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Culto à Deusa Asherá na Bíblia: a jovem Ana Luisa Cordeiro fala de seu livro

Culto à Deusa Asherá na Bíblia: a jovem Ana Luisa Cordeiro fala de seu livro
Culto à Deusa Asherá na Bíblia: a jovem Ana Luisa Cordeiro fala de seu livro
12 de agosto de 2011 Centro de Estudos Bíblicos

"Algumas funções femininas são quase sempre canalizadas como atributos de um Deus caracteristicamente masculino. Acredito pessoalmente que a experiência com a Deusa possibilita falar do universo sagrado a partir do universo feminino sem necessitar da intermediação masculina. Isso ajudará a reforçar o caminho da igualdade. As relações de gênero precisam estar alicerçadas na parceria e no respeito."

Negra na tez e na opção, rosto jovem, sorriso sempre aberto. Ana Luisa Cordeiro (foto), acaba de lançar o fruto de sua pesquisa: Onde estão as deusas? Asherá, a Deusa proibida, nas linhas e entrelinhas. Aos 27 anos, Ana Luisa é Mestra em Ciências da Religião pela Pontifícia Universidade Católica de Goiás – PUC-GO. Atualmente, reside em Campo Grande/MS.

Leia a entrevista que concedeu ao CEBI:

CEBI – De onde vem o seu interesse pela pesquisa bíblica? Não é algo tão comum no meio da juventude.

Ana Luisa Cordeiro – Desde minha adolescência, sempre gostei de ler livros de história, sociologia, etc. Minha mãe é professora e tinha uma biblioteca acessível dentro de casa. Quando tive contato com o jeito de ler a Bíblia que o CEBI propõe, me encontrei e me encantei com este jeito pé no chão de falar e viver a religião.

CEBI – Por que a sua escolha em pesquisar sobre divindades femininas na Bíblia?

Ana Luisa Cordeiro – Bom, participei em 2003, no Rio Grande do Sul, de uma semana de estudo bíblico intitulada "A Bíblia na ótica do pobre e da mulher". O assessor, Ildo Bohn Gass, passou um documentário da Discovery: Asherah, The Forbidden Goddess (Asherah, a deusa proibida), que falava de Asherah, uma divindade feminina que aparecia em mais de quarenta citações bíblicas. E mais, que era uma divindade feminina nativa, ela não havia sido trazida de fora, da cultura de outros povos. Naquele dia, não consegui nem dormir direito, imaginando e pensando: por que essa história não é contada?

CEBI – Das descobertas que fez na pesquisa, qual sua maior surpresa?

Ana Luisa Cordeiro – Que a cultura é uma construção social e, como todo ato social tende a contar os fatos a partir do grupo que o faz e o registra, não existe neutralidade ao se contar uma história. E não foi diferente em relação à presença das divindades femininas.

CEBI – O que significa para você, enquanto jovem e negra, descobrir que na história de Israel, o culto a divindades femininas foi maior do que normalmente se imagina?

Ana Luisa Cordeiro – A questão é que muitos e muitas de nós vivemos e viveremos sem sequer imaginar, questionar ou supor tal realidade. Porque não só a história escrita, mas também a transmissão dessa história no decorrer dos anos abafaram a presença e memória das deusas no antigo Israel. Colocar parte dessa memória por escrito neste livro que agora vocês têm em mãos, expressa o desejo de levar as pessoas a descobrirem parte de uma história que foi negativizada e abafada. Aqui travo uma luta, uma reivindicação feminista e de gênero no campo simbólico da religião.

CEBI – Pela sua experiência em assessoria junto a comunidades cristãs, como tem sido a reação das pessoas quando você trata dessa temática?

Ana Luisa Cordeiro – Interessante. Até agora não houve nenhuma oposição radical de enfrentamento face a face. Mas nas vias online sim, principalmente de vertentes religiosas mais fundamentalistas. Geralmente os grupos de estudos bíblicos com os quais tenho contato se mostram interessados, instigados a buscar mais, a ampliar os horizontes, e isso é muito legal.

CEBI – O que significa essa experiência com a Deusa para a auto-estima da mulher?

Ana Luisa Cordeiro – Bom, nessa questão tão subjetiva posso dizer que para mim a experiência com a Deusa revela essa dimensão feminina das relações com o sagrado. É a oportunidade de falar de mulher para Mulher. Desde criança somos educadas e educados a rezar/orar para o Pai, Deus, Senhor, Rei, Poderoso, etc… e não para a Mãe, Deusa, Senhora, Rainha, Poderosa, etc. também… Algumas funções femininas são quase sempre canalizadas como atributos de um Deus caracteristicamente masculino. Acredito pessoalmente que a experiência com a Deusa possibilita falar do universo sagrado a partir do universo feminino sem necessitar da intermediação masculina. Isso ajudará a reforçar o caminho da igualdade. As relações de gênero precisam estar alicerçadas na parceria e no respeito.