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Fernanda Young, a maluca de Deus

Fernanda Young, a maluca de Deus
6 de setembro de 2019 Comunicação

por Tony Goes*

Em sua missa de sétimo dia, escritora me fez voltar a comungar

A igreja do Imaculado Coração de Maria lotou para a missa de sétimo dia de Fernanda Young. Famosos de diversas áreas, amigos de várias fases da vida e maluquetes em geral foram abraçar a família e rezar pela escritora. Tinha uma trans belíssima, um cara de vestido e outro de tiara de orelhinhas.

Quase o coquetel de abertura de um vernissage punk em uma galeria alternativa. Mas era missa mesmo, celebrada por um padre moderno que ressaltou que Fernanda e o marido Alexandre ajudaram muito na restauração da igreja centenária, perto da casa deles.

Pois é, galera: além de tudo, Fernanda Young era católica praticante. Uma maluca de Deus, e não há nada de contraditório nisso. Católico quer dizer universal; universal quer dizer para todo mundo.

Mas há setores fortes no Vaticano que fingem não saber disso e pregam a exclusão. O discurso do padre sobre Fernanda me emocionou às lágrimas, e de repente eu me senti acolhido pela Igreja onde fui criado – e de onde saí por vontade própria, por não compactuar com o machismo e a homofobia explícitos. Mas na manhã de hoje, no Imaculado Coração de Maria, me deu vontade de fazer algo que eu não fazia há muito tempo: comungar.

Comunguei.

Comuniquei-me, como diz a raiz latina. Depois parentes e amigos deram depoimentos, e Rita Lee – grisalha, curvada, voz tênue – leu a letra de “O Hino dos Malucos”, de Fernanda e Alexandre.

Na saída, após beijos e abraços, ainda ganhei um saquinho de balas e outro com sal grosso e um líquido que eu ainda não descobri o que é. Manias de Fernanda. Também levei para casa uma rosa amarela e um poster com a imagem aí ao lado – do outro lado tem o “Poema do Menino Jesus”, lido na voz de Maria Bethânia em uma gravação que abriu os trabalhos. Saí mexido, surpreso com o meu catolicismo renitente. Fernanda Young me fez voltar a comungar.

A maluca de Deus continua realizando milagres.

Publicado no blog do autor.