Bem vindo(a) ao CEBI ! (51) 3568-2560

Zaqueu: a visita de Deus Acolhimento e ternura sem preconceito (Lucas 19,1-10) [Frei Carlos Mesters e Mercedes Lopes]

Zaqueu: a visita de Deus Acolhimento e ternura sem preconceito (Lucas 19,1-10) [Frei Carlos Mesters e Mercedes Lopes]
24 de outubro de 2016 Centro de Estudos Bíblicos
Zaqueu: a visita de Deus Acolhimento e ternura sem preconceito (Lucas 19
Situando
Estamos chegando ao fim da longa viagem que começou no capítulo 9. Durante a viagem, não se sabia bem por onde Jesus andava. Só se sabia que ele ia em direção a Jerusalém. Agora, no fim, a geografia fica clara e definida. Jesus chega a Jericó, a cidade das palmeiras, no vale do Jordão. Última parada antes de o peregrino chegar em Jerusalém! Foi em Jericó que terminou a longa caminhada do êxodo de 40 anos pelo deserto. O êxodo de Jesus também está terminando.
Na entrada de Jericó, Jesus encontra um cego que queria ver (Lc 18,35-43). Agora, atravessando a cidade, ele encontra Zaqueu, um publicano, que queria vê-lo. Um cego e um publicano. Os dois eram excluídos. Os dois incomodavam o povo: o cego com seus gritos, o publicano com seus impostos. Os dois são acolhidos por Jesus, cada um a seu modo.
Comentando
1.    Lucas 19,1-2: A situação
Jesus entra em Jericó e atravessa a cidade. “Havia ali um homem, chamado Zaqueu, muito rico, chefe dos publicanos”. Publicano era o que cobrava o imposto público sobre a circulação da mercadoria. Zaqueu era o chefe dos publicanos da cidade. Sujeito rico e muito ligado ao sistema de dominação dos romanos. Os judeus mais religiosos argumentavam assim: “O rei do nosso povo é Deus. Por isso, a dominação romana sobre nós é contra Deus. Quem colabora com os romanos peca contra Deus!” Assim, soldados que serviam no exército romano e cobradores de impostos, como Zaqueu, eram excluídos e evitados como peca- dores e impuros.
2.    Lucas 19,3-4: Atitude de Zaqueu
Zaqueu quer ver Jesus. Sendo pequeno, corre na frente, sobe numa árvore e aguarda Jesus passar. É muita vontade de ver Jesus! Anteriormente, na parábola do pobre Lázaro e do rico sem nome, Jesus fez ver como é difícil um rico se converter. Aqui aparece o caso de um rico que não se fecha na sua riqueza. Zaqueu quer algo mais. Quando um adulto, pessoa de destaque na cidade, trepa numa árvore, é porque já nem liga para a opinião dos outros. Algo mais importante o move por dentro. Ele está querendo abrir a porta para o pobre Lázaro.
3.    Lucas 19,5-7: Atitude de Jesus, reação do povo e de Zaqueu
Chegando perto, Jesus não pergunta nem exige nada. Apenas responde ao desejo do homem e diz: “Zaqueu, desça depressa! Hoje devo ficar em sua casa!” Zaqueu desceu e recebeu Jesus em sua casa, com muita alegria. Todos murmuravam: “Foi hospedar-se na casa de um pecador!” Lucas salienta que todos murmuravam! Isto significa que Jesus estava ficando sozinho na sua atitude de dar acolhida aos excluídos, sobretudo aos colaboradores do sistema. Mas Jesus não se importa com as críticas. Ele vai à casa de Zaqueu e o defende contra as críticas. Em vez de pecador, o chama de “filho de Abraão” (Lc 19,9).
 
4.    Lucas 19,8: Decisão de Zaqueu
“Dou a metade dos meus bens aos pobres e restituo quatro vezes o que roubei!” Esta é a conversão, produzida em Zaqueu pela acolhida que Jesus lhe deu. Restituir quatro vezes era o que a lei mandava em alguns casos (Ex 21,37; 22,3). Dar a metade dos bens aos pobres é a novidade que o contato com Jesus nele produziu. Era a partilha acontecendo de fato!
5.    Lucas 19,9-10: Palavra final de Jesus
“Hoje, a salvação entrou nesta casa, porque ele também é um filho de Abraão!” A interpretação da Lei pela Tradição antiga excluía os publicanos da raça de Abraão. Jesus diz que veio procurar e salvar o que estava perdido. O Reino é para todos. Ninguém pode ser excluído. A opção de Jesus é clara, seu apelo também: não é possível ser amigo de Jesus e continuar apoiando um sistema que marginaliza e exclui tanta gente. Denunciando as divisões injustas, Jesus abre o espaço para uma nova convivência, regida pelos novos valores da verdade, da justiça e do amor.
Alargando
1. Filho de Abraão. Através da descendência de Abraão, todas as nações da terra serão benditas (Gn 22,18; 12,3). Para as comunidades de Lucas, formadas por cristãos de origem judaica e também de origem pagã, esta afirmação de Jesus era muito importante. Nela encontravam a confirmação de que, em Jesus, Deus estava cumprindo as promessas feitas a Abraão e que se dirigiam tanto aos judeus como aos gentios. Estes são também filhos de Abraão e herdeiros das promessas.
2. Jesus acolhe os que não eram acolhidos. Oferece lugar aos que não tinham lugar. Recebe como irmão e irmã as pessoas que a religião e o governo excluíam e rotulavam como:
• imorais: prostitutas e pecadores (Mt 21,31-32; Mc 2,15; Lc 7,37-50; Jo 8,2-11);
• hereges: pagãos e samaritanos (Lc 7,2-10; 17,16; Mc 7,24-30; Jo 4,7-42);
• impuras: leprosos e possessos (Mt 8,2-4; Lc 17,12-14; Mc 1,25-26);
• marginalizadas: mulheres, crianças e doentes (Mc 1,32; Mt 8,16; 19,13-15; Lc 8,2-3);
• pelegos: publicanos e soldados (Lc 18,9-14; 19,1-10);
• pobres: o povo da terra e os pobres sem poder (Mt 5,3; Lc 6,20; Mt 11,25-26).
3. Jesus não só acolhe as vítimas da exclusão mas, também, ataca as causas. Com palavras e gestos ele ignora ou denuncia as divisões existentes entre:
• Próximo e não-próximo.
Para Jesus, próximo é todo aquele de quem a gente se aproxima (Lc 10,29-37).
• Judeu e estrangeiro.
Jesus atende ao pedido do centurião (Lc 7,6-10) e da cananeia (Mt 15,21-28).
• Santo e pecador.
Jesus acolhe Zaqueu (Lc 19,1-10) e se confraterniza com os pecadores (Mc 2,15-17).
• Puro e impuro.
Jesus critica as muitas leis e declara puros todos os alimentos (Mc 7,1-23).
• Obras santas e profanas.
Jesus ensina um novo jeito de fazer esmola, oração e jejum (Mt 6,1-18).
• Tempo sagrado e profano.
Jesus coloca o sábado a serviço do ser humano (Mc 2,27; Jo 7,23).
• Lugar sagrado e profano.
Jesus critica o Templo e adora a Deus em qualquer lugar (Jo 4,21; 2,19).
• Rico e pobre.
Jesus critica os ricos e ensina que não é possível servir a dois senhores (Lc 16,13).

*Este subsídio foi retirado do livro O avesso é o lado certo. Conheça  publicação do CEBI!