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Padre Júlio Lancelotti: o frio atinge a todos, mas quem morre é o pobre

Padre Júlio Lancelotti: o frio atinge a todos, mas quem morre é o pobre
10 de julho de 2019 Comunicação

por Brasil 247*

“O frio é bem democrático, porque todos sentem, mas é muito autoritário, porque mata os moradores de rua”, disse o padre em entrevista à TV 247 sobre a onda de frio que atinge as regiões Sul e Sudeste do Brasil; “Ninguém morre de frio se está dentro de casa, se está agasalhado, alimentado e protegido”, enfatizou Lancelotti; assista.

O padre e coordenador da Pastoral do Povo de Rua, Júlio Lancelotti, personalidade importante na luta em defesa dos direitos humanos, falou à TV 247 sobre a recente onda de frio que atinge as regiões Sul e Sudeste do Brasil. O padre comentou sobre o aumento do número de pessoas em situação de rua e sobre a falta de respostas do Poder Público em relação aos Centros de Acolhida.

Lancelotti falou do crescimento da população de rua e afirmou que a maioria destas pessoas são jovens. “A população de rua no Brasil aumenta assustadoramente, e de uma população jovem, de uma população que poderia estar trabalhando. O trabalho não explica tudo, temos mais de 13 milhões de desempregados e não temos 13 milhões de pessoas na rua. Além do desemprego tem a questão da moradia, da saúde mental, do relacionamento com o grupo familiar, então são vários aspectos. A maior parte são jovens. Eles têm escolaridade, têm um grupo familiar de referência, têm uma origem determinada, por exemplo, aqui em São Paulo a maioria não é do nordeste, é do sudeste. Isso até que nós entrássemos nessa crise que nós entramos, que aí aumenta também o número de pessoas do nordeste”.

Ele também comentou a importância da moradia, alimentação e de agasalhos para enfrentar a atual frente fria. “O frio atinge a todos, eu sinto frio, você sente frio, todo mundo sente frio, mas quem morre de frio é o pobre, é o pobre que morre de frio. A gente não ouve nenhum lugar que o morador da cobertura, do condomínio morreu de frio, ninguém morre de frio se está dentro de casa, se está agasalhado, alimentado e protegido. Quem morre de frio é quem está calçada. O frio é bem democrático, porque todos sentem, mas é muito autoritário, porque mata os moradores de rua. Nesse sentido temos que ter muita clareza, há ondas de solidariedade nesse momento, muitas pessoas se mobilizam porque todos sentem o frio, mas ele mata o pobre, ele mata aquele que é, como chama o Papa Francisco, o descartado, o abandonado, por todas as instâncias”.

O padre também fez críticas às igrejas que não se colocam em posição de ajudar as pessoas em situação de rua. Além disso, afirmou que os espíritas, juntamente com os ateus e sem religião, são imbatíveis na presença nas ruas. O também coordenador da Pastoral do Povo de Rua criticou ainda a política do governo que não visa, segundo ele, a autonomia da pessoa em situação de rua. Júlio Lancelotti disse também que o governo da deputada federal Luiza Erundina (PSOL-SP) à frente da Prefeitura de São Paulo foi o melhor para a população de rua.

“Os Centros de Acolhida, antigos albergues, em São Paulo, a única coisa nova que eles têm é a tomada para o carregador de celular, de resto é a mesma estrutura desde 1940. É uma política de tutela, não é uma política que gere autonomia. Aqui em São paulo a prefeitura passou a se ocupar com a população de rua a partir da municipalização, que começou no governo da Luiza Erundina. Talvez a melhor prefeita para a população de rua tenha sido a Luiza Erundina. Ela sabia tratar e lidar com a população de rua, foi ela que iniciou a municipalização do atendimento com a população de rua e teve sempre um olhar de empatia, nunca olhou a população de rua como inimiga”, disse o padre.

Lancelotti pressionou o poder público por respostas sobre a qualidade dos Centros de Acolhida em São Paulo. “Precisamos de respostas do Poder Público no sentido de que, por exemplo, em São Paulo a prefeitura diz que tem 19 mil vagas para dormir a noite, você olha para a cidade e vê quantos mil pela cidade? Muita gente não vai porque não tem lugar, porque os lugares são distantes, são inadequados, insalubres, porque são lugares desumanizados ou muito burocratizados. Nós vivemos uma situação na qual o descartado é tratado com desprezo”.

Assista à entrevista na íntegra:

Publicado originalmente no site Brasil 247.