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Seminário debate razões da (des)igualdade racial

Seminário debate razões da (des)igualdade racial
Seminário debate razões da (des)igualdade racial
7 de setembro de 2010 Centro de Estudos Bíblicos

Durante os dias 27 a 29 de agosto, mais de oitenta pessoas estiveram reunidas no 6° Seminário Nacional de Teologia da Libertação e Educação Popular. Com a temática Negritude e Branquitude: Razões da (des)igualdade a questão racial do Brasil foi discutida como um problema de relações entre negros e brancos, pois a solução envolve toda a sociedade. Estiveram presentes pessoas de São Paulo, Rio de Janeiro, Bahia, Paraná, Santa Catarina, Paraíba e Mato Grosso, além do Rio Grande do Sul.

No primeiro dia, os trabalhos foram coordenados pela assessora Lilian Lira, teóloga, doutoranda em Religião e Educação. Foram realizados estudos em grupos, onde as pessoas debateram o que foi chamado de "temas geradores de tensão".

O mito da democracia racial, reproduzido nos livros escolares (fábula da convivência pacifica entre brancos europeus, índios e negros) foi o ponto de partida para a análise da realidade brasileira. Uma história de desenvolvimento do país através da escravidão africana e indígena, do latifúndio, extração de riquezas naturais, beneficiando elites dominantes que deixou suas marcas:

*mais de 50% da população brasileira considerada negra compreende os 70% mais empobrecidos; 
*mercado de trabalho com diferenciação de salários entre pessoas brancas e negras; 
*mais de 2/3 dos/das jovens assassinados/as tem entre 15 e 18 anos e são negros; 
*necessidade de Política de cotas para garantir ensino superior à população negra.
      

Juntamente com os temas os participantes debateram os valores civilizatórios afro-brasileiros, não a partir dos conceitos, mas sim, da vivência de cada um. Os valores são: Circularidade,Religiosidade, Corporeidade, Musicalidade, Cooperativismo/Comunitarismo, Ancestralidade, Memória, Ludicidade, Energia vital (Axé), Oralidade.

No segundo dia de trabalhos, foi realizada a exposição dos grupos convidados a apresentarem seu trabalho, explicar um pouco sobre sua história, e também sua relação com o tema Negritude e Branquitude. Os grupos que fizeram exposição foram:

  • GDIREC – Gestando o Diálogo inter religioso e ecumênico
  • CAPA – Centro de Apoio ao Pequeno Agricultor – Projeto Comunidades Quilombolas
  • Grupo Egbé Òrun Àiyé/RS de estudos da religião afro
  • Grupo Identidade/EST
  • Ong Movimento de Consciência Negra Palmares

 A segunda etapa da assessoria foi conduzida por Marcos Rodrigues da Silva, teólogo, doutorando em Ciências da Religião, que fez um resgate da história da África, das comunidades tradicionais, dos quilombolas e comunidades negras rurais, no período anterior ao tráfico de escravos. Mostrou através de mapas como era a geografia do continente africano, e também a organização dos povos e suas origens ancestrais.

A intenção de Marcos nesta exposição era mostrar que quando os negros foram arrancados de suas terras e levados pra todos os cantos do mundo, o que estava sendo "exportado" da África não eram negros "selvagens" e "ignorantes" para realização de trabalho pesado. Muito pelo contrário, estavam levando conhecimento e tecnologia de ponta para as colônias. A arquitetura (trama com barro e palha), o manuseio de diversos tipos de plantações, os conhecimentos medicinais, em sua grande maioria foi ensinada pelo povo oriundo do continente africano. Foi o recontar de uma história que não aprendemos na sala de aula.

Na outra parte do seminário os grupos reuniram-se para levantar questões e dúvidas que permaneceram referentes ao que foi exposto. Novamente, as discussões foram muito maduras e foi dado mais um passo para o entendimento de que as questões raciais fazem parte de nosso cotidiano e que a discriminação é um problema pertinente a todos e todas.

Isto se evidenciou através de depoimentos como o de um grupo de jovens mulheres, agentes de pastorais e professoras que perceberam que conseguem suscitar discussões acerca do tema gênero e feminismo, mas passa completamente despercebido o tema raça e etnia. Isto porque, em primeiro lugar, não são negras, em segundo, por conta da educação vigente que mascara o tema.

Outro depoimento foi de uma jovem negra, que disse ter sido questionada ao não preencher o item que solicitava informar a cor numa ficha de inscrição para um curso. Em resposta ela disse que não se enquadrava em nenhuma das opções oferecidas no formulário. Ou seja, ela trouxe a tona a seguinte reflexão: No que irá influenciar a sua cor de pele para a matrícula em determinado curso. Para quem é "branco/a" este tipo de questão não causa desconforto, pois é o "normal" da sociedade.

Por último, uma terceira jovem questionou o grupo sobre a possibilidade de traçar um paradoxo entre as questões de machismo x feminismo e negritude x branquitude.

Ao longo do seminário foram apresentados filmes de curta metragem sobre o tema em discussão, bem como poesias e "spots" (pequenos filmes com ou sem efeitos sonoros e música de fundo, geralmente utilizados quando há muita coisa a ser transmitida em uma só mensagem).

Alguns educadores e algumas educadoras presentes relataram sua dificuldade em se especializar na área de educação racial para atender a lei 10.639 de 09.01.2003 que tornou obrigatório o ensino sobre a História e Cultura Afro-brasileira nos estabelecimentos de ensino fundamental e médio, públicos e particulares.

Porém, a assessora Lilian informou que existem sim cursos, inclusive gratuitos, e citou como exemplo o a extensão em que ela mesma participa na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) sobre esta temática. Lilian e Marcos também ofereceram diversas bibliografias sobre a temática da lei.

Para encerrar a coordenação apontou algumas questões do seminário, dentre elas o desafio dentro das instituições de ensino em implantar estudos sobre a história afro brasileira. Uma das propostas do seminário era oferecer momento e espaço para que as pessoas pudessem se articular e construir/obter subsídios para mudar a realidade. 

 

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