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Os estertores de uma (quase) Civilização brasileira

Os estertores de uma (quase) Civilização brasileira
28 de janeiro de 2019 Comunicação

por Xico Assis*

Nesta tarde tomei conhecimento de que um político brasileiro, representante destacado do povo LGBT, Jean Wyllys, renunciou ao mandato conquistado brilhantemente nas urnas e vai para o exterior. Isso, em linguagem clara, se chama exílio. Pode-se dizer que ele é o primeiro exilado político do governo que completa recém 24 dias.

As razões da decisão são fortes: insegurança, ameaças de morte, acusações infundadas que lhe afetam a saúde emocional e, claro, a sensação de sério risco que neste país vive quem tenha uma agenda que contemple defesa de direitos sociais, ambientais, étnicos e de gênero. A repercussão transpõe fronteiras, partidos e certamente torna o Brasil um país com menos qualidade de liberdade política. Vivendo certamente uma triste porção da sua história onde o princípio civilizatório está em risco, vivendo estertores que preocupam.

O gesto de Jean é um gesto de coragem, apesar de seus detratores festejarem esta decisão como um “arrego”, palavra que no nordeste significa fraqueza, covardia e outros sentidos conexos com a ideia de fragilidade.

O gesto de Jean é de resistência inteligente. E sabe por que? Porque chega de Marielles e Andersons, cujas vidas foram retiradas por causa de suas militâncias em defesa dos direitos humanos. Até o momento, seus algozes ainda se escondem por trás do manto de impunidade. As mesmas forças que mataram Marielle e Anderson estão ávidas por novos corpos. Não podemos lhes dar mais heróis tombados! Nós precisamos da voz e da militância das pessoas aqui no Brasil, é verdade, mas igualmente de quem possa construir fora do Brasil uma rede de solidariedade para resistir aos avanços do fascismo. Se, nos anos de chumbo, as baionetas impuseram o seu projeto, agora os votos de uma sociedade esgarçada, manipulada, trazem uma sustentação eleitoral que de maneira nenhuma pode se pretender comprometida com o maioria do povo brasileiro.

Meu receio é de que o gesto de Jean seja seguido por outras pessoas. Eu espero que mantenhamos nossas mãos cada vez mais unidas, sem largar ninguém, para a resistência cidadã. O mundo está se dando conta do risco que nossa frágil democracia vive. Tudo que se levou anos e décadas para construir está se desfazendo. O Brasil precisa voltar a respirar ares de civilização. E você Jean, onde estiver, vai estar em segurança para ajudar a construir a resistência contra as forças que querem destruir nossa natureza, nossos direitos e nossa liberdade de existir!

Por Xico Assis, publicado no blog do autor.

Foto de capa: trailer de documentário ‘Entre os Homens de Bem’, disponível em www.huffpostbrasil.com/2016/09/19/entre-os-homens-de-bem-jean-wyllys-enfrenta-conservadorismo-e_a_21698449/