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À margem da história: Uma abordagem de Gn 16, 6b-15 na perspectiva negra

À margem da história: Uma abordagem de Gn 16, 6b-15 na perspectiva negra
26 de janeiro de 2021 Comunicação

 

Por Sebastião Santana da Silva

(Sebastião Catequista)*

 

A história dos negros sempre foi contada à margem da História e sempre como uma cultura inferior e escrava. E a história assim contada é justificadora das mais variadas barbáries a esse povo.

Muitos foram os povos dos negros do continente africano traficados durante séculos para todo o planeta. Nos “porões da humanidade” sobreviveu a muitas tempestades, a muitos e bárbaros exílios.

No Brasil é notório a sua contribuição para a cultura, a língua, a religião com sua rica herança espiritual. E no entanto sua expressão religiosa ainda é vista com suspeita, marginalizada, excluída, folclorizada, violentada, mesmo em tempos de “modernidade” e “pós-modernidade”. Sobretudo na sua expressão mais visível que é o Terreiro…

E é do Terreiro, que emana sua voz, sua profecia enquanto denúncia da história, enquanto valorização do seu culto ancestral e de sua afirmação cultural, de sua dignidade histórica.

O Terreiro não evoca só um local físico para as reuniões, celebrações, mas constitui também um marco, uma referência que dá vida e corpo à negritude com tudo o que ela é e carrega de sentido. E aqui, partindo desse pressuposto, vamos ao texto bíblico tecer nossa hermenêutica sobre a história de Agar enquanto mulher, escrava, negra, egípcia, cuja experiência com o “Deus do Êxodo” a partir do “poço” fazendo um paralelo com o “terreiro” lhe vem em socorro libertador, fazendo a mesma voltar para seu espaço de escravidão com a promessa de “um grande povo” tão numeroso quanto o povo escolhido dando para ela não uma nova realidade, mas uma nova consciência, de modo que seja bandeira dos oprimidos enquanto ícone de libertação.

Nosso olhar a partir do texto e seu contexto na perspectiva da Leitura Popular da Bíblia procura a partir do “poço” fazer um paralelo com o “terreiro” enquanto lugar da revelação de Deus libertador como “força” que constitui para o povo a alma de sua identidade e de sua mais genuína história de liberdade.

É no poço que Agar, mulher, negra, escrava, estrangeira, fugitiva e oprimida, tem a solidariedade e realização de “sua aliança” com o Deus dos oprimidos. Também é do/no terreiro que os negros coletivamente celebram sua vida e refaz sua história cuja presença sagrada é presença e é simbolizada deste a “jurema” indígena aos “pais e mães no santo” como memória viva de luta e libertação.

Fazendo dessa forma a leitura do texto e a leitura da vida, a Palavra se faz ouvida enquanto “gritos” de libertação vinculada e concretizada sobretudo pela via cultural e social, enquanto expressão viva de um povo milenar que anseia qual escravos da “casa da servidão”, a “casa grande” por uma “terra que corre leite e mel”.

Gênesis 16 e 21 onde aparece a história da escrava Agar está inserida dentro do que na teologia bíblica se convencionou chamar de “Ciclo de Abraão” que vai de Gn 12 a 25.

O ciclo de Abraão mostra a saga do patriarca e da matriarca Sara cujo sentido seus autores quer mostrar as origens embrionária do povo eleito. Esses textos em sua composição, redação e avaliação foram passivos de diversas releituras enquanto reserva de sentido para fundamentar a posse da Terra sobretudo quando da volta dos Exílios. Através deles temos a vocação deste povo na sua relação com Javé.

Em sua estrutura já consagrada pelas bíblias modernas, Gn 12-36 constitui a o ciclo dos Patriarcas Abrão, Isaac e Jacó. Especificamente a história do patriarca Abraão com sua mulher Sara tem seu lugar dos capítulos 12 a 25. Aí temos suas idas e vindas em busca da terra prometida, de descendência e de um povo, como é senso comum numa leitura mais apiedada.

No capítulo 16 temos a história do nascimento de Ismael filho de Abraão com a escrava Agar. O pano de fundo é a esterilidade da matriarca Sara. E por causa de sua condição de não poder ter o filho que o patriarca tanto queria e que lhe assegurava a promessa é que, a matriarca lhe oferece a escrava Agar. Ela aparece pela primeira vez na história e somente nesse capitulo e no 21. Depois, desaparece quase que completamente de todo corpo bíblico das Escrituras, aparecendo só no Segundo Testamento na carta de Paulo aos Gálatas 4, 21-31.

Na sequência da história temos no capítulo 21 o nascimento do herdeiro Isaac e novo conflito entre Agar e Sara.

O episódio entre Sara e Agar chega ao extremo de modo que a escrava foge e faz o caminho de volta à sua terra, sua gente. É o caminho contrário da sua senhora e seu senhor. Agar é mulher gravida, estrangeira, serva (escrava), negra e humilhada. Sua realidade histórica nos apresenta duas situações: oprimida e excluída. Oprimida por ser escrava, humilhada, maltratada, e de condição estrangeira; e é excluída, porque pela sua condição tal não cabe na lógica patriarcal da promessa sustentada sobretudo pela sua agora concorrente, a matriarca Sara. Excluída porque serva nunca será protagonista com a personagem principal. Daí porque, Javé lhe vem ao seu encontro e faz uma opção pela escrava, e lhe concede à margem da história nova história.

O texto seguinte, nos mostra esse momento, e como que, um marco dessa opção e revelação destacamos o poço. O poço como lugar de encontro, de opção, de revelação, de começo de uma nova história dentro da história.  Deixemos o texto falar:

6,“Sarai maltratou de tal modo Agar, que ela fugiu de sua presença.  7.O mensageiro de Javé encontrou Agar junto a uma fonte no deserto, a fonte que está no caminho de Sur. 8.E disse: “Agar, serva de Sarai, de onde você vem e para onde vai?” Agar respondeu: “Estou fugindo de minha senhora Sarai”. 9.O mensageiro de Javé lhe disse: “Volte para sua senhora e seja submissa a ela”. 10.E o mensageiro de Javé lhe disse: “Eu darei a você uma descendência tão numerosa, que ninguém poderá contar”. 11.E lhe disse o mensageiro de Javé: “Você está grávida. Dará à luz um filho e o chamará com o nome de Ismael, porque Javé ouviu a opressão contra você. 12.Ele será como potro selvagem, estará contra todos e todos contra ele, e viverá separado de seus irmãos”. 13. A Javé, que lhe havia falado, Agar chamou com o nome: “ Tu és ElRoí, pois eu vi Aquele que me vê”. 14.Por isso é que o poço tem o nome de Poço Lahai-Roi, e se encontra entre Cades e Barad.  15.Agar deu à luz um filho para Abrão, e a Abrão chamou com o nome de Ismael o filho que Agar lhe dera.” (Gn 16,6b-15 – Tradução da Nova Bíblia Pastoral)

O texto é muito forte. Carrega emoções, história de dor, de violência mas também de esperança. O fato de o encontro com Deus se dar no poço chama nos atenção devido a sua importância na história do povo das tribos, que lhe dar uma conotação social/teológica: lugar de encontros, de relações, de revelações, de conflitos e opções.

Por toda Bíblia o poço é citado 72 vezes, das quais 34 só no Pentateuco. Isto é significativo. Por exemplo: no poço, o servo de Abraão encontra a futura esposa de Isaac (Gn 24, 10-27); os servos de Isaac entraram em conflito com os pastores de Gerara (Gn 26,19-22); José é vendido pelos irmãos (cf. Gn 37); também no poço encontramos Moisés fugitivo e sendo acolhido pelos madianitas (cf. Ex 2, 15). O poço não é só um lugar social, mas como podemos perceber, também é um lugar teológico.

Nesse capítulo não só temos o relato do conflito entre serva e patroa, mas também o relato da opção de Deus pelo oprimido a margem da história dos personagens principais. Em toda Bíblia é a única vez que vemos algo tão forte desse porte. Se voltamos um pouco mais para trás, veremos que o patriarca tem um encontro, uma revelação e uma confirmação da aliança com Javé no capítulo 15. Mas ao contrário desde o que segue é totalmente “descabido”. Aqui como num contraste com o capítulo anterior, temos a aparição e revelação de Javé (seu mensageiro) à escrava da senhora. Algo bastante inusitado!

Ora! Agar está bem a baixo da escala social, já vimos acima, mas é bom dar ênfase: é mulher, é estrangeira, é escrava, é negra e foragida. Se encontra numa situação desconfortável pois é dada como reprodutora da senhora para o senhor da casa, para realizar as expectativas deste quanto a realização da promessa oficial. É agredida, humilhada, perseguida por sua senhora e teme por sua vida. Foge conscientemente com objetivo de volta à sua terra, sua gente, mas é surpreendida pelo mensageiro de Javé.

Aqui poderíamos nos perguntar: E quantos relatos de violência não temos na histórias dos negros/as na Casa grande na história de nosso país?

Em seu diálogo percebe que está diante do divino, daquele “que me vê” e tem uma revelação: “Eu lhe darei uma descendência tão numerosa, que ninguém poderá contar” e uma ordem a ser cumprida: “volte para sua senhora e lhe seja submissa” É um contrate muito grande, quase que um disparato do autor sagrado.

É claro que por “trás das palavras” há um fundo teológico: Deus vem ao encontro do oprimido, mesmo sendo ele (ou ela) oprimido pelo seu escolhido, seu parceiro em aliança (Abrão e Sara). Essa é uma afirmação e releitura muito forte: Deus está do lado do oprimido, dos sem poderes, sem status, sem empoderamento, mesmo sendo de outra cultura (Agar/afrodescendentes) e religião…

E aqui convém lembrar: Em toda história da escravidão negra, quem os escravizou, os traficou, foram sempre os que se consideravam salvos e a serviço de Deus em sua glória e reino. E isso não os impediu de serem cruéis com seus escravos como o fora a matriarca Sara com sua escrava Agar.

Mas, o que mais impressiona na história da escravidão em nosso país é que o olhar do/a escravo/a sobretudo no seu “sincretismo” com a religião oficial era um olhar de esperança sob o signo da rebeldia e fuga, ao contrário por exemplo, do que vemos no texto da história de Agar.

A fuga da oprimida resultou numa revelação e numa aliança, iniciativa da parte de Deus que vem ao encontro da oprimida. Da sua condição de gênero, de etnia, de lugar social, e de seu lugar religioso eis que emerge uma nova história paralela a história “oficial” pela qual Deus tece seu plano de salvação. Também aí a libertação vem sob outro signo (“dará à luz um filho e o chamará com o nome de Ismael, porque Javé ouviu a opressão contra você. Ele será como potro selvagem, estará contra todos e todos contra ele…) e será uma história conflituosa, como o texto sugere “…viverá separado de seus irmãos”.

A experiência sagrada vivida pela escrava como grifamos no texto, tem seu lugar no poço cujo nome ela mesma no texto chama de “Poço Lahai-roi” isto é, “do vivente que me vê”.

O poço é o lugar de encontro, de relações entre as pessoas, de encontro com Deus.

No entorno do poço, com a escrava Agar, acontece uma experiência profunda de encontro com Deus que que resultou no processo libertador para ela e seu filho. O texto não diz mais nada sob a história da escrava e seu filho, salvo o que temos no capitulo 21, sua libertação total e a origem dos povos que dessa história se gerou.

Entre muitas das releituras que já foram feitas desse episódio certamente foi levada em consideração a teologia do êxodo, ou uma teologia vocacional, doutrinal, dogmática e mesmo profética, como também ideológica, de gênero, social, etc., porém, como já o dissemos, ao fazer nossa releitura deste texto, na perspectiva simbólica quanto a expressão da fé dos afrodescendentes ponho em evidencia o ‘poço’ como lugar de expressão do sagrado e como tal remetemos a experiência dos negros com o sagrado a partir do ‘terreiro’, numa hermenêutica que leva em consideração a Leitura Popular da Bíblia. Aliás, o terreiro é expressão dos afrodescendentes na vivencia de sua religião de matriz africana. E que também é espaço sagrado da revelação de Deus nos orixás e nas ‘mães no santo’.

Equiparando o poço e o terreiro como espaço teológico do encontro e da expressão do sagrado, ele, o terreiro, tem forte expressão “sacramental” carregado de sentido. É o espaço da celebração, da alegria, das relações fraternas, da comunhão cósmica humana e divina. É o espaço da promoção da cultura, da vida de um povo, de suas resistências, de sua ancestralidade, da sua liberdade e empoderamento. E nisso ambos os espaços poço e terreiro tem em comum sua reserva de sentido como memória do povo, memória que preserva a história popular do oprimido.

Por esse tempo em que vivemos, o povo dos negros tem sido violentados no seu direito de expressar e celebrar sua fé livremente. A violência, sobretudo, ao seu patrimonio o terreiro, feitos por grupos religiosos fundamentalistas, nos conclama a indignação profética que devemos ter e fazer, pois não é possível que uma nação como a nossa que nasceu “dos porões da humanidade” possa pensar, viver e agir assim. Herdamos uma herança que nos interpela a todos e nos diz do quanto devemos ser, viver e está cotidianamente em movimento de fraterna acolhida, de profunda tolerância e irmandade pois somos discípulos/as da inspiração e da ética (Boa Notícia) de Jesus Nazareno.

Que possamos construir “um outro mundo possível”. É o que nos ajuda a ler e entender as lentes desses óculos chamada Leitura Popular da Bíblia.

Bibliografia pesquisada:

Biblia de Jerusalém, Paulus, São Paulo, 2002.

Nova Bíblia Pastoral, Paulus, São Paulo, 2014   

 Michaud, Robert. Os Patriarcas: Gênesis 12-36. Edições Paulinas, São Paulo-SP, 1985.

 Vendrame, Calisto. Ensaios 72. A Escravidão na Bíblia. Editora Ática, São Paulo-SP 1981

 Gruen,Wolfgang. O tempo que se chama hoje: introdução ao Antigo Testamento. Edições Paulinas, São Paulo-SP, 1985

 Schwantes. Milton. A família de Sara e Abraão – Texto e contexto de Gênesis 12-25. Editora Vozes e Sinodal, Petrópolis, 1986

 Priscila Alves. Fernanda da Silva. As mulheres tomam a palavra. Série: A Palavra na Vida – Nº 327. Cebi, São Leopoldo RS, 2015.

 Bohn Gass, Dietrich. Ildo. Luiz José. Espiritualidades dos povos originários e leitura popular da Bíblia – aproximações iniciais. Cebi. São Leopoldo-RS, 2014.  Site visitado: http://www.paulus.com.br/biblia-pastoral/1TI.HTM

* É Agente de Pastoral, catequista, assessor das escolas bíblicas e membro da Coordenação Estadual do CEBI-PE. Tem forte atuação social junto às periferias de Caruaru.

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