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Crimes da sociedade do espetáculo [Juremir Machado]

Crimes da sociedade do espetáculo [Juremir Machado]
14 de junho de 2016 Centro de Estudos Bíblicos
Crimes da sociedade do espetáculo [Juremir Machado]
Guy Debord disse tudo no seu livro A sociedade do espetáculo, obra-prima de uma época fadada ao desaparecimento das obras-primas: o que aparece é bom. O que é bom, aparece.

Vargas Llosa, em A civilização do espetáculo, título de uma originalidade sem precedentes, chupou Guy Debord, Alain Finkielkraut e Jean Baudrillard. Citou o primeiro. Absorveu os outros.

O que é bom para aparecer? O que aparece por ser bom.

Ninguém sabe. Certo é que aparecer se tornou imperativo.

Pobre Voltaire. Seria tão ingênuo quanto o seu Cândido? É de Voltaire esta bela frase: “A primeira lei da natureza é a tolerância – já que temos todos uma porção de erros e fraquezas”. Na semana passada, em Lahore, no Paquistão, uma mãe queimou viva a filha de 16 anos por ela ter-se casado por amor. Ou seja, com o homem que escolhera. A menina foi atraída para uma falsa festa e incinerada. Um espírito etnocêntrico pode explicar o acontecido com facilidade: “O Paquistão não faz parte da civilização”.

Mas tem até bomba atômica.

Em torno de mil mulheres são mortas por ano no Paquistão em função de seus desatinos amorosos. Insistem em escolher com querem se deitar, fazer sexo, passar a vida ou parte dela. Morrem por isso. Entende-se que é um crime contra a honra familiar. No Brasil, como todo mundo sabe, uma guria foi vítima de um estupro coletivo praticado por 33 marmanjos. Não faltaram homens para tentar relativizar o ocorrido com observações impressionantes: “Mulher de bandido” e “ela gostava de suruba”. Os estupros coletivos, que alguns consideravam típicos de países pouco “civilizados” como a Índia, detentora da civilizada bomba atômica, não são incomuns no Brasil.

No último domingo, em Orlando, nos Estados Unidos, um dos lugares mais modernos do mundo, um fanático abriu fogo numa boate gay matando pelo menos cinco dezenas de pessoas e ferindo outras cinco dezenas. Mata-se por ódio ao amor. A frase de Voltaire precisa ser corrigida: “A primeira lei da natureza é a tolerância – já que temos todos uma porção de erros e fraquezas”. Não se trata de erro.

Nem de fraquezas. Mas de liberdade. E de respeito à diferença.

Voltaire era homem de frases e de grande esperança: “Encontra-se oportunidade para fazer o mal cem vezes por dia e para fazer o bem uma vez por ano”.

O atentado em Orlando ocorreu menos de 48 horas depois do assassinato, na mesma cidade, da cantora Christina Grimmie, de 22 anos. Ela foi morta quando dava autógrafos. Será um crime contra a honra? Contesta-se que exista uma cultura do estupro no Brasil. Finge-se ignorar que também há uma cultura da desigualdade. Haverá contestação de que existe uma crescente cultura da intolerância no mundo? Que essa intolerância tem muito a ver com liberdade sexual e de pensamento? Que a evolução tecnológica e científica não é sinônimo de liberdade de imaginário?

A grande guerra é entre o amor e o ódio.

O grande Voltaire, que combateu a vida toda a ignorância, o preconceito e a superstição, tomaria um susto com a permanência da intolerância 238 anos depois da sua morte. O Iluminismo vacila. O obscurantismo ganha novas roupagens. Talvez seja bem mais atual um poema inédito de Fernando Pessoa recém-descoberto: “Cada palavra dita é a voz de um morto./Aniquilou-se quem se não velou”. O fim está sempre muito próximo de algum princípio inflexível. Num ponto Voltaire continua imbatível: “A guerra é o maior dos crimes, mas não existe agressor que não disfarce seu crime com pretexto de justiça”.

O assassino de um policial e de sua mulher, na França, transmitiu 12 minutos sua obra no facebook live.

Quis mostrar ao mundo sua versão do espetáculo: o que aparece é bom. O que é bom, aparece.

Debord dizia que o espetáculo não canta os homens e suas armas, mas as mercadorias e suas paixões.

Mudou: o espetáculo não canta os homens e suas obras, mas o horror e suas obsessões.