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Reflexão do Evangelho: Anúncio do Natal para um mundo devastado

Reflexão do Evangelho: Anúncio do Natal para um mundo devastado
18 de dezembro de 2020 Zwei Arts

Leia a reflexão sobre Lucas 1,26-38, texto de Marcelo Barros.

Boa leitura!

Anúncio do Natal para um mundo devastado

Neste quarto domingo do Advento, retomamos um evangelho muitas vezes lido e repetido nas nossas liturgias: Lucas 1, 26- 38. É o relato de como o anjo Gabriel anunciou a Maria que ela estava grávida e seria a mãe de Jesus, o Salvador do mundo.

Quando, nos anos 80 do primeiro século, a comunidade do evangelho escreveu este relato, o fez como midrash, isso é, comentário em forma de narração, de um belo poema do profeta Sofonias (Sof 3, 14- 17). A comunidade profética escreveu esse poema seis séculos antes da nossa era. Naquela época, o povo de Judá via o seu país ser destruído pelos babilônios e a própria fé entrava em crise profunda. O cativeiro era uma negação das promessas de Deus. Era como hoje em dia as pessoas que dizem: fiz promessa, Deus vai me proteger. E aí adoece ou até morre. Os salmos da época, como o 43, o 77 e o 80, gritavam: Onde está Deus que não vê o que está acontecendo? Ele se esqueceu da sua promessa? Abandonou o seu povo?

Naquela situação, a profecia de Sofonias fala de Jerusalém como sendo uma moça pobre “filha de Sião”. E diz a ela: “Alegra-te. O Senhor está contigo, está no meio de ti e em ti”. A esta pobre comunidade impotente e invadida, Sofonias anuncia a restauração da vida e da aliança de libertação em Deus (entre as tribos) e com Deus.

Alegra-te. O Senhor está contigo.  São as mesmas palavras que o anjo Gabriel retoma quase literalmente a Maria. Assim, Lucas afirma que Maria é a nova “filha de Sião”. Ela representa a nova comunidade pobre que no meio da sua impotência e da sua pobreza, é visitada pela graça (O Senhor está contigo). Assim como Abraão e Sara, velhos  e estéreis, foram chamados por Deus a serem o início de um novo povo. Também Zacarias e Isabel, velhos e estéreis, recebem do mesmo anjo Gabriel o anúncio do nascimento de João, o filho profeta. Assim também, Maria representa a nova humanidade a quem Deus vem visitar e tornar fecunda.

Gabriel é o mensageiro (em grego, anjo) que, conforme a Bíblia, apareceu duas vezes ao profeta Daniel. No evangelho de Lucas, anuncia o nascimento de João Batista e de Jesus. Em hebraico, Gabriel significa apenas “homem de Deus”. Mais tarde, conforme o Corão, foi ele quem apareceu ao profeta Muhamad (Maomé) e ditou a revelação islâmica. Ele sempre aparece em situações de muita tribulação e angústia do povo pobre.

Quando o anjo promete que a Ruah Divina cobrirá Maria com sua sombra, está recordando o Êxodo e a caminhada do povo hebreu no deserto. O livro do Êxodo conta que, durante a caminhada no deserto, o povo se dirigia a uma tenda vazia e uma nuvem escura cobria a tenda com a presença divina. Ali na Shekiná, a tenda divina, Deus escutava os pedidos do povo e os atendia, como Mãe a seus filhos e filhas. Agora a mesma sombra divina, que cobria a tenda no deserto, desce sobre Maria. Ela é a nova tenda, o novo útero, a partir do qual a nuvem da Divina Ruah vai gerar o Cristo.

Hoje, relemos este evangelho para reafirmar que a Ruah Divina vem de novo com sua sombra cobrir as novas tendas da presença divina. Somos nós estas novas tendas da presença divina que temos de lembrar ao mundo que o projeto divino é contrário à sociedade do desvínculo e da indiferença social. Hoje são as comunidades que dão a Maria um corpo social. Por obra do Espírito Santo, geram para este mundo um novo Natal. Fazemos isso através da amorosidade da vida, traduzida em solidariedade.

Estamos vivendo este Natal de 2020 mergulhados em uma pandemia que, somente no Brasil, infectou quase dois milhões de pessoas e matou 180 mil. Em meio a essa tragédia, o vírus é instrumento de uma política genocida para, literalmente, dizimar comunidades indígenas, quilombolas e populações de periferia. Tudo se torna mais difícil porque não adianta culpar apenas o presidente. Atrás dele, há uma elite escravagista e uma mídia interesseira que se servem da loucura e irresponsabilidade dos políticos que estão no poder para garantir seus privilégios. O pior de tudo é que em nome de  Jesus e gritando Deus acima de todos, católicos e evangélicos apoiam e sustentam esta iniquidade.

Hoje, este evangelho que anuncia o nascimento de Jesus vem nos dizer algumas coisas boas e outras desafiadoras. A boa é que o Senhor vem e está em nós e no meio de nós. É fonte de libertação e de vida nova para nós e para a humanidade.  O aspecto desafiador é que é o nosso Deus vem, como veio no Natal. Não vem como Deus poderoso para resolver tudo com milagre e através do poder. Vem como pequenino e impotente.

Os evangelhos contam que, várias vezes, Pedro, os outros apóstolos e mesmo João Batista na prisão cobravam de Jesus a postura de um messias poderoso e que trouxesse ao mundo o julgamento de Deus. Até hoje, a Igreja fala da imagem simbólica do Cristo glorioso, Senhor da história que virá revestido de poder.  Os cristãos das primeiras gerações se frustraram porque esta manifestação gloriosa de Jesus não acontecia logo.

É melhor aceitarmos que o Natal acontece quando nos deixamos engravidar deste novo modo de ser amor, na nossa vida pessoal, no nosso modo de ser Igreja e de sermos cidadãos e cidadãs do mundo. Aí sim, vamos inundando o mundo de Natal. Nos anos 80, na Argentina, Mercedes Sosa nos fazia ouvir a bela Canción de cuña navideña:

Todos tan alegres, llegó Navidad
y en mi rancho pobre, y en mi rancho pobre
tristeza sonó igual.
No llores mi niño, ya no llores más
que nadie se acuerda, que nadie se acuerda
que no tienes pan.
Allá en un pesebre, dicen que nació
un niñito rubio, rubio como el sol.
Dicen que es muy pobre, pobre como tú
destino de pobre, destino de pobre
destino de cruz.