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“Deus acima de tudo”, em tempos de Coronavirus

“Deus acima de tudo”, em tempos de Coronavirus
17 de maio de 2021 Comunicação

 Por Frei Aluísio Fragoso*

 

Está aí um mistério que não encontra repouso em minha mente inquieta: a paciência de Deus. Como é possível, da parte Dele, suportar uma infinidade de usos e abusos: mentiras, violências, hipocrisias, genocídios, guerras, cometidos em seu nome! Cheguei a imaginar que se trata de uma reação de prudência. Sendo Ele onisciente e onipotente, qualquer intervenção sua seria vista como abuso de poder.Há um caso, no entanto, que dispensa todas as medidas de prudência: a defesa de crianças contra crimes hediondos (aliás, qualquer agressão a uma criança é um crime hediondo.) 

 Já vi cenas de pais e de mães entregando seu corpo ao perigo de morte iminente, para proteger seus filhinhos. E o Pai do Céu? – Prefiro conter a vontade de protestar, deixando-me tocar por duas convicções pessoais: os mistérios maiores da natureza humana não cabem dentro do nosso limitadíssimo cérebro. Há muita coisa que não entendemos e nunca entenderemos; afirmar isso não é atentar contra a razão, mas reconhecer seu limite. Depois, acredito firmemente que Deus não permite a uma criança sofrer a dor física relativa a estes crimes. 

 Na ordem das idéias, consigo conviver melhor com os paradoxos e as “loucuras” dos filósofos. Sempre me doía n’alma ouvir Marx declarar que “a religião é ópio para o povo”. Até descobrir, com o tempo e a visão dos fatos, que ele tinha razão. Há certas práticas religiosas que produzem nos devotos o mesmo efeito do ópio: total alienação da realidade (exemplo: “aceite com paciência e humildade as injustiças desta vida, para merecer  a Justiça de Deus na vida futura”.) 

 Doía-me mais ainda a declaração de Nietzsche: “Deus está morto”. Encarei esta blasfêmia como um desafio. Outras leituras mais atentas do mesmo autor abriram-me o entendimento. Ele não está significando que o Ser Supremo deixou de existir. Está questionando comportamentos humanos derivados da Fé, rebelando-se contra uma certa moral nascida da prática religiosa (recusar presentes da vida em troca de um objetivo imaginário). Recusando Deus, podemos nos livrar de repressões impostas em nome Dele. Renego esta última conclusão, mas não há como negar a parte de Verdade contida nas premissas. 

 Marx e Nietzsche estavam se referindo a uma prática religiosa e a uma Divindade que não tem nada a ver com o Deus da minha Fé. Já não me sinto agredido e até lhes agradeço, como D.Helder agradecia aos seus adversários, porque o obrigavam a aprofundar, rever, se necessário, e consolidar suas convicções. 

 Completando seu pensamento, Nietzsche acrescenta: “…. e foram os cristãos que O mataram”. Este complemento me oferece uma ponte para focar o tema da nossa reflexão, “Deus acima de tudo”. Nos lábios de um devoto esclarecido, este refrão se torna uma bela oração de louvor. Mas dele também resulta “a morte de Deus”, quando utilizado para fins de dominação política. Na verdade, o que se busca é uma legitimação para determinados propósitos e estratégias. Que estratégias? Elas povoam diariamente o noticiário da grande mídia e das redes sociais: a disseminação do ódio, a cultura da violência, a religiosidade rancorosa, a perseguição contra as minorias sociais, em suma, um vasto programa de mortes. 

 Por um momento juntemo-nos aos apóstolos de Jesus, na Última Ceia,  para ouvi-lo proclamar: “meu mandamento é este: amai-vos uns aos outros  como eu vos amei, e ninguém tem maior amor do que aquele que dá a vida pelos seus”. Misturemo-nos com a multidão e O escutemos dizer: “tudo que fizerdes a um dos vossos irmãos, é a mim que fazeis”. 

 Por conseguinte, na morte de um filho de Deus está “a morte de Deus” e aqueles que a executam são “assassinos de Deus”. Desta forma, a manipulação da legenda “Deus acima de tudo” converte-a na negação do Deus vivo e verdadeiro presente no meio de nós.  

Nietzsche deve estar rindo em sua tumba, na Alemanha. Mas não queremos que fique com ele a última palavra. Voltaremos ao assunto. 

 

 

* FREI ALOÍSIO FRAGOSO – Franciscano, Guardião do Convento de Santo Antonio, Provincial da Primeira Províncial franciscana no Brasil, a de Santo Antônio, com sede em Recife e abrangendo ainda todo o Nordeste, parte da região Norte e as casas de Mettigen e Bardel, na Alemanha.Vigário cooperador das Comunidades do Coque e de Bola na Rede, comunidades essas do Recife.

 

Amanha publicaremos a segunda partre desse artigo do Frei Aluisio Fragoso

 

Foto crédito: EL Pais/Fernando Bizerra