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Será que não valemos muito mais que as flores e os pássaros?

Será que não valemos muito mais que as flores e os pássaros?
22 de fevereiro de 2017 Centro de Estudos Bíblicos
Reflexão do evangelho do próximo domingo por Itacir Brassiani msf.
Ano A – Oitavo domingo do Tempo Comum – 26.02.2017

Somos pessoas do nosso tempo. Andamos ocupados com muitas coisas. O problema não é simplesmente a ocupação, mas a pré-ocupação com a sobrevivência e bem-estar individuais. Preocupação é aquilo que monopoliza nossos interesses, que toma a nossa atenção e invade nossos sentimentos antecipadamente, produzindo ansiedade, insegurança, medo; é uma espécie de obsessão que sequestra o coração e a mente. Preocupam-nos a segurança, o que os outros pensam de nós, que eles passem à nossa frente, as provisões para o futuro, e tanta coisa mais… Nem o clima de carnaval nos livra disso…

A palavra ‘preocupação’ aparece cinco vezes no evangelho deste domingo! Jesus questiona clara e fortemente nossa excessiva preocupação com a comida, a bebida e a segurança, como se o mundo girasse em torno de nós mesmos e nossos medos e necessidades. Mas reagimos a ele educadamente, dizendo que comida não cai do céu, que bebida não costuma vir com a chuva, que Deus ajuda quem cedo madruga… Em nome do necessário bom senso e da superação da passividade, cresce o número daqueles que guardam o Evangelho na gaveta das lembranças da primeira comunhão e decidem a vida sem ele.

Mas não podemos esquecer que, ao lado das pessoas e grupos que pensam que o dinheiro e a segurança são indispensáveis à felicidade, cresce uma multidão que carece do mínimo para viver.  E Jesus nos lembra que estas questões fundamentais são sociais, e não podem ser resolvidas privadamente, numa luta predatória na qual os mais fortes e astutos derrotam e desfrutam tranquilamente dos mais fracos. Por isso, afirma de forma lapidar: “Vós não podeis servir a Deus e ao dinheiro!” Nossa preocupação primeira deve ser com a carência de comida e de bem-estar dos outros, e não conosco mesmos!

Sem ceder à evasão e à ingenuidade, Jesus questiona a carência produzida pelas políticas sociais restritivas, que flexibilizam os poucos direitos trabalhistas, reforçam a segurança jurídica dos empresários (como vem fazendo o governo federal!) e submetem os pobres à ‘ditadura da sobrevivência’. “A vida não vale mais que a comida? O corpo não vale mais que a roupa?” No centro de tudo deve estar a vida de cada pessoa e suas necessidades. Comida, bebida, casa, saúde e todos os bens econômicos e culturais estão a serviço da vida e da dignidade da pessoa, e não podem substituí-la.

Jesus desafia as pessoas que têm bens em abundância e encoraja aquelas que têm pouco ou nada. Ele nos convida a contemplar os passarinhos e as flores e aprender as lições que nos ensinam: eles não conhecem a preocupação nem a ansiedade, mas não lhes falta alimento nem beleza. Deus provê a cada criatura aquilo que ela necessita! “Será que vocês não valem mais que os pássaros? Deus fará muito mais por vocês!” Grandes preocupações nada podem acrescentar à nossa vida. Ocupar-se com o bem-estar dos outros – com o Reino de Deus, vida para todos – pode melhorar a vida deles, e a nossa!

É verdade que a certeza de que a nossa vida está nas mãos de Deus não nos dispensa de tomar iniciativas, de agir e projetar com prudência. Mas tudo começa e tem sua base na convergência dos nossos interesses e preocupações no Reino de Deus, não dividindo com nada e ninguém essa entrega. Isso significa seguir Jesus Cristo, fazer-se discípulo dele, reproduzir na própria vida sua pró-existência, perder a vida para que todos tenham vida, assumir a causa dos pobres, desvalidos e oprimidos… Enfim, importar-se com os outros como a mãe se importa com o sofrimento dos seus filhos.

Jesus insiste na inutilidade da preocupação obsessiva com as próprias necessidades, mas está longe de aceitar ou propor a indiferença diante das necessidades primárias dos outros. Nada mais contrário ao seu ensino e à sua prática! A busca do Reino de Deus é exatamente o empenho pessoal em prol de um mundo justo e fraterno, que assegure a todas as pessoas a satisfação das suas humanas necessidades e direitos. Para os cristãos, a necessidade material dos irmãos é um desafio espiritual. Paulo nos lembra que somos servidores e administradores dos dons que Deus concede à humanidade e a ela se destinam.

Voltamos nosso olhar a ti, Deus pai e mãe, e nas Tuas mãos depositamos nossas necessidades, anseios e preocupações. Queremos servir somente a Ti, e a nenhum outro senhor! Ajuda-nos a buscar o Teu Reino acima e antes de tudo, e ensina-nos a lição dos pássaros do céu e dos lírios do campo. Livra-nos da preocupação obsessiva com nossas próprias necessidades, e não permitas que sejamos seduzidos pelo reino de mammon, o terrível e sanguinário senhor e defensor da riqueza de poucos. E que as necessidades dos nossos irmãos sejam a única preocupação a tirar nosso sono e nossa tranquilidade… Assim seja! Amém!

*Por Itacir Brassiani msf, Profecia de Isaias 49,14-15 * Salmo 61 (62) * 1ª. Carta de Paulo aos Coríntios 4,1-5 * Evangelho de São Mateus 6,24-34.

Fonte: itacir-brassiani.blogspot.com.br, 22/02/2017.