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Criatividade pastoral em tempos de Francisco

Criatividade pastoral em tempos de Francisco
29 de julho de 2016 Centro de Estudos Bíblicos
Criatividade pastoral em tempos de Francisco
"A criatividade mencionada pelo Papa Francisco não tem nada a ver com excentricidade ou afastamento das grandes linhas da Tradição, mas sim, com a capacidade profética de abrir novos horizontes, de saber adaptar a palavra consoladora do Evangelho às cruzes da hora, de criar novos modelos e formas de pastoral e de renovar a linguagem para anunciar aos homens do nosso tempo a Palavra que nunca passa (Mc 13,31), que não é outra coisa senão continuar a realizar a intuição claramente profética de João XXIII, com a ideia do ''aggiornamento”, o papa que retomou o otimismo evangélico, ou seja, o olhar de misericórdia sobre o mundo e sobre o tempo de hoje", escreve Michele Giulio Masciarelli, em artigo publicado por Settimana News. A tradução é de Ramiro Mincato.

Uma paróquia capaz de "criatividade missionária"
Por Michele Giulio Masciarelli

1. Francisco pede para as paróquias espírito criativo. Para o Papa, a paróquia da "Igreja de saída" é uma comunidade dotada de dinamismo pastoral e missionário: "A paróquia – lê-se no manifesto do seu pontificado – não é uma estrutura caduca; porque tem grande plasticidade, pode assumir formas muito diferentes que requerem docilidade e criatividade missionária do pastor e da comunidade".

A criatividade mencionada pelo Papa Francisco não tem nada a ver com excentricidade ou afastamento das grandes linhas da Tradição, mas sim, com a capacidade profética de abrir novos horizontes, de saber adaptar a palavra consoladora do Evangelho às cruzes da hora, de criar novos modelos e formas de pastoral e de renovar a linguagem para anunciar aos homens do nosso tempo a Palavra que nunca passa (Mc 13,31), que não é outra coisa senão continuar a realizar a intuição claramente profética de João XXIII, com a ideia do ''aggiornamento”, o papa que retomou o otimismo evangélico, ou seja, o olhar de misericórdia sobre o mundo e sobre o tempo de hoje.

Debate-se, às vezes, se o Papa Bergoglio inspira seu pontificado no Papa Roncalli. Paul Rodari perguntou a um bispo teólogo, reitor da Pontifícia Universidade Católica de Buenos Aires, que o conhece bem, ao que ele respondeu: "Francisco é bastante diferente dos papas que o precederam, embora, é verdade, pode ter as características de um ou de outro. A coisa mais importante é que ele sempre segue o caminho que o Concílio indicou. Sem dúvida, ele prefere ficar fora das discussões teóricas sobre o Concílio, porque o que lhe interessa é continuar no mesmo espírito de renovação e reforma. […] Antes, aplica o Concílio na sua totalidade, sem pausa e sem retrocessos, com a intenção de varar a Igreja para fora de si mesma, para que possa chegar a todos . "Volta, assim, o tema da "Igreja em saída", o que, obviamente, também se estende à ideia de uma "paróquia em saída".

2. A criatividade pastoral leva o coração para céu e os pés para as becos. Uma pastoral criativa na paróquia, entre as muitas condições que requer, deve incluir um pré-requisito imprescindível, o da sua proximidade ou vizinhança ao povo, que o Papa Francisco expressa desta forma: "Isto supõe que, realmente, esteja em contato com as famílias e com a vida das pessoas, e não se torne uma estrutura prolixa, separada das pessoas, ou um grupo de eleitos que olham para si mesmos ". Isso explica, no modo mais surpreendente, que o impulso criativo não afasta a paróquia da sua própria história e da sua própria geografia, mas, ao contrário, a aproxima delas.

Dizia-se que isto é surpreendente, mas olhando bem, é apenas normal. Quando é que sentimos uma pessoa como estranha, uma proposta, como extemporânea, uma linguagem, como obsoleta, uma instituição, como distante? Sempre e somente quando passam distantes, para além das nossas necessidades, situações de vida e desejos do coração. A boa notícia evita tudo isso porque se engendra em encontrar formas de avizinhamento, formas de proximidade procurando resolver distâncias e afastamentos.

Neste contexto entende-se porque o Papa Francisco chama também as paróquias à renovação: "A paróquia é a presença eclesial no território, âmbito para a escuta da Palavra, do crescimento da vida cristã, do diálogo, do anúncio, da caridade generosa, da adoração e da celebração" .

Trata-se, no entanto, não da realização automática de uma fórmula, mas de um esforço pastoral nunca feito, que deve ser sustentado constantemente, alargado com generosidade, envolvendo, internamente, todos os membros da paróquia: "Por meio de todas as suas atividades, a paróquia incentiva e forma seus membros, para serem agentes da evangelização" .

Mais. A unidade da medida para fazer comunhão na paróquia não é mais dada por indivíduos, nem só por famílias, mas por sujeitos potencialmente maiores. Para Bergoglio a paróquia "é uma comunidade de comunidades, o santuário onde os sedentos vão beber para continuarem a caminhar, um centro de constante envio missionário" .

Refletindo sobre a criatividade evocada por Francisco

1. O valor pedagógico da "criatividade missionária" solicitada pelo Papa Francisco. É logo fácil entender que a criatividade – em sua proposição, motivação e prática – pode ser complexa e muito difícil de ser usada sempre e em todas as situações paroquiais, devido à escassez de recursos humanos e escassez de outras naturezas. No entanto, da criatividade a paróquia (mesmo a menor e mais modesta) não deve nunca desistir: particularmente urgente, nestes casos, será atingir todos os agentes de pastoral com ajudas e estímulos adequados da parte da diocese, das zonas pastorais e foranias, criando possíveis integrações úteis. A criatividade não é um talismã, mas é útil para a pastoral.

Claramente, a capacidade de interpretar criativamente os atos pastorais das paróquias são diferentes, mas é importante saber como participar, com humildade e com senso comum, à lei do possível, da gradualidade e até mesmo da parcialidade. Não devemos esquecer que o trabalho cristão precisa de modos criativos em tantos níveis: na escolha do momento certo, na escolha de códigos linguísticos elaborados mais adequadamente para a transmissão de mensagens de pré-evangelização e de evangelização; em colocar sinais mais significativos de testemunho, missão e pastoral; em exemplificar, no modo mais significativo; em usar, de forma inequívoca, o grande registro do silêncio.

De maneira interessante, a criatividade nos ajuda a ver além dos limites da existência, bagunçando e recombinando, além da maneira usual e padronizada, planos pastorais, estruturas organizacionais, modelos de estar no mundo e na Igreja e, especialmente, tentando usar o olhar direito (como o Papa Francisco ensina em sua refinada "pastoral do olhar") sobre os homens de seu tempo e de compreender – pelo menos um pouco – o mistério que trazem com eles, e o desejo que os anima e os retalha, na busca de Deus, de seu nome e de seu rosto.

2. Criatividade é bom, mas cuidado com as armadilhas do pensamento líquido. Vivemos num contexto sociocultural onde tudo é reduzido a forma cangiante, e estruturalmente mutável. É preciso, hoje, ter cuidado para não conceber a fé nas formas lábeis do pensamento debole e do pensamento líquido, sendo necessário, portanto, distinguir o crer do crer que se crê, e o crer do sentir que se crê. Ora, uma linguagem sem precisão, feita a partir de diferentes origens linguísticas, cedendo à moda, aforismática, a efeito, provocante, de supermercado, pode afetar a pureza do pensamento cristão que deve, obviamente, manter-se.

É verdade: muitos deixam de crer porque não sentem, ou não sentem mais sua fé. Esta é uma das contrafações atuais do crer mais insidiosas, que encontram fácil aceitação em nosso contraditório mundo pós-moderno, tão ávido e guloso de sensações e experiências mutáveis e inconsistentes, "líquidas" na verdade, efêmeras e transitórias, como há anos adverte sociólogo anglo-polonês Zygmunt Bauman.

3. Empenhar-se com inteligência e sabedoria pastoral, evitando o "killer" da criatividade. Finalmente, também pastoralmente a criatividade precisa impor seu tempo e até mesmo a sua lentidão, evitando assim, os que comumente são chamados de killers da criatividade:

1.A supervisão (excesso de controle);

2.A avaliação (preocupação com o juízo dos outros);

3.A recompensa (fazer infantilmente ou interessadamente a pastoral para agradar o superior);

4.A competição (conceber o trabalho pastoral sem respeitar os ritmos dos agentes das comunidades cristãs, etc.);

5.O controle excessivo (conceber a pastoral como ditado impositivo, e não como tema a ser feito, buscando todos os recursos humanos, carismáticos, ambientais que se possui);

6.Limitar as escolhas (sugerir sempre, de modo frequentemente obsessivo, nas realizações pastorais, título, objetivos, meios, tempos …);

7.Pressão (pressionar insistentemente sobre os meios, os tempos de realização e de verificação, tudo projetado ao minuto, tudo organizado com perfeição, impondo também metas excessivamente grandes, o que abre as condições para fracassos e decepções);

8.Hábito (que envolve pensar segundo esquemas habituais, que chamam à repetição obsoleta);

9.Medo de metástases (que cria ansiedade de estar errado, de perder algo, de regredir, de se expor, de ficar mal, de ser julgado, de não estar a altura);

10.O complexo de Hera (levando a agarrar-se aos ídolos, estereótipos, preconceitos, totens, ao invés de agarrar-se ao que está vivo e em evolução);

11.Baixa autoestima (o tom baixo da autoestima que priva da motivação e do estímulo necessário para operar projetos desafiadores).

Fonte:IHU. Via Adital.