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Reflexão do Evangelho: A proposta de Jesus frente à realidade

Reflexão do Evangelho: A proposta de Jesus frente à realidade
19 de novembro de 2020 Zwei Arts

Leia a reflexão sobre Mateus 25,31-46, texto de Günter Wolf.

Boa leitura!

Mateus 25,31 contrapõe Jesus ao patrão da parábola anterior. Lá o patrão é o juiz; aqui Jesus é o juiz. Lá o patrão (sistema) julga, e aqui Jesus julga com outros critérios e medidas e a partir de outras propostas. Jesus julga a partir das vítimas do sistema econômico escravagista. Jesus julga nações inteiras por sua prática com as medidas baseadas no amparo, na solidariedade, na resistência e em favor dos fracos.

Na parábola anterior, somente o patrão julga pela prática do sistema contra o fraco e contra quem resiste ao sistema. No texto anterior, somente os escravos são julgados a partir de sua prática de apoio ou não ao sistema. Aqui todos são julgados a partir de sua prática a favor ou contra as vítimas do sistema, inclusive Roma com seu sistema escravagista. Ninguém escapa da justiça divina. Os que ajudaram as vítimas do sistema são justos e terão a salvação (v. 46). O critério para nossa ação é dado pelos que sofrem e não por nós mesmos. São os fracos que dizem o que nós devemos fazer. É salvo quem atende o seu chamado, tem misericórdia e é solidário. Aqui, se parte da prática automática da fé (em favor dos fracos) como critério de salvação.

Critério para ser justo (vv. 35-36.40) é o atendimento às vítimas do sistema, e com isso se denuncia o próprio sistema.

Maldito é quem não atende e não vai ao encontro das vítimas do sistema. Abençoado, salvo é aquele que não entra no sistema e pratica a diaconia, o serviço. Aqui nem se fala explicitamente da fé. A ação de solidariedade e acolhida decorre automaticamente como gesto de misericórdia. “Misericórdia quero e não holocaustos” (Mt 9,13). No texto anterior, era maldito aquele que não entra no sistema; aqui é o contrário.

Denúncia do sistema: O sistema traz e produz:

  • Fome – expulsa da terra, não tem trabalho, cria sem-terra.
  • Sede – havia multidões de andarilhos, sem lar e terra, percorrendo o país na paisagem desértica da Palestina.
  • Nudez – pobre não tem roupa, só trapos.
  • Prisão – quem resiste ao sistema ou não pode pagar as dívidas vai preso ou tem que roubar para viver.
  • Doença – pobreza e miséria trazem a doença.
  • Forasteiros – muitos vão para o exílio ou escravidão romana por falta de pagamento de dívidas ou revoltas. Também há os que vão para a Palestina. Há uma migração intensa. Forasteiros e migrantes eram, em sua maioria, pessoas das primeiras comunidades cristãs. São os paroquianos.

Como nos relata Aristides, cidadão romano (não cristão) de 125 d.C., que escreve sobre os cristãos:

“Eles andam em humildade e bondade. Não existe falsidade entre eles. Amam uns aos outros. Ouve-se que, se alguém dentre eles é preso ou oprimido por causa do nome de seu Messias, todos providenciam para suas necessidades, e, quando possível de ser liberto, eles o libertam. E se há alguém dentre eles pobre e necessitado, jejuam dois ou três dias para supri-lo com o alimento de que precisa. Eles não desviam sua atenção das viúvas, e os órfãos eles libertam de quem os violenta”.

O texto expõe a prática exigida aos batizados das primeiras comunidades. Essa é a prática de fé dos batizados, que confere com as exigências do texto.

Quem vive segundo o sistema diz que isso (os famintos e os sedentos) é o preço do progresso. Jesus diz que isso é resultado do sistema econômico escravagista romano opressor.

Os vv. 37 e 44 perguntam: “Senhor, quando foi que te vimos…?”. Jesus deixa bem claro que ele é o faminto, a vítima do sistema. Ajudando as vítimas do sistema, estar-se-á combatendo o sistema em si, pois se terá que atacar as causas do sofrimento. Como acabar com a fome? Devolvendo as terras aos camponeses, que o Estado romano deu a seus aliados. Quem não se solidariza com as vítimas do sistema também não o combaterá. Isso tudo é feito de uma forma espontânea, que brota da prática da fé.

Jesus Cristo continua não sendo reconhecido como estando presente em meio às pessoas. Assim como os judeus não o reconheceram como o Messias, assim também a comunidade cristã tem dificuldade para reconhecê-lo nos massacrados pelo sistema. Mas há sempre um grupo que, mesmo não o reconhecendo nos pobres, acolhe-o por sua prática de fé solidária e revolucionária. Jesus nasceu, morreu e continua sendo pobre e continua sendo vítima do sistema – essa é a revelação. Nós precisamos optar de que lado queremos ficar: ao lado de Jesus corre-se o risco do sistema nos julgar, e a partir daí faremos parte dos massacrados e vamos necessitar de solidariedade e acolhida – tomai a vossa cruz e sigam-me!

O v. 46 fala do castigo eterno para os causadores do sofrimento e aqueles que o apoiam e fortalecem. Justo é o que ampara as vítimas do sistema e não se enquadra em sua dinâmica, que é excluir e produzir pobres. Ai daqueles que não se solidarizam com as vítimas do sistema e não lutam contra o mesmo, que cria essas vítimas.

A diferença no final é que, no texto anterior, o pobre vai para o castigo e o sofrimento. Aqui vai para o castigo quem apoia o sistema e não se solidariza com os pobres. A salvação é para quem acolhe as vítimas do sistema, aqueles que passam fome e não têm terra e trabalho.

Não têm terra e trabalho porque os romanos não obedecem ao mandado de Deus. Eles agem como deuses que se apossam da terra. Antes a terra era de Deus (Lv 25,23); agora é do Estado, que a dá a seus aliados.