Bem vindo(a) ao CEBI ! (51) 3568-2560

Não só de pão viverá o ser humano (Mateus 4,1-11) [Ildo Bohn Gass]

Não só de pão viverá o ser humano (Mateus 4,1-11) [Ildo Bohn Gass]
1 de março de 2017 Centro de Estudos Bíblicos
No próximo domingo, o primeiro da quaresma, queremos aprender de Jesus como enfrentar as tentações de satanás. Tentações que, como nunca, ainda hoje nos encantam e tentam desviar-nos do caminho de Deus, o caminho da vida.

Da oração diária de Jesus, e que ele pediu que também nós rezássemos, faz parte o seguinte pedido: “Pai, não nos conduzas à tentação, mas livra-nos do Maligno” (cf. Mateus 6,13). Isso revela que Jesus teve que enfrentar muitas tentações diariamente, a fim de se manter fiel à vontade do Pai, fiel à realização do seu reinado de partilha e de justiça. Movido por essa fidelidade, Jesus não sucumbiu diante das tentações de quem neste mundo tenta impor a injustiça e manter os seus privilégios. Tentações que seduzem muitos ainda hoje.

Tal como em Marcos e em Lucas, também em Mateus o relato das tentações de Jesus no deserto vem depois que João Batista preparou o caminho do Messias (Mateus 3,1-12). Agora, é Jesus mesmo que se prepara (Mateus 3,13-4,11) para assumir publicamente o projeto do Reino (Mateus 4,12-17).

No Antigo Israel, pessoas escravizadas recém libertadas da opressão do Egito foram, durante 40 anos, tentadas no deserto a voltar atrás e desistir do projeto de liberdade (Deuteronômio 8,2). Passaram por longo processo de purificação, superando as relações desumanas impostas pelo sistema egípcio. Aos poucos, aprenderam a confiar, a partilhar o pão e a descentralizar o poder (Êxodo 16-18). De forma semelhante, as tentações de Jesus no deserto são um resumo das dificuldades que ele enfrentou durante toda a sua vida (Mateus 4,1). Com a força do Espírito, superou a todas elas. A referência aos 40 dias de jejum faz memória do jejum de Moisés no monte, ao elaborar as “palavras da aliança” (Êxodo 34,28). Assim, Mateus apresenta Jesus como o novo Moisés, anunciando as “palavras da nova aliança”, do novo êxodo. Jejum e enfrentamento das tentações fazem parte da preparação de Jesus para a sua missão.

Do grego, diabo quer dizer aquele que “joga através”, que põe empecilho ou obstáculo no caminho de alguém. Do hebraico, satanás quer dizer “adversário”, “inimigo”. Para Jesus, é o inimigo do projeto de vida e de liberdade, do Reino de Deus e de sua justiça.

E quais foram as grandes tentações que Jesus enfrentou e que continuam a enfeitiçar-nos ainda hoje?

Em vez de soluções mágicas para a fome, Jesus propõe a partilha (Mateus 4,2-4)

Nas duas primeiras tentações, o diabo, da mesma forma como depois encarnado em fariseus e escribas, pede a Jesus sinais de sua filiação divina (Mateus 4,3.6; 12,38). Jesus, porém, mostra os verdadeiros sinais da presença de Deus em sua e nossa vida.

Na caminhada libertadora do Êxodo, o povo fora tentado quando não tinha o que comer. Diante da fome, também Jesus é tentado pelo diabo com o pecado da iniquidade, apresentando uma solução mágica e individualista que independe de uma sociedade justa. Jesus, que não é mágico, vence esta oferta do sistema mundano, citando Deuteronômio 8,3. De fato, para que haja vida digna é necessário que existam, além do pão, a água, a moradia, a saúde, a roupa, a educação, o trabalho, o lazer, o transporte, etc. Mas tudo isso somente é possível, quando vivemos conforme a vontade de Deus, isto é, segundo a sua Palavra. Pouco adiante no evangelho segundo a comunidade de Mateus, Jesus diria o mesmo de outro jeito: “Buscai primeiro o Reino de Deus e a sua justiça, e todas essas coisas vos serão acrescentadas” (Mateus 6,33).

Diferentemente do diabo, Jesus apresenta outra solução para a fome. É a partilha, a solidariedade (cf. Mateus 14,13-21; 15,32-39). Jesus tem claro que a busca de soluções mágicas mascara a realidade e não gera discernimento. Ao contrário, aliena e produz acomodação. Ao superar a tentação de soluções individualistas, Jesus desmascara a injustiça e propõe o engajamento na luta por vida em plenitude.

Em vez de prestígio individual, dignidade para todas as pessoas (Mateus 4,5-7)

Depois, o diabo seduz com o pecado do prestígio e da glória, através do espetáculo sensacionalista, do exibicionismo com poderes divinos (Mateus 4,5-6). São outras formas de poder. E, ainda, usando os anjos de Deus para chegar à fama.

Com a força do Espírito que recebeu no batismo (Mateus 3,13-17), Jesus cita Deuteronômio 6,16 para refutar mais essa oferta dos poderosos para que manipulasse o templo e a religião a seu serviço. Na proposta do Pai, porém, há glória quando todas as pessoas têm dignidade, são cidadãs, irmãs e irmãos (Mateus 12,48-50; 23,8-12). O bispo Oscar Romero diria: “A glória de Deus é a vida do pobre”.

Em vez de poder centralizado, autoridade que serve;

Em vez de riqueza acumulada, bens repartidos (Mateus 4,8-10)

Por fim, tal como Moisés no deserto fora tentando a concentrar o poder em suas mãos (Êxodo 18), o diabo também seduz Jesus com o pecado da ambição por poder centralizado. Jesus, porém, enfrenta este encantamento dos que aprisionam a verdade na injustiça (Romanos 1,18), citando Deuteronômio 6,13. Ele tinha claro que o poder acumulado a serviço de poucos é idolatria, é dominação (Mateus 20,25). Não é por acaso que Emerich Edward Dalberg dizia no final do século XIX: “O poder tende a corromper e o poder absoluto corrompe absolutamente”. Há algo mais satânico que o poder absoluto?

Na proposta de Jesus, o poder é participativo, é serviço, é lava pés (Mateus 20,20-28; João 13,1-17). O problema não é o poder em si, mas a concentração de poder. Poder horizontal é comunhão. Poder sobre é opressão. Em todo o caso, a ambição por poder e glória é uma das maiores tentações do diabo. E experimentamos essa condição humana em todas as nossas relações, grandes ou pequenas, seja em casa, na igreja, no trabalho ou até mesmo no supremo tribunal federal em Brasília.

Ao encantar Jesus com o poder sobre reinos, o diabo induz também ao pecado da riqueza acumulada, iníqua. No projeto da família de Deus, a riqueza tem sentido quando partilhada com os pobres, quando serve à vida (Mateus 19,16-22). O problema não é a riqueza em si. Esta é criação de Deus. Riqueza partilhada é divina (Mateus 6,20: “ajuntai para vós tesouros no céu”). Diabólica, porém, é a riqueza acumulada (Mateus 6,19: “não ajunteis para vós tesouros na terra”), pois ela gera fome para muita gente.

Em seu ensino e em seu agir, Jesus mostra que Deus não se revela em ações a-históricas (mágicas, sensacionalistas ou extraordinárias), mesmo que feitas em seu nome. A filiação divina de Jesus revela-se nas coisas mais simples, pois é ali que está o divino. Revela-se onde há solidariedade, acolhida, justiça, cuidado, isto é, onde a Palavra de Deus é vivida. E isso não percebe quem cultiva em seu coração a cobiça por riquezas ou a ambição por poder e glória. Somente percebe o sagrado no cotidiano quem busca viver na simplicidade em comunhão com o Pai, vivendo relações amorosas e justas em todas as dimensões de sua vida.

Na paixão de Jesus, mais uma vez o poder de satanás se faz presente na força do dinheiro, nos poderes de morte. Ele corrompe Judas (Lucas 22,3), seduz Pedro (Lucas 22,31) e encanta Jesus para que abandone o projeto do Pai (Lucas 22,39-46). E, mais uma vez, Jesus derrota os poderes deste mundo. Como sabemos, a sua fidelidade à vontade de Deus tem consequências trágicas. Porém, até hoje, sua morte tem sentido para nós, pois a doação de sua vida em favor de muitos foi por uma causa justa, divina.

Ao superar estas tentações com a força do Espírito recebido no seu batismo (Mateus 3,16), Jesus já começou a vencer os poderes de morte. Concedeu-nos a força do seu Espírito para que, como ele, também vençamos as seduções do diabo que levam à diminuição da vida ainda hoje. Por isso, pediu que sempre rezássemos com ele: “Pai, não nos conduzas à tentação, mas livra-nos do Maligno” (cf. Mateus 6,13). Dessa forma, seremos mais livres para colocar-nos a serviço da vida, aceitando o convite de Jesus: “convertei-vos porque o Reino dos céus (de Deus) está próximo” (Mateus 4,17).