Jesus: A Porta Libertadora dá Vida Abundante

Domingo IV da Páscoa

Lecionário Comum
At 2.42-47
Sl 23
1 Pe 2.19-25
Jo 10.1-10
Lecionário Católico
At 2,14a.36-41
Sl 22(23),1-3a.3b-4.5.6 (R. cf. 1.2c)
1Pd 2,20b-25
Jo 10,1-10

Rodrigo dos Santos
CEBI-SP

Amadas e amados,

“Ser gentil é ser semente que faz o bem florescer.
Ser gentil é ser humano, é ser muito mais que ter.
É ser mestre, é ser aluno, ensinar e aprender.
É ser luz, conhecimento que faz o mundo acender.
Ser gentil é ser trabalho, ser gentil é ser lazer”

(Braulio Bessa)

O texto de Jo 10,1-10 deste 4º Domingo da Páscoa apresenta a pessoa de Jesus Ressuscitado como a “Porta Libertadora”, que sendo, sumidade em gentileza, é passagem para vida abundante. A comunidade do Discípulo Amado, norteador do texto, elucida alguns aspectos para nossa reflexão e pensamentos: (1) como cuidar do outro, (2) a legitimidade da liderança, (3) a distinção entre pastor e ladrão no que diz respeito ao bem estar dos que são cuidados, (4) o pastor verdadeiro tem intimidade e conduz seu rebanho à libertação e por fim (5) Jesus é o pastor verdadeiro que conduz a vida abundante.

(1) COMO CUIDAR DO OUTRO Os fariseus são mencionados no cap. 9 de Jo. Trata-se de um grupo leigo influente no judaísmo, composto em grande parte por pessoas da classe média e bastante respeitado pelo povo. Destacavam-se pela rigorosa observância da Lei mosaica e das tradições religiosas, valorizando práticas como o sábado, o jejum, o dízimo e rituais de pureza. Embora enfatizassem a tradição oral e mantivessem elevado padrão moral externo, eram criticados por atitudes como avareza, ostentação religiosa e legalismo excessivo. Segundo os Evangelhos, Jesus os repreendeu por priorizarem rituais e aparências em detrimento de valores centrais da Lei, como justiça, misericórdia e fé. Assim, sua religiosidade era vista como superficial, baseada mais no exterior do que na transformação interior. Os textos capitulares de Jo 9-10 os menciona como os que, em vez de cuidar, exploravam as ovelhas, agindo como ladrões e salteadores. Eles representam a liderança que não cuida, mas explora. Eles indicam os líderes que buscam a si próprios, seus interesses, roubam e saqueiam o rebanho. Não se trata somente dos “maus pastores” (Ez 34), mas dos “não pastores”, ou seja, não é contradição, é a negação explícita.

(2) A LEGITIMIDADE DA LIDERANÇA Quando o texto apresenta Jesus como a “porta” (v. 7-9), a comunidade joanina indica que ele é o único que tem acesso legítimo para cuidar do rebanho. Inclusive, a própria atuação de Jesus, mesmo nos usos do texto em clima de pastoreio, não indica que ele pensasse a missão e as pessoas como um rebanho amorfo. Isso implica uma crítica a qualquer liderança que não busque o bem-estar comunitário, mas sim, os interesses próprios. A religiosidade, ou melhor, a mensagem que Jesus ensinou o legitima – inversamente aos grupos que circunscreviam – a sua atuação. A experiência da comunidade joanina, já nos anos 90-100, apresenta Jesus como o sinal de Deus, e sua atuação é de zelo, de cuidado efetivo para com os seus. A comunidade – povo – nasce da práxis de Jesus! Ele é a matriz da vocação do líder comunitário, pois é gentil, empático, é aberto para a experiência ipsum com o outro.

(3) PASTOR, LADRÃO E BEM ESTAR A missão de Jesus é o “Bem Viver”, que se apresenta como um conceito que vai além da sobrevivência física e inclui dignidade, justiça e vida plena para todos, sem distinção. O “ladrão”, e posteriormente o “lobo”, na continuidade do texto de Jo, mormente na Teologia, sobretudo a neopentecostal, indica o demônio. Contudo, “ladrão e lobo” representam estruturas de opressão que roubam, matam e destroem. Não se trata somente de uma ameaça espiritual, mas de situações estruturais da sociedade de ontem e hoje. Casos que podem até ser identificados com a liderança religiosas que fecham portas e escravizam pessoas e comunidades, que dizem, meu rebanho, minha igreja, meu jeito de ser …

(4) O PASTOR VERDADEIRO: INTIMIDADE QUE CONDUZ À LIBERTAÇÃO O verdadeiro pastor conhece suas ovelhas pelo nome (intimidade) e as conduz para fora (libertação). A comunidade joanina apresenta Jesus como zeloso, que cuida dos seus, e que as ovelhas reconhecem a sua voz. Destacam ainda a importância da consciência crítica do povo para não seguir falsos pastores ou ideologias opressoras. Aqui está o cerne desta perícope, pois apresenta Jesus como o Pastor verdadeiro, cuja missão revela-se em intimidade pessoal e uma prática de libertação integral.

(5) JESUS É O PASTOR VERDADEIRO QUE CONDUZ A VIDA ABUNDANTE Jesus se apresenta como o pastor que cuida, protege e cura, em contrapartida ao “mercenário” que foge ao menor perigo. Mercenário vive em prol do ganhar mais, ganhar melhor, por isso barganha em prol disso. Não tem preocupação com o rebanho, com as pessoas. De fato, Jesus é a porta e o bom pastor na medida em que pensa a libertação integral do ser humano. Ou seja, “na dimensão interior e espiritual do homem se radicam o empenho pela justiça e pela solidariedade, pela edificação de uma vida social, econômica e política conforme o desígnio de Deus” (DSI, §44), … a vida plena em abundância de Jo 10,10, indica que Jesus vê que a pessoa humana deve “ser sempre compreendida na sua irrepetível e ineliminável singularidade, antes de tudo em sua subjetividade, como centro de consciência e de liberdade, cuja história única e não comparável com nenhuma outra expressa a sua irredutibilidade a toda e qualquer tentativa de constrangê-lo dentro de esquemas de pensamento ou sistemas de poder, ideológicos ou não” (DSI, §131b).

Enfim, a partir da citação da poesia de Braulio Bessa, o autor nos remeteu a ideia de que gentileza é uma “semente” plantada no “chão” da convivência. Gentileza foi a de Deus que nos deu Jesus, Pastor Único e Verdadeiro para nossa salvação (Jo 3,16). Sua mensagem e prática atravessam os séculos como um eco do bem fazer de Deus. Ele é a porta de libertação de todo ser humano, e com intimidade cuida e zela por todos os que o procuram.

Bibliografia utilizada

PONTIFÍCIO CONSELHO “JUSTIÇA E PAZ”. Compêndio da Doutrina Social da Igreja. Vaticano: Libreria Editrice Vaticana, 2004.

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