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Contra genocídio, indígenas Gamela e Guajajara ocupam rodovias no Maranhão

Contra genocídio, indígenas Gamela e Guajajara ocupam rodovias no Maranhão
22 de junho de 2016 Centro de Estudos Bíblicos
Contra genocídio

No estado do Maranhão, duas rodovias amanheceram bloqueadas nesta segunda-feira (20) por protesto dos indígenas dos povos Gamela e Guajajara. Os indígenas manifestam-se em solidariedade aos Guarani e Kaiowá, vítimas do brutal ataque que resultou no assassinato do agente de saúde Kaiowá Clodiodi de Souza e deixou pelo menos outros seis indígenas feridos na semana passada, em Caarapó, no Mato Grosso do Sul. Além disso, eles denunciam a violência que também existe contra indígenas no Maranhão e manifestam-se contra os retrocessos em seus direitos constitucionais, sob risco em função de projetos como a Proposta de Emenda Constitucional (PEC) 215.

Os Gamela da aldeia Cajueiro ocupam desde cedo o quilômetro 50 da rodovia estadual MA-014, entre os municípios de Viana e Matinha, e reivindicam também a demarcação de seu território tradicional. Eles exigem a presença da Fundação Nacional do Índio (Funai) para encerrar o bloqueio, no qual só é permitida a passagem de ambulâncias.

Os Guajajara da Terra Indígena (TI) Pindaré, por sua vez, ocuparam durante a manhã um trecho da BR-136, nas proximidades do município de Santa Inês, e denunciam a violência e as ameaças contra seu povo.

“Muito se ouve quando fazemos mobilizações, na BR, por exemplo, como: que prejudicamos o direito de ir e vir das pessoas. No entanto, poucos respondem sobre: E o direito de viver, que nossos parentes não estão tendo simplesmente por estarem lutando por nossos chãos sagrados?. As BRs são liberadas em algum momento, mais quem trará de volta a vida nossos parentes assassinados?”, afirmam os Guajajara da Terra Indígena Pindaré, em carta divulgada durante a mobilização desta manhã.

Os Gamela da aldeia Cajueiro, em carta também divulgada nesta manhã, afirmam aos Guarani e Kaiowá: “O seu sangue derramado é também nosso sangue. Com vocês cremos: somos sementes que plantadas não morrerão”.

Assassinatos impunes e ameaças

A violência contra os povos indígenas é uma pauta comum aos povos do Mato Grosso do Sul e do Maranhão. Em 2016, entre os meses de março e abril, quatro indígenas Guajajara da TI Arariboia foram assassinados, em ações que permanecem impunes e são relacionadas à pressão dos madeireiros interessados na exploração de seus territórios tradicionais. Fernando Gamela, de 23 anos, também foi assassinado no mesmo período.

Em função da falta de estrutura da Fundação Nacional do Índio (Funai) e da omissão do Estado, os Guajajara são um dos povos que constituiram grupos de Guardiões para fiscalizar os limites de seus territórios, o que tem gerado uma série de violentas represálias, como as que vêm ocorrendo na TI Arariboia.

Em sua carta, os Guajajara da TI Pindaré afirmam sua solidariedade “às comunidades indígenas que perderam de forma covarde guerreiros e guerreiras em ataques racistas em nome do agronegócio” e repudiam “os assassinatos de nossos parentes indígenas mortos de forma cruel e odiosa, das quais fazemos tristemente referências, a algumas, como as mortes de: Aponuyre Guajajara, Genésio Guajajara, Isaías Guajajara, Assis Guajajara, Joel Gavião, Fernando Gamela, Eusébio Ka’apor e o mais recente, porém não menos cruel o de Clodiodi Guarani Kaiowá”.

“Hoje, quando os latifundiários e os madeireiros matam um índio, nada acontece, eles continuam impunes. Estamos aqui para chamar a atenção do poder público. Se nenhuma providência for tomada para barrar e investigar essa violência, nós vamos retornar para a BR”, afirma Bruno Caragiu Guajajara, que participa do bloqueio. “Queremos denunciar também as ameaças que otemos sofrido. Na TI Pindaré, tem lideranças que não podem nem sair de casa, ameaçados por defenderem nossa terra”.

Luta pela terra

No caso do povo Gamela, a luta pela demarcação de seu território tradicional também liga sua realidade à situação vivenciada pelos Guarani e Kaiowá no Mato Grosso do Sul. Há anos, os Gamela vêm exigindo que a Funai inicie os estudos para a identificação e delimitação de sua terra.

Em uma das ocasiões, quando reivindicavam o início do processo demarcatório de seu território tradicional, em Brasília, lideranças Gamela foram informadas de que haveria outros 400 processos à frente do seu. “Nos disseram que cada processo leva em torno de dez anos pra ser concluído. Mas nós não temos tempo de esperar 4 mil anos”, relatou, no ano passado, uma liderança à reportagem do Cimi. Em dezembro de 2015, em função da demora, os indígenas resolveram partir para a retomada de sua terra.

Desde então, os Gamela realizaram três retomadas em fazendas incidentes sobre seu território tradicional, numa das quais encontra-se a aldeia Cajueiro. Atualmente, 380 famílias Gamela vivem nos dois acampamentos das retomadas. Duas ações de reintegração de posse, ainda não julgadas, foram movidas contra os indígenas, que também chegaram a sofrer ataques de pistoleiros e convivem com a ameaça de fazendeiros.

“A coragem e a teimosia de vocês, parentes, continuam sendo uma luz que não nos deixa ficar confusos nestes tempos difíceis ao mesmo tempo que sustenta nossos pés na ciranda da dança e nossas mãos na luta que tece o mundo novo sem cercas e ódio”, afirmam os Gamela em sua carta dirigida aos Guarani e Kaiowá.

Segundo o relato de uma Gamela que participa do bloqueio à rodovia, os indígenas que se manifestam estão recebendo ameaças. “Teve gente que falou que ia dar tiro, que os índios são todos vagabundos por estarem trancando aqui. Até um delegado nos disse que nós estamos 'procurando levar tiro'”, afirmou a indígena, que prefere não se identificar por medo de represálias.

Segundo ela, os tiros nas proximidades das retomadas são frequentes e o último aconteceu há apenas quatro dias, à noite.