Bem-vindo ao CEBI! (51) 3568-2560 | [email protected]

Quem defende o bem comum é comunista ou segue o Evangelho?

Quem defende o bem comum é comunista ou segue o Evangelho?
31 de maio de 2019 CEBI Secretaria de Publicações

por Padre Ticão, via Carta Capital*

Uma reflexão de Dom Helder Câmara para os “homens de bem” que se esquecem dos ensinamentos de Jesus Cristo

“Quando eu dou de comer aos pobres, me chamam de santo. Quando eu pergunto por que eles são pobres, me chamam de comunista!”
– Dom Helder Câmara

Começamos nossa reflexão de hoje com esta frase de Dom Helder Câmara, que muito incomodou e continua a incomodar aqueles que se autointitulam conhecedores de todas as verdades e que se dão o direito de classificar ideologicamente homens e mulheres que defendem o bem comum. E o pior: fazem isso se autodenominado “evangelizadores e defensores da moral e dos bons costumes” que falam em nome de Jesus Cristo.

Servindo-se, em muitos casos, da liberdade religiosa garantida pela Constituição, abrem “igrejas” as quais classificam como “cristãs” e a partir delas buscam espaços livres nas redes sociais, compram a preços exorbitantes horários em rádios e tevês e passam a produzir revistas e jornais com conteúdos agressivos distribuídos “gratuitamente”.

Munidos por esses equipamentos, passam a agir como juízes de um tribunal capaz de julgar e condenar seres humanos ao “fogo do inferno”, classificando-os como comunistas, esquerdistas, petistas, marxistas, dentre outros, simplesmente por defenderem direitos iguais para todos. Para estes “juízes e seus algozes”, direitos iguais ou bem comum são o mesmo que comunismo.

Mesmo as igrejas cristãs mais antigas e tradicionais sofrem com esse tipo de “pregação e comportamento” oriundos de líderes religiosos que não admitem se despojar de sua “proteção institucional”, de suas vestes “armaduras” e de suas insígnias e irem para o meio do povo marginalizado, pobre, abandonado e condenado a viver na miséria.

Parece até que se esqueceram de que foi para estes que o Cristo veio e foi vivendo entre eles que Ele nos ensinou o verdadeiro sentido do amor, do perdão, da misericórdia e da partilha.

O Evangelho de João, capítulo 10, nos apresenta uma passagem da vida de Jesus que nos permite traçar uma comparação com os acontecimentos narrados e nossa sociedade atual.

O cenário descrito por Jesus, apresenta elementos diversos: o pastor, a porta, as ovelhas, gente estranha. A incompreensão dos fariseus intensifica a certeza de que eles estão cegos (Jó 10, 1-6). Nos versículos 7 a 18, as palavras de Jesus sobre a cena apresentada aos fariseus reforçam as diferenças no modo de agir: enquanto estes se ocupam apenas com seus próprios interesses, o sentido da missão e obra de Jesus é a vida plena da humanidade (Vers. 10), e é para isso que ele forma em torno de si uma comunidade.

Diante do exposto, podemos inferir que o projeto de Jesus pressupõe uma sociedade onde o bem comum se sobreponha, definitivamente, aos interesses corporativos de grupos organizados e inescrupulosos que não se importam com o bem-estar do próximo.

Hoje, cabe a nós, cristãos comprometidos com os ensinamentos do Cristo, trabalharmos por uma sociedade mais justa, onde milhões –sobremaneira idosos-, não sejam obrigados a viverem com míseros 400 reais por mês, como previsto na Reforma da Previdência.

O papa Francisco nos ensina:

“O bem comum pressupõe o respeito pela pessoa humana como tal, com direitos fundamentais e inalienáveis […] O bem comum exige a paz social, isto é, a estabilidade e a segurança de uma determinada ordem, que não se realiza sem atenção especial à justiça distributiva […] Toda a sociedade – e especialmente o Estado – tem a obrigação de defender e promover o bem comum. [….] Nas condições atuais da sociedade mundial, onde há tantas desigualdades […] o princípio do bem comum se torna imediato, como consequência lógica e inevitável, em um apelo à solidariedade e em uma opção preferencial pelos mais pobres.

Defender e lutar pelo bem comum não é ser comunista… É ser cristão.

Artigo escrito em parceria com o Professor Waldir, licenciado em Filosofia e bacharelando em Teologia, agente pastoral, escritor e assessor de movimentos sociais. Publicado originalmente por Carta Capital.

Foto de capa: Dom Helder Câmara/Wikimedia