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Reflexão do Evangelho: Livres e responsáveis pelos nossos atos

Reflexão do Evangelho: Livres e responsáveis pelos nossos atos
24 de setembro de 2020 Zwei Arts

Leia a reflexão sobre Mateus 21,28-32, texto de Marcel Domergue.

Boa leitura!

Rumo a um homem novo

São dois filhos: um representa “os sumos sacerdotes e os anciãos do povo”. O outro, “os cobradores de impostos e as prostitutas”. Um, as pessoas de bem; o outro, os desprezados.

Notemos que são filhos, uns e outros; podemos dizer filhos de Deus. Jesus não fala das circunstâncias nem da herança social que os teriam conduzido até ali onde se encontram.

De toda forma, ambos têm a mesma origem, o mesmo “Pai”, mas já se acham etiquetados e, parece, determinados a viverem conforme os seus diferentes destinos. Compreende-se que os sumos sacerdotes e os anciãos não quisessem se modificar nem acolher o novo.

Estão bem assim como estão; da mesma forma que o fariseu de Lucas 18,10, que fez o inventário de suas boas condutas. Devemos, no entanto, compreender e reconhecer que todos nós estamos a caminho dum outro lugar, dum outro modo de ser.

A vida não ficou para trás, ela está à nossa frente. É claro que quem vive em estado de penúria e não se acha satisfeito consigo mesmo encontra-se mais bem posicionado para compreender isto; mesmo se é visitado pelas tentações de se justificar e perdoar-se a si mesmo, a fim de se confirmar.

Mas eis que, para todos estes, eleva-se do deserto a voz do Outro. Uma voz que nos mobiliza e nos fala duma outra coisa que não só de “verdades” que nos habitam e as quais já domesticamos.

Vamos sair das nossas rotinas e pôr-nos a caminho, rumo ao que vem nos incomodar e colocar-nos em movimento? O Batista está sempre aí, figura de uma justiça que sequer havíamos suspeitado.

Está voltado inteiramente ao Cristo que não termina nunca de vir até nós. Ele, que nos abre a esta nova humanidade que não cessa nunca de nos surpreender. Acreditamos conhecer o Cristo? Ele só se revela a nós na medida em que assumimos o vazio que nos habita quando Ele não está. Sempre novo, Ele nos mobiliza e nos renova sem cessar.

Pôr-se a caminho

Este é o caminho do Reino. Publicanos e prostitutas entraram nele com prioridade. Não em razão das suas “atividades”, mas porque, saindo de si mesmos, puseram-se a caminho, acreditando nesta palavra que chegou até eles vinda dum outro lugar.

Os últimos se tornaram os primeiros. Notemos que não está dito que os sumos sacerdotes e os anciãos não entrarão no Reino, ou seja, na vida indestrutível que o Cristo nos oferece, vida que não somente está por vir, mas que já está aí, ao alcance da mão.

Outros textos, de fato, dirão que, em e por Cristo, todos os homens são salvos. Só que estes personagens se atrasaram… Por duas razões: primeiro, porque não acreditaram na palavra de João, já que se consideravam impecáveis; em seguida, porque não se mobilizaram diante da fé dos coletores de impostos e das prostitutas.

Espantoso: Jesus repreende estes ilustres senhores por não terem seguido o exemplo daquelas pessoas desacreditadas. É que, para nós, é impossível decidir sobre o valor de uma pessoa a partir da condição na qual as circunstâncias da vida a colocaram.

O que se esconde sob o que se vê? Quantos arrependimentos e decepções? Quantos desejos e frustrações? E quanta generosidade? Só Deus sabe! Mas o que comanda todo o resto é a abertura à mudança, o mobilizar-se a que todo encontro nos convida.

Vendo a justiça de João e ouvindo as suas palavras, os publicanos e as prostitutas se moveram, mas os sumos sacerdotes e os anciãos, apesar de profissionais do acolhimento da Palavra, não foram “trabalhar na vinha”.

Conclusão: não nos instalemos no que já está aí, mas vamos manter-nos prontos para partir, rumo a este outro lugar que a terra prometida já prefigurava e que chamamos de “Reino”; Reino que está sempre por vir.

Os operários da vinha do amor

Ilustres religiosos, anciãos e sacerdotes são, portanto, os profissionais da verdade. Haviam estudado muito, sendo os detentores do saber. Pois mesmo assim encontram-se diante de algo novo, d’ “o que os olhos não viram e os ouvidos não ouviram” (1 Coríntios 2,9, citando Isaías 64,3): a pregação de João Batista e o anúncio da vinda iminente do Reino.

De fato, é exatamente do Reino que se trata, conforme indica o versículo 31. Mas o que é o Reino de Deus? Que realidade se esconde sob esta expressão que se tornou para nós uma espécie de chavão? Trata-se de um universo no qual a vontade de Deus é feita (início do versículo 31). E o que é a vontade de Deus?

Muitas são as fórmulas possíveis; retenhamos a de João 6,39-40: Deus quer que nada do que em Cristo foi criado e que, por consequência, ao Cristo mesmo foi entregue, que nada disto se perca.

A vontade de Deus é a Ressurreição, é a vida em plenitude. Outro modo de dizer a mesma coisa: os seus esponsais com a humanidade, esta é a vontade de Deus.

Sem qualquer previsão ou determinação a priori de nenhum dos nossos atos, por menores que sejam, mas a coincidência de escolhas da nossa liberdade com a liberdade que nos funda e que somente quer e somente busca o amor. A segunda leitura é para ser lida sob esta ótica.

O chamado para se trabalhar na vinha do Reino é, portanto, um chamado ao amor, a fazer nascer o amor neste mundo. O vinho de nossas aglomerações será o vinho destas núpcias de Deus com a humanidade, constituída em um só corpo, pelo amor.

Sejamos seres de desejo

Podemos nos perguntar: mas em que tudo isto nos diz respeito? Quando e como recebemos algum chamado para entrarmos nos domínios de Deus? Ora, para isso não é necessária nenhuma revelação espetacular; temos as Escrituras, escritas, conservadas, comunicadas a todos pelo povo que acredita. É através disto que somos «chamados».

Paulo vai dizer que a fé nos vem pela audição, pelo acolhimento da palavra que nos é dirigida por outros. As prostitutas e os publicanos aceitaram a palavra de João.

Por quê? Porque sabiam que jamais encontrariam em si mesmos meios para atingirem a sua verdade humana. É a insatisfação de quem se reconhece insuficiente.

Aliás, os mesmos círculos bem pensantes é que os fazem sentir isto. São pessoas que são olhadas sem serem vistas, e que só são vistas para serem julgadas. Foram, no entanto, eles que acolheram a Palavra que lhes revelou o seu valor.

Os sacerdotes e os anciãos não precisavam disto, pois que tinham tudo de que precisavam para estarem contentes consigo mesmos. Somente seres de desejo deslocam-se a um lugar tão diferente como este, tão incrível, no qual reencontram a sua dignidade.

O espetáculo dos «pobres» acolhendo a Palavra deveria fazer refletir aqueles ilustres senhores, revelando-lhes a gratuidade do amor de Deus. Com suas fímbrias de bordas douradas, não tinham qualquer necessidade de tal gratuidade, nem sentiam necessidade alguma de um amor assim, sem nenhuma razão de ser. Quem tem ouvidos que ouça…