Partilhas

Periferia: território de resistência da maioria negra

Em alusão ao dia de luta contra a discriminação racial, partilhamos o artigo da Profa. Dra. Valdenice José Raimundo.


“Eu, como mulher negra, escrevo com palavras que descrevem minha realidade, não com palavras que descrevam a realidade de um erudito branco, pois escrevemos de lugares diferentes. Escrevo da periferia e não do centro” (KILOMBA – Grada em Memórias da Plantação).

Para compreender de onde a conversa vai partir….

A citação acima mencionada fala de lugares que não são naturais, são lugares produzidos por uma ordem determinada pelo capitalismo e pelo racismo – estruturantes das relações. O centro e a periferia são habitados por pessoas que têm as condições de sobrevivência e existência diferenciadas, marcadas pela desigualdade de acesso à riqueza socialmente produzida. É valido salientar que aqueles e aquelas que produzem a riqueza, que são em sua maioria negros/as, não usufruem como deveriam do resultado de seu trabalho.

Animada pela Teologia Negra Feminista, a reflexão sobre a periferia urbana anuncia a minha experiência. Falo sobre a periferia, enquanto uma mulher negra que vivencia a periferia, tanto no que diz respeito ao território geográfico quanto ao posicionamento ético-político que define e sulea meu lugar nesta sociedade desigual, sexista, homofóbica, machista e racista.

Seguindo com a conversa…

Diante do acima exposto, este texto tem como objetivo apresentar algumas considerações acerca da periferia urbana, enquanto espaço de resistência da população negra. Para isto, tecerei aproximações a alguns elementos teóricos, teológicos, reflexivos e vivenciais que visem contribuir com uma narrativa que problematize as injustiças presentes na periferia urbana, mas que não negue seu potencial de resistência, solidariedade, criatividade e, sobretudo, anúncio de esperança.

A periferização, no caso do Brasil, está ligada ao processo de urbanização[1] e apresenta uma forma específica em sua organização, isso corresponde à sua própria trajetória histórica. Ou seja, é o resultado direto do tipo de colonização expressa em sua paisagem de forte desigualdade social. Foi da colônia de exploração – destacando aqui o trabalho dos escravizados indígenas e negros – a uma nação submissa ao capital externo. A influência da colonização e a mentalidade colonial persistem nos dias atuais, através da representação da Casa Grande e da Senzala sendo substituída pelo centro e a periferia, demandando denúncias das injustiças cometidas neste território.

Segundo Lima e Cunha (2000), a periferia pode ser identificada como território de maioria negra. Vê-la desta forma é olhá-la como um espaço onde a  vida brota,  desenrola-se e resiste, ou seja, um espaço geográfico socialmente construído e politicamente determinado, onde se constitui uma realidade relacional centrada em processos, nos quais coisas e relações interagem e se modificam, construindo e reconstruindo possibilidades de movimentos na sociedade.

Porém, dentro da lógica capitalista sob a égide do racismo, este território resulta de uma organização desigual, originando a segregação dos territórios onde os pobres vivem que, para Maricato (2000), são fruto da exclusão urbanística. A definição de quem habita as periferias, está muito clara: são as pessoas negras. Segundo Campello (2017), 70% dos pobres no Brasil são negros, logo, são esses que habitam os territórios socialmente segregados e ambientalmente degradados. Vivem nas favelas, nas quebradas, nas zonas de sacrifício, que geralmente são áreas desvalorizadas, nas beiras dos córregos, encostas dos morros, terrenos sujeitos a enchentes, materializando, assim, as diversas formas de manifestação do racismo, apropriado e reforçado pelo capitalismo.

O olhar da sociedade para as pessoas que moram na periferia, na maioria das vezes, acompanha uma construção preconceituosa e discriminatória, fundamentada na lógica capitalista, racista e de depreciação territorial, resultado do legado colonial.  Tudo isto nos leva a questionar: quais são os caminhos de resistência de quem habita os territórios marcados pela pobreza, pela ausência de equipamentos sociais, pelas políticas públicas

em declínio, pela perda dos direitos conquistados, pelo desemprego, pela ascensão das necropolíticas, pelo desrespeito à diversidade religiosa, sexual e de gênero?

Isto me faz recordar de uma resposta de Lélia Gonzalez a uma entrevista ao Movimento Negro Unificado- MNU, no ano de 1991, quando perguntada sobre como o povo negro deveria se organizar para enfrentar as injustiças, as quais estava submetido e parte da resposta foi: “Temos que nos voltar para dentro do quilombo e nos organizarmos…”  A respeitadíssima autora oferta-nos uma primeira pista às questões anteriormente apresentadas: Temos que nos aquilombar, unir-nos, materializar os valores e princípios herdados dos quilombos, resistir.

Uma segunda pista é no campo da espiritualidade, campo da materialização do que cremos. E a orientação é não perder a fé, pois como diz a canção de Gilberto Gil “ela não costuma faiá”. Aqui é preciso esclarecer que a fé necessita ser entendida e respeitada na diversidade das crenças. Tenho revisado e amadurecido minha fé a partir de uma perspectiva teológica que me coloca na militância contra todas as formas de opressão, exploração e cerceamento da liberdade, que é a teologia negra feminista.

É a partir deste lugar que deve ser denunciada toda a injustiça cometida na periferia, espaço de vivência da maioria negra. A denúncia é um ato profético de anúncio da necessidade da justiça. Não é justo em plena pandemia do Coronavírus as pessoas que fazem a limpeza nos hospitais não estejam no grupo prioritário. Não é justo que as empresas de ônibus que, cotidianamente, fazem o transporte dos/as trabalhadores/as dos serviços essenciais, não considerem o afastamento como elemento importante a ser considerado na oferta do serviço. Trago esses dois exemplos, porque essas pessoas são moradoras das periferias e são pessoas negras e pobres.

Não podemos encerrar a conversa…

Nosso engajamento na luta por justiça é um caminho que nos coloca, muitas vezes, na contramão da história, mas é um lugar, sem dúvida, seguro e necessário.  O preto e periférico Jesus de Nazaré anima-nos a continuar dizendo não a toda prática injusta e nos fortalece para anunciar que da periferia de Nazaré veio a mensagem de salvação e esperança. Que a Ruah continue sendo alento para todas as pessoas que buscam a alegria, a paz e a justiça. É necessário continuar a conversa!

Nota

[1] Ver SANTOS, M. O país distorcido: o Brasil, a globalização e a cidadania. São Paulo: Publifolha, 2002 e Pobreza urbana. São Paulo: Editora Hucitec, 1979.

Referências

LIMA, Maria Batista e CUNHA Jr, Henrique. Repertórios culturais de base africana, identidade afrodescendentes e educação em Sergipe. Série pensamento negro em educação. Florianópolis: 2000.

MARICATO, E. As ideias fora do lugar e o lugar fora das ideias: planejamento urbano no Brasil. In: A cidade do pensamento único: Desmanchando consensos. Petrópolis, RJ: Vozes, 2000.

MNU. Os desafios da formação política da militância do Movimento Negro Unificado – MNU. MNU Jornal, n° 19, maio/junho/julho, 1991, p. 8-9.


Autora: Profa. Dra. Valdenice José Raimundo
Doutora em Serviço Social. Professora da graduação em Serviço Social e pós-graduação em Ciências da Religião da Universidade Católica de Pernambuco. Líder do Grupo de Estudos e Pesquisas em Raça, Gênero e Políticas Públicas. Integrante da Pastoral da Negritude Rosa Parks, da Rede de Mulheres Negras Evangélicas e do Coletivo de Acadêmicas Negras  Luiza Bairros – E-mail: [email protected].

No products in the cart.