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A Sensibilidade de uma criança: Jether por ele mesmo

A Sensibilidade de uma criança: Jether por ele mesmo
3 de julho de 2020 Comunicação

Edmilson Schinelo[1]

 

Quem tem sensibilidade para com o pedido de uma criança

e leva esse pedido a sério, escuta profundamente a Deus.

 

As palavras são de Múria, integrante do CEBI nas terras de Goiás, referindo-se a Jether Ramalho. Pessoa de visão ampla, cofundador de inúmeros organismos e entidades, entusiasta da causa ecumênica, portador de um “faro” para sentir lideranças nascentes (como a jovem negra Benedita da Silva, a quem ajudou projetar), articulador internacional nas resistências contra as ditaduras… e, ao mesmo tempo, sensível ao pedido de uma criança…

Jether Ramalho (dir.), ao lado de Walderes Brito, em reunião do Conselho Nacional do CEBI. São Leopoldo/RS 2004. Jether e Walderes se encontraram na eternidade.

Estávamos em reunião do Conselho Nacional do CEBI, em São Leopoldo/RS. No intervalo do primeiro dia, uma criança de cinco anos, filha de uma das pessoas da equipe da secretaria do CEBI, deixa em suas mãos uma boneca: “vovô Jether, você cuida dela?”. Nos três dias de trabalho que se seguiram, a boneca (na verdade, uma “banana de pijama” já sem pijama) foi do quarto para a sala de reuniões, e da sala de reuniões até para o local das refeições. Com o carinho e o cuidado de quem aprendeu que a seriedade da vida pode ser mais leve quando se escuta profundamente a Deus… no pedido de uma criança.

Rubem Alves dizia que Jether era um adolescente que sempre gostava de brincar. De fato, ao primeiro contato, seu jeito aparentemente formal logo dava espaço à candura. O mesmo podia ser dito de Lucilia, que agora Jether revê na eternidade. Ele, evangélico, congregacional, ela, de formação católica. Ele, filho de um trabalhador rural que se tornou operário, depois pastor de comunidades pobres. Ela, filha de migrantes espanhóis, apaixonada pela música. Ele, Jether, um dentista bem sucedido (depois de vencer a pobreza) que, em função de seus sonhos, abandona a odontologia para cursar ciências sociais e trabalhar apaixonadamente a responsabilidade social das igrejas e a construção da oikoméne para todas e todos. Ela, Lucilia, mulher à frente de seu tempo, que decide cursar biblioteconomia até mesmo para incentivar a filha e os filhos em seus estudos.

Jether sendo “ungido” por Adeodata Maria dos Anjos, do CEBI-PI, durante reunião do Conselho Nacional do CEBI.

Da última vez em que tive oportunidade de visitar o Jether, pude ouvir de sua boca, mais ainda, de sua alma: “Sinto que Lucília e eu envelhecemos devagar, porque envelhecemos juntos. Um dos dois vai para o céu primeiro. Mas já vivo uma espécie de céu ao lado dela”. Para Rubem Alves, Jether tinha toda a razão: Há pessoas cuja simples lembrança de seu rosto nos faz sorrir. É o caso de Lucilia. Eu a defino: a Lucilia é um prazer de viver cercado de carne por todos os lados.

Os parágrafos abaixo são, em sua maioria, palavras dele próprio, Jether por ele mesmo. E de sua companheira Lucilia. Com a autorização da editora e de José Ricardo[1], filho de Jether, transcrevemos trechos que pulsaram da memória e do coração daquele que, nas palavras de Rubem Alves, foi “pastor de esperanças”.[2] Escutemos…

Meu pai era uma pessoa simples, um lavrador. Ele cuidava da roça em um lugarejo do Estado do Rio de Janeiro, chamado Caçaria. Foi trabalhador braçal durante alguns anos de sua infância e adolescência, mudou-se depois para uma pequena cidade chamada hoje Paracambi e lá é levado por amigos para uma igreja evangélica – Igreja Evangélica Congregacional de Paracambi. De lavrador, passou a operário. […] Os pastores e as lideranças da igreja começaram a observar uma potencialidade muito grande em se tornar pastor.

O pai de Jether consegue estudar com apoio da Igreja Evangélica Fluminense. E mais tarde, já pastor, casa-se com uma professora primária da Igreja Presbiteriana do Rio de Janeiro. Jether fala da influência de seu pai: Seus sermões eram verdadeiramente aula de Bíblia. Acredito que minha militância pela causa ecumênica teve influência de meu pai. […] Construiu mais de vinte templos, e nunca escreveu na frente do templo – Igreja Congregacional. Perguntei a ele: “Por que o senhor não põe o nome da denominação?” Ele respondeu: “Não, meu filho, o importante não é destacar congregacional, batista, presbiteriana. O importante é que aqui existe um templo evangélico. Jether lembrava que o termo “evangélico” para seu pai, tinha mais a ver com a prática libertadora de Jesus do que com a confessionalidade. Seu pai tornou-se um dos sustentáculos para a ação social da igreja que naquela época tinha feições assistencialistas.

Evidentemente, uma visão de responsabilidade social da igreja, com viés político e teológico mais efetivo, só viria mais tarde. Inclusive com a grande contribuição de Jether. Mas isso a partir de sua própria casa:

Meus filhos cresceram, envolveram-se em um processo político bastante intenso. Liderados por Wladimir Palmeira e Luis Travassos, nas passeatas estudantis de 1968, um deles foi baleado pela polícia e quase perdeu a perna. […] O Jornal do Brasil fez uma reportagem sobre isso e foi lá em casa. Perguntaram se tínhamos dado a permissão para ele participar da passeata. Dissemos que sim e saiu publicado.

Lucilia continua:

Durante a ditadura, hospedamos muita gente aqui em casa. O Paulo Wright esteve conosco. Fomos os últimos a ver o irmão do Zwinglio, o Ivan[3]. Uma semana depois, ele estava morto. […] Muitos participantes das igrejas foram muito torturados.

Excelente articulador, Jether sempre soube colocar tal capacidade a serviço da vida: Tínhamos a assessoria de Paulo Freire, que estava (exilado) no Chile. Na época, aconteceu o golpe contra Salvador Allende. Fomos encontrá-lo, conversei com ele sobre sua situação e perguntei se estudaria a possibilidade de trabalhar no Conselho Mundial de Igrejas. Respondeu que sim, não podia mais ficar naquele país. Levamos essa sugestão ao Conselho. Muitos anos depois, quando Paulo Freire regressa do exílio, Jether tem a alegria de hospedá-lo.

Nossa gratidão ao parteiro do novo

O metodista Julio de Santa Ana, uruguaio, veio trabalhar no Brasil a convite de Jether, a quem chamou de “mestre em rigor e lealdade”. Para Zwinglio M. Dias, Jether foi um “articulador dos sonhos”.  Leonardo Boff o chamou de “ancião bíblico, mestre e companheiro”. Mas é de nosso querido Beozzo uma das definições mais bonitas: Jether foi um parteiro, referindo-se à criação do CESEEP, mas também a tantos outros organismos, entre os quais o CEBI: “parteiro de uma criança desejada e promissora, mas cuja gravidez se prolongava para além do tempo”.

Em tempos de crescimento de fundamentalismos e intolerâncias, lembrando o que disse Tereza Cavalcanti, “Jether é, de fato, uma pessoa que oferece uma visão positiva e alegre da história e da realidade, ainda que esteja bem consciente das limitações e das dificuldades que todos enfrentamos.”

Orgulho-me de dizer que fui um dos fundadores do Centro de Estudos Bíblicos – CEBI, disse Jether várias vezes. E, humildemente, o CEBI se orgulha muito de poder ter contado com sua ajuda, Jether. Em cada reunião, em cada estudo, você sempre chamou a atenção para nossa vocação ecumênica. Não apenas e nem principalmente um ecumenismo institucional. Suas palavras continuam ecoando em nós:

O ecumenismo é um processo tão rico, que não pode ser reduzido às expressões institucionalizadas que, sem dúvida, são importantes e significativas. Não é monopólio de nenhum grupo, nem uma simples estratégia eclesiástica. […] O ecumenismo se expressa lindamente na base das igrejas e nos movimentos populares. Para enfrentar problemas comuns que afetam a vida das pessoas, como o desemprego, a falta da terra, as deficiências das condições sanitárias, as diversas formas de exclusão, etc., as diferenças esmaecem, e a solidariedade, a fraternidade e o amor falam mais alto.[1]

Continue nos ajudando, Jether, precisamos da criança que habitou você. Você nos ajudou a descobrir quem é Deus: alguém que, lembrando mais uma vez Rubem Alves, “quer mesmo é ver o sorriso de criança da gente diante do grande banquete que é o mundo”.

[1] Edmilson Schinelo reside em Campo Grande/MS. Católico, é colaborador voluntário junto ao CEBI – Centro Ecumênico de Estudos Bíblicos. E-mail: [email protected]

[1] Jether Ramalho, Ecumenismo, fonte de Esperança. In: Heitor da Silva e Odja Barros (orgs.). Como um só povo: Reflexões em torno da unidade da Igreja. Série PNV 256. São Leopoldo: CEBI: 2009.

[1] RAMALHO, José Ricardo (Org.). Uma pessoa no tempo: a vida de Jether Ramalho. São Leopoldo: Oikos, 2010. Os depoimentos de Jether e Lucília, bem como boa parte das falas das demais pessoas, quando não citada outra fonte, são extraídas dessa publicação.

[2] O título é recuperado por Magali Cunha, em seu artigo publicado em 02 de julho, no sítio de Carta Capital: Em memória de Jether Ramalho, um “evangélico raiz”. (https://www.cartacapital.com.br/blogs/em-memoria-de-jether-ramalho-um-evangelico-raiz/).

[3] Paulo Stuart Wright foi preso, torturado e morto em 1971. É irmão do Pastor presbiteriano Jaime Wright.  Ivan Mota Dias, irmão do teólogo presbiteriano Zwinglio Mota Dias, foi preso no Bairro das Laranjeiras, no Rio de Janeiro, em maio de 1971. Foi torturado e assassinado pelos militares. Os corpos de ambos nunca foram encontrados.