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Para gerar fraternidade e paz precisamos amar o mundo!

Para gerar fraternidade e paz precisamos amar o mundo!
11 de março de 2021 Zwei Arts

Leia a reflexão sobre João 3,14-21, texto de Itacir Brassiani msf.

Boa leitura!

Não passemos ao largo desta quarta lição na escola da caminhada quaresmal. Começamos acompanhando Jesus no deserto e aprendendo a vencer as tentações. Subimos com ele ao monte para aprender a lição da humildade e do serviço. Fomos com ele ao templo e pedimos que ele nos livre da lógica predatória do mercado. E hoje estamos aqui para pedir que ele nos ensine a não lamentar débitos nem exigir créditos. “Vocês foram salvos pela graça”, insiste Paulo, e isso para que ninguém se orgulhe de nada.

Um juiz implacável, impassível, sem coração, sempre pronto a defender a lei e a pronunciar sentenças irreversíveis: essa é a imagem que fazem de Deus muitos cristãos. Mas Jesus diz claramente que Deus enviou seu Filho ao mundo para conduzi-lo à vida, e não para condená-lo. É a gratuidade do amor de Deus que nos salva. Precisamos experimentar e testemunhar o Evangelho do diálogo e da fraternidade, especialmente no contexto de indiferença letal, temperada de intolerância e violência, que vivemos hoje no Brasil.

Custa-nos entender que Deus não se deixa guiar pela lógica do poder, da indiferença e da punição. É incrível a facilidade com que os homens (sim, no gênero masculino!) que dirigem nações e igrejas e se apresentam como procuradores da justiça e de Deus, sentam na cadeira como juízes, cadeira que o próprio Jesus recusou. Com que frequência nos escondemos por trás de máscaras (não aquelas que hoje são necessárias para proteger e salvar vidas!) de benfeitores/as e imparciais, prontos a denunciar o cisco no olho dos outros sem darmo-nos conta do nosso próprio lixo. Definitivamente, não é esta a postura e o Evangelho de Jesus Cristo!

O Messias enviado por Deus e feito carne em Jesus de Nazaré é outro, sua prática é diferente e aponta outros caminhos. Ele recusa a cadeira de juiz e senta ao lado dos acusados, como advogado de defesa. Isso é evidente desde a estrebaria, onde os pastores desprezados foram os primeiros a visitá-lo, até a cruz, quando o próprio Jesus foi negociado por um condenado e compartilhou o calvário com outros dois. O Filho de Deus desceu todos os degraus e veio ao encontro do ser humano no nível mais baixo, no lugar de culpado e de devedor. E o fez de braços abertos, dialogando, indo ao encontro acolhendo e servindo a todos/as.

O que deve nos impressionar não é o fato de que Jesus tenha subido ao céu, mas a afirmação de que Deus tenha descido definitivamente à terra. E ele desceu tanto que, mais que assumir a frágil e contraditória condição humana, assumiu a condição das vítimas e proscritos/as, para declará-los justificadas. Em Jesus, Deus desceu tanto, que entrou solidariamente no inferno vivido pelos/as condenados/as a uma vida que tem mais parece um lento processo de morte. Desceu tanto que o “elevaram” numa cruz! É para esse Homem, levantado na cruz dos/as malditos/as e entre dois condenados, que somos chamados/as a voltar nosso olhar.

Jesus diz que “Deus amou de tal forma o mundo que entregou seu Filho único”. Deus ama o mundo em sua globalidade, sem distinguir culpados/as ou inocentes, homens ou mulheres, devedores/as ou merecedores/as. Em Jesus Cristo, a glória de Deus se manifesta de forma clara e inequívoca, e essa glória não é outra coisa que o amor que se faz dom e acolhida sem nenhum tipo de condição ou exigência. Ele nos deu a vida “quando estávamos mortos/as por causa de nossas faltas”, sublinha Paulo. Em Jesus Cristo a libertação é radical, gratuita e incondicional, e é também geradora gratuidade e de fraternidade.

Este rio de graça, este sol de justiça que nos vem de Deus em Jesus Cristo, começa desmascarando nossos pretensos merecimentos; avança revelando nossa verdade mais profunda; termina capacitando-nos a agir como homens e mulheres novos. “Fomos criados para as boas obras” diz São Paulo, e precisamos nos ocupar delas. Crer é aderir à proposta de Jesus Cristo, e aderir ele significa crer na dignidade inerente a cada pessoa humana e nas suas possibilidades positivas. Este é o caminho que leva à vida plena e à liberdade verdadeira. Saber que todos/as somos pecadores/as perdoados/as fortalece nossa luta contra a intolerância e a violência.

Deus pai e mãe, lento para a cólera e rico em misericórdia: Como é imenso o amor com que amas a nós e ao mundo! Enviaste teu filho amado para que, sendo por ele servidos/as, aprendêssemos a servir com a mesma generosidade. Dá-nos um amor intenso, lúcido e forte, a fim de que sejamos capazes de dar continuidade a este dinamismo que salva e renova mundo, empenhando-nos na difícil e complexa tarefa de recriar a fraternidade sem fronteira através do diálogo. Não permite que sentemos e choremos passivamente nossos desterros, e põe-nos a caminho para reconstruirmos o mundo na força do teu amor. Amém! Assim seja!