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Natal: Esperança e Espiritualidade Libertadora

Natal: Esperança e Espiritualidade Libertadora
13 de dezembro de 2018 CEBI Secretaria de Publicações

por Movimento Fé e Política*

“Quando estas coisas começarem a acontecer levantai-vos e erguei a cabeça, porque a vossa libertação está próxima.” (Lc 21, 28)

Todos os anos, o período natalino é festejado no mundo cristão não somente em comemoração ao nascimento de menino Jesus, que se fez carne e habitou entre nós, mas também para celebrar o final de mais um ano no calendário civil e o advento de “um novo tempo”. Desde a consolidação da ordem capitalista, porém, este período tornou-se propício aos interesses mercadológicos, tendo sido cada vez mais forjado como um período de troca de presentes, lembrancinhas, mimos ou algo do tipo, condição quase sine quo non para se viver o ‘natal’. Lamentável tamanho empobrecimento cultural e de expressão de fé! Aliás, este é um dos traços típicos dos tempos de superficialidade e liquidez das relações, como o que estamos vivendo.

Ao contrário desse apelo mercadológico e opressor, somos chamados a vivenciar a fé no menino Jesus que se encarnou e vive no meio de nós (o Emanuel, Deus-conosco!), porque ressuscitou. Esta é nossa alegria maior:

Jesus está entre nós! Por isso, a espiritualidade natalina é, acima de tudo, da alegria pela vitória da vida sobre a morte.

Inspirados no profeta Jeremias (Jr 33,14-16) somos instigados a anunciar que o Senhor “fará brotar de Davi a semente da justiça, que fará valer a lei e a justiça na terra”. A intervenção divina profetizada é, pois, de um reino baseado na sabedoria e na justiça. Deus intervém não para destruir Jerusalém, mas para salvá-la, mediante a chegada de um “rebento de justiça”.

Ora, é por isso que a espiritualidade natalina deve alimentar nossa esperança num mundo novo, diferente do “reino dos homens”, dos Herodes, dos Césares, dos governantes de ontem ou de hoje. Do mesmo modo, é uma espiritualidade que nos leva à libertação, não de uma situação de vida futura, mas da que vivemos aqui e agora. Assim como o menino Jesus veio para libertar das situações de injustiça, opressão, escravização, intolerância, preconceitos e ódio a que o povo de seu tempo estava submetido, a celebração do Natal hoje deve nos remeter, pelo menos, a uma reflexão sobre situações idênticas que exigem libertação.

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Ao celebrar o Natal, somos chamados, a cada ano, a reacender nossa confiança, levantar o espírito abatido e despertar a esperança. Viver a espiritualidade natalina significa acreditar que um dia os poderes econômico-financeiros e suas diversas formas de exploração e opressão vão afundar; que a ação egoísta, esquizofrênica e desenfreada dos poderosos e governantes de turno, que mata, destrói e despreza, será derrotada; e que as vítimas de tantas guerras, violências e injustiças conhecerão a justiça e a vida. Por isso, nossos esforços por um mundo mais humano não se perderão nem são inúteis. Ao contrário, demarcarão o novo tempo e um novo reino de justiça social, de igualdade, de paz. Só depende da coragem, da determinação, da força da fé de cada um para lutar e fazer esse reino acontecer. O tempo é nosso!

Para nós cristãos, essas situações oferecem um precioso ensinamento. Em meio aos fracassos humanos, somos chamados a descobrir uma palavra de vida, uma presença salvadora. O “Filho do Homem” se aproxima onde o cosmos e a humanidade naufragam na morte. O convite é surpreendente: “Quando estas coisas começarem a acontecer levantai-vos e erguei a cabeça, porque a vossa libertação está próxima.” (Lc 21, 28)

“Levantai-vos”: é o chamado a cada um e também a animar-nos uns aos outros. “Erguei a cabeça”, como quem recupera a confiança e olha o futuro não só de seus próprios cálculos e previsões. “A vossa libertação está próxima”, se abre a possibilidade de que um dia deixaremos de viver oprimidos, tentados pelo desânimo. Jesus Cristo é nosso Libertador.

Mas é preciso termos cuidado! Há maneiras de viver que não permitem caminhar com a cabeça levantada excessivamente, apenas confiando na libertação definitiva, porque ela já nos estaria dada pela fé. É real o perigo de nos acostumarmos a viver com um coração insensível e endurecido, acomodados e indiferentes à realidade, buscando preencher a vida de bem-estar e prazer de forma egoísta, de costas para Deus Pai e seus filhos que sofrem na terra. Um estilo de vida que nos faz cada vez menos humanos.

No Advento – Deus vem! Cristo vem hoje na história. E vem para libertar os injustiçados. Vivemos angústias e medos, inseguranças, crises política e econômica, conflitos sociais, carências nas necessidades básicas, frustrações, diversas formas de delinquência, perda de valores morais, corrupção administrativa, intolerância, violência etc. A força espiritual que o Natal nos traz não evita esses problemas todos, mas nos dá uma luz para enfrentá-los. A esperança nos permite confiar nas promessas de Deus e descobrir como mudar nossa história.

Se nos é difícil, sozinhos, reconhecer nossas debilidades, medos e incertezas, tanto como descobrir os sinais da presença de Jesus nas realidades que vivemos, o Natal nos chama à construção coletiva, à unidade na luta. Assim como Jesus constituiu seus discípulos – e nós o somos! – e os enviou, precisamos assumir nossa missão e mudar o mundo, manter viva a esperança, fortalecer nossa fé, a espiritualidade que liberta e nossas ações em defesa da Vida, dos Direitos Humanos e da Terra.

Sejamos profetas da esperança, não do desespero. Sejamos homens e mulheres esperançados e esperançosos. Creiamos realmente que o amor transcende toda fronteira e vivamos assim nosso Advento. Saiamos do imobilismo cheio de temores. A libertação está perto. Necessitamos que Cristo nos liberte para sair adiante.

É com esta espiritualidade natalina, e crentes que é Ele a quem esperamos – “Vem Senhor, Jesus!” – que nós do Movimento Fé e Política temos a alegria não apenas de confirmar, mas de convocar, desde já, a todo(a)s para a realização do 11º Encontro Nacional Fé e Política, que terá lugar na cidade de Natal/RN, nos dias 12 a 14 de julho de 2019. Ao celebrarmos os 30 anos do Movimento, teremos a oportunidade de revigorarmos nossa fé e nossa espiritualidade político-libertadora, analisando a conjuntura que nos cerca, identificando os sinais dos tempos que alimentam nossa esperança e, na coletividade, construirmos os passos para a construção de um novo tempo, de uma outra sociedade.

por Diácono Antônio Lisboa, de Campina Grande, Dez/2018. Da Coordenação Nacional do MF&P. Publicado originalmente no site do movimento Fé e Política.