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Centenário Paulo Freire (1ª Parte)

Centenário Paulo Freire (1ª Parte)
13 de setembro de 2021 Comunicação

Por Jairo de Carvalho *

 

  1. Paradigma Social

O povo brasileiro é acolhedor e tem um grande espírito de partilha, principalmente entre os empobrecidos. A cada dia, cresce neste povo a consciência da participação política por acreditar que com o potencial econômico do país, a erradicação da pobreza deveria ser meta prioritária de seus governantes, mas estes, alinhados com o neocolonialismo econômico e cultural, produzem crianças subnutridas, jovens desorientados, indígenas e afro-americanos segregados, camponeses desapropriados da terra, operários mal remunerados, anciãos marginalizados, famílias na miséria. O materialismo e o individualismo jogam as pessoas no consumismo. Os valores se deterioram diante de exemplos impunes de vícios e corrupção. Os meios de comunicação social se deixam cooptar pelos donos do poder e alienam o povo de sua real situação. As raízes dessa crise estão num sistema econômico que prioriza o lucro, e esquece o homem e a natureza, o direito à vida. A voracidade das multinacionais gera uma inexorável dependência tecnológica dos países do hemisfério sul. A corrida armamentista alimenta os golpes de estado das ditaduras militares na América Latina e garante o saldo positivo das indústrias bélicas.

Esse era o quadro social quando foi idealizada a Pedagogia do Oprimido, na década de 60 do século XX. Agora, 2021, no Centenário de Paulo Freire, fazemos a sua releitura, profundamente influenciados pelo nosso cotidiano, que de uma situação de opressão, passou para uma situação de exclusão, na qual percebe-se que a ação pedagógica no Brasil continua se dando no meio de muitas contradições: o moderno ao lado do atrasado, a riqueza de uns ao lado da miséria de muitos, a democracia ao lado do autoritarismo. Passamos de uma Ditadura Militar para uma Democracia formal; uma nova Constituição foi promulgada (1988), experimentamos o desastroso primeiro governo civil eleito pelo voto (Collor – 1990); ONGs foram despontando; o MST passou a ter uma grande interlocução social e política, a estrutura familiar mudou, os centros urbanos se abarrotaram de excluídos/as. Não podemos esquecer do papel da Consulta Popular, a qual conseguiu mobilizar vários movimentos sociais e forças políticas de esquerda, que até então estavam diluídas na década de 90, bem como o Fórum Social Mundial. Apesar do crescimento do fenômeno religioso carismático, as pastorais sociais e as CEBs continuam seus trabalhos. A união desses movimentos, desses sujeitos sociais, teve uma grande alegria ao ver que “a esperança venceu o medo”, quando um nordestino da classe operária, Luiz Inácio LULA da Silva, foi eleito, em 2002, presidente da República Federativa do Brasil.

Dentro de todos esses anos, quantos/as pessoas não conheceram a Pedagogia do Oprimido e nela se alfabetizaram, e com ela se emanciparam. Assim como aconteceu com Lula: de retirante ruralista do sertão pernambucano a torneiro mecânico no ABC paulista; de forrozeiro, namoradeiro, peladeiro de futebol a líder sindical, de cofundador da CUT e do PT a deputado federal constituinte e daí a Presidente da República (2003 a 2010). Pois é nisso que reside a atualidade da Pedagogia do Oprimido: a emancipação dos/as oprimidos/as. Se fosse apenas uma técnica de alfabetização, poderia sim ser suplantada por outra mais eficaz. Mas a ação pedagógica freiriana tem uma opção clara, um chão firme, um sujeito-objeto bem determinado: os excluídos e excluídas.

Após um nordestino operário, os movimentos sociais elegeram a primeira mulher presidenta do Brasil, Dilma Rousseff (2011 – 2016). A essa altura, os movimentos sociais já eram bem plurais em suas bandeiras antirracistas das juventudes urbanas até as comunidades indígenas e quilombolas; bandeiras pela diversidade sexual e de gênero, bem como pela inclusão em toda a estrutura educacional de estudantes com deficiência e transtornos globais. Bandeiras ecológicas e territoriais, entre tantas outras bandeiras específicas.

Mesmo com sua lentidão e até revezes, o avanço das demandas populares viu, em 2016, setores capitalistas e cristofascistas instalarem um Golpe que destituiu a presidenta Dilma. Os autores do Golpe, passados cinco anos, assumem em livros e em entrevistas que se tratou verdadeiramente de um Golpe, que resultou em uma política de militarização das instâncias do governo, acesso da população (qual?) às armas de fogo, uso de uma pandemia de covid como arma biológica genocida, desrespeito aos direitos constitucionais, inflação, desemprego e até o último ponto final desse texto, uma possibilidade de golpe militar.

Nesse novo cenário que se descortina com as comemorações do centenário de Paulo Freire (2021), em várias dimensões da vida ainda se vê a hegemonia da concepção bancária da vida e da educação, tornado atualíssima e urgente a proposta de Paulo Freire como sendo contra-hegemônica, pois subversiva e, portanto, política.

  1. Paradigma Epistemológico

A vida das pessoas fala mesmo no silêncio, mas queremos que essa fala vire palavra. Palavra que enxerga o ser e o recria. Apostamos que, assim, podemos ver o povo resgatar a sua dignidade humana a partir de suas próprias possibilidades. Na obra Pedagogia do Oprimido, Freire aborda o tema da “opressão” na perspectiva psicológica, antropológica, ontológica, econômica, política e pedagógica.

Psicológica: a opressão se manifesta através de uma “dualidade existencial” dos oprimidos ao hospedar o opressor em si mesmos. Os oprimidos rejeitam e odeiam os opressores e, ao mesmo tempo, querem ser como eles. Daí surge a auto-depreciação e o medo da liberdade. Antropológico-cultural: a opressão se caracteriza pela “cultura do silêncio”, resultado da invasão cultural dos colonizadores que discriminam e excluem a fala e o jeito de ser dos colonizados. Ontológica: é a opressão como privação do homem/mulher de poder “ser mais”, nisso se insere a desumanização, as pessoas viram bichos, coisas, objetos. Dialeticamente, ao produzir isso, os opressores acabam também por se desumanizar, pois, entre o “ser” e o “ter”, eles preferem o “ter”. Econômica e política: a opressão se materializa na fome de imensas aglomerações humanas, no neocolonialismo capitalista, nas condições históricas das privações básicas de se viver pelo qual sempre passaram os camponeses/as, indígenas, operários/as, negros/as, imigrantes e trabalhadores/as. Pedagógica: a opressão se manifesta através de uma educação autoritária, verticalizada e antidialógica que Freire chama de “bancária”, na qual predominam o monólogo do professor e a passividade do aluno.

A consciência opressora se isenta de qualquer culpa diante do fato do mundo ser como é: apartado entre pobres e ricos. Os ricos incutem nas consciências ingênuas de hoje a fala de uma “terceira via” através do discurso de se evitar a “polarização política”, como se nunca o mundo fosse polarizado entre ricos e pobres. Sendo assim, não podemos esperar que qualquer transformação deste apartheid social venha a ser gestado da consciência dos opressores, pois para eles, a culpa de existir pobres é dos pobres mesmo. Freire diz que daí só podemos esperar o “ser menos”.

Portanto, somente quem tem seus direitos negados é quem procura resgatá-los. Isso se dará na medida em que os oprimidos vão descobrindo que eles mesmos hospedam os opressores em suas consciências e consequentemente se descubram como oprimidos. Nesta dualidade, podemos encontrar a força motriz da práxis libertadora. Aqui, aparece forte a ideia de consciência. A consciência, ao mesmo tempo que é a capacidade inerente de homens e mulheres de traçar seu destino, é também o espaço mental em que se manifesta a dominação do opressor sobre o oprimido, assim, é também construção social.

O primeiro problema que aparece é que o modelo de homem livre que os oprimidos assimilam é o ser homem-opressor. Ser livre seria ser como ele. Esta aberração individualista é percebida em nossos movimentos, naqueles dos sem-teto urbanos que já viraram sub-especuladores imobiliários, naqueles que nas pastorais sociais não “arredam pé” de sua posição de secretário ou de coordenador (principalmente quando remunerado). Outro problema é o “medo da liberdade” que só pode levar a duas possibilidades: o de se tornarem opressores ou o de se manterem na condição de oprimidos. Qualquer tentativa de mudança de vida traz dúvidas e medo.

A opressão gera uma sombra maldita que nos faz ter a falsa sensação de controle da situação. Além do mais, não podemos ignorar a repressão dos opressores sobre as pessoas queridas dos oprimidos. A questão é se vamos nos submeter ao medo ou se assumimos os riscos de ir à luta. Nesta situação, não cabem atitudes puramente idealistas, mas possibilidades palpáveis que nos levem a libertação. Freire fala de um campo de batalha cultural onde, na primeira fase, a derrota da “cultura de dominação” se faz pela “mudança de percepção” do mundo opressor por parte dos oprimidos e, na segunda fase, instalada a sociedade nova, a batalhas dá com a destruição do “encosto” (mito opressor) que ronda a transformação revolucionária.

Tudo isso traz à tona toda a dualidade por que passam os oprimidos. E é assim que tem de se mostrar mesmo. Os oprimidos, ao se levantarem, não se sentem mais como iniciadores da violência, mas como vítimas dela. Os opressores é que são violentos. São eles que desumanizam os oprimidos, ao negar-lhes o direito à vida, e assim, desumanizam a si mesmos.

Os opressores nunca perdem a oportunidade de acusar o levante dos oprimidos de barbaridade. É neste levante dos oprimidos, muitas vezes tão violento quanto os opressores, que encontramos a semente do amor que poderá salvar a todos, oprimidos e opressores. Pode parecer paradoxal, mas a manutenção do modo de vida opressor não oferece qualquer possibilidade de comunhão entre os homens. No levante dos oprimidos, podemos, pelo menos, encontrar a negação do modo de vida opressor, numa tentativa que abre opções de novas relações e entre estas opções, podemos encontrar aquela que leve ao amor, ao “ser mais”.

Encaminhando tal opção, a do amor entre os homens, o modo de vida opressor será destruído e não haverá mais opressores. Dessa maneira, está nos oprimidos, os que buscam a libertação, a chave que libertará toda a humanidade de sua alienação histórica.

 

* Integra o CEBI Ceará