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Comentário do Evangelho: Festa da Santísssima Trindade

Comentário do Evangelho: Festa da Santísssima Trindade
12 de junho de 2019 Centro de Estudos Bíblicos
Esta reflexão do evangelho é referente à passagem de Jo 16, 12-15, e o texto é de Tomaz Hughes, padre irlandês que trabalhava no Brasil como assessor bíblico desde 1971.

Boa leitura!

“O Espírito não falará em seu próprio nome”

No próximo domingo celebramos o mistério insondável de Deus, a Santíssima Trindade. Durante os primeiros séculos da sua existência, a Igreja tinha dificuldade para expressar em palavras o inexprimível – a natureza do Deus em que acreditamos. Chegou à expressão belíssima do Credo Niceno-Constantinopolitano, infelizmente tão pouco usado nas celebrações de hoje, onde celebra o Pai “criador de todas as coisas”, do Filho, “Deus de Deus, Luz da Luz, Deus verdadeiro de Deus verdadeiro, gerado, não criado”, e o Espírito que “dá a vida e procede do Pai e do Filho”. Mas mesmo essas expressões tão profundas não conseguem explicar a Trindade, pois se Deus fosse compreensível à mente humana, não seria Deus.

O Quarto Evangelho traz-nos formulações muito bonitas referentes à Trindade, especialmente no último Discurso de Jesus. Nesses capítulos (13-17), ele é representado como o Paráclito, uma palavra grega que significa, em nossa linguagem, o Advogado de Defesa. Em diversos textos, João expressa a função do Espírito dentro da comunidade pós-ressurrecional. No capítulo 16, de onde se tira o texto de hoje, existe um trecho trinitário: os vv. 13-15 se referem ao Espírito, os vv. 16-22 a Jesus e os vv. 23-27 ao Pai.

No texto de hoje, a função de ensino do Espírito é enfatizada. Como no Cap. 14, um texto paralelo, esse ensinamento não trará nada de novo. Jesus já recebeu tudo do Pai e o Paráclito recebe tudo de Jesus. Mas o ensinamento dele vai fazer com que os discípulos compreendam melhor o que significava o ensinamento que receberam de Jesus. Vai fazer com que eles “recordem” as suas palavras e, assim, consigam colocá-las em prática. O termo “verdade”, que se usa neste texto, tem o mesmo sentido que tem em outras passagens do Quarto Evangelho. Verdade é a fé em Jesus como revelação de Deus e que fala as palavras de Deus (cf. Jo 3,20.33; 8,40.47).

Dentro das limitações da linguagem humana, tentamos expressar o mistério da Trindade como “três pessoas numa única natureza”. Mais importante do que encontrar fórmulas abstratas para expressar o que no fundo é inexprimível, é descobrir o que a experiência com o rosto plural da Trindade pode nos ensinar para a nossa vida cristã. Talvez o livro de Gênesis possa nos ajudar. Lá se diz que Deus “criou as pessoas à sua imagem; à imagem de Deus ele as criou; e as criou macho e fêmea” (cf. Gn 1,26-27). Se todas as pessoas são criadas à imagem e semelhança de Deus, então ele é um Deus que é relação e tem rosto plural, feminino e masculino. Portanto, é uma Divindade comunitária, familiar, na diversidade.

Assim também acontece conosco. Somente podemos ser pessoas realizadas na medida em que vivemos comunitariamente.

Quem vive só para si é destinado à frustração e à infelicidade, pois está negando a sua própria natureza. O egoísmo é a negação de quem somos, pois nos fecha sobre nós mesmos. No entanto, somos pessoas criadas à imagem de um Deus que é o contrário do individualismo, pois é Trindade. No mundo pós-moderno, onde o individualismo social, econômico e religioso é tido como critério fundamental da vida, a experiência com a Trindade nos desafia para que vivamos a nossa vocação comunitária, criando uma sociedade de partilha, solidariedade e justiça, no respeito ao diferente, às outras pessoas, pois fomos criados na imagem e semelhança deste Deus que e amor e comunhão. A festa de hoje não é de um mistério matemático – como pode ter um em três? – mas do mistério do amor de Deus, que nos criou para que vivêssemos comunitariamente na sua imagem e semelhança.

Texto partilhado pelo autor. Pe. Tomaz faleceu em maio de 2017 deixando saudades aos amigos, amigas e companheiros(as) da Conferência dos Religiosos do Brasil (CRB Nacional) e do Centro Ecumênico de Estudos Bíblicos (CEBI), entidades em que atuava como biblista.