunho da verdade” (João 18,37). Testemunhar a verdade é doar a vida até as últimas consequências. É fidelidade ao projeto amoroso do Pai.

“E quem é da verdade, escuta a minha voz”. Quem decide viver a verdade, o amor fiel, adere ao projeto de vida que vem do Pai, tal como a ovelha, ao ouvir a voz do seu pastor, segue-o pelo caminho (João 10). Ao contrário, quem é da mentira, escuta a voz do Diabo, pois ele é o pai da mentira (João 8,44). Quem é do Diabo, não aceita o diálogo, o confronto de projetos em debates, pois sabe que seu discurso é frágil e facilmente desmascarável com a verdade. Por isso, é intolerante e tem a violência e a tortura para impor a sua “verdade”. Assim foi no tempo de Jesus. Assim continua em nossos dias.

Para a comunidade joanina, romper com os reinos deste mundo é assumir uma forma de espiritualidade que estimule relações alternativas, de justiça e de ternura, de partilha e de paz. A paz, fruto da justiça e não a paz imposta pelas armas dos impérios deste mundo (João 14,27).