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O encontro entre uma samaritana e um judeu [Lopes, Mesters e Orofino]

O encontro entre uma samaritana e um judeu [Lopes, Mesters e Orofino]
13 de março de 2017 Centro de Estudos Bíblicos

Os samaritanos eram desprezados pelos judeus. Este desprezo vinha de longe, desde o século VIII antes de Cristo (2Rs 17,24-41), e transparece em alguns livros do Antigo Testamento. O livro do Eclesiástico, por exemplo, fala de um ‘povo estúpido que mora em Siquém, que nem sequer é nação” (Eclo 50,25-26). Muitos judeus da Galiléia, quando viajavam para Jerusalém, não passavam pela Samaria.

O Evangelho de João mostra Jesus fazendo o contrário, passando pela Samaria e acolhendo os samaritanos. Por causa disso, era criticado pelos judeus, que o xingavam de “samaritano, possesso de demônio” (Jo 8,48). Depois da ressurreição, os seguidores e as seguidoras de Jesus, superaram seus preconceitos e anunciaram a Boa Nova aos samaritanos (At 8,4-8). Nas ‘comunidades do Discípulo Amado’ havia muitos samaritanos.

  1. João 4,1-6: O palco onde se realiza o diálogo entre Jesus e a samaritana

Quando Jesus percebe que os fariseus poderiam irritar-se com a sua atividade batismal, ele sai da Judeia e volta para a Galileia. Deste modo, evita uma briga religiosa (Jo 4,1-3). Voltando para a Galileia, Jesus passa pela Samaria. Por volta do meio-dia, ele chega junto do poço de Jacó. Cansado da viagem, senta perto do poço, onde a samaritana vai encontrá-lo. O poço era o lugar tradicional de encontros e de conversas. Hoje, seria a praça, o bar, a rodoviária, o shopping… E lá, perto do poço, que começa a longa e difícil conversa que foi de muito proveito para ambos.

  1. João 4,7-15:Primeira parte do diálogo: a conversa em torno da água ou do trabalho

Água, corda, balde e poço eram os elementos que marcavam o mundo do trabalho da samaritana. É Jesus que toma a iniciativa do diálogo. Ele parte da necessidade bem concreta da sua própria sede e diz: “Dá-me de beber!” Pela pergunta a samaritana descobre que Jesus precisa dela para ele poder resolver o problema da sua sede. Assim, Jesus desperta nela o gosto de ajudar e de servir. Desde o começo da conversa, Jesus usa a palavra água nos dois sentidos. No sentido normal: água que mata a sede; e no sentido simbólico; água como fonte de vida e como dom do Espírito Santo, prometido no Antigo Testamento (Zc 14,8; Ez 47,1-12). Desde o começo da conversa, a samaritana entende a palavra água no seu sentido normal de água que mata a sede do corpo. Existe uma tensão entre os dois. Jesus tenta ajudar a samaritana a passar para outro nível de entendimento. A samaritana, por sua vez, procura levar Jesus a entender as coisas conforme o sentido que elas tem no dia-a-dia. Por isso, por esta porta da água ou do trabalho, Jesus não conseguiu comunicar-se com ela e a conversa não avançou.

  1. João 4,16-18:Segunda parte do diálogo: a conversa em torno do marido ou da família

Jesus tenta estabelecer contato por uma outra porta. Ele diz: “Vá buscar seu marido!” É a porta da família. Mas também aqui ele encontra a porta fechada. A samaritana responde secamente: “Não tenho marido!” Jesus diz: “Você falou bem. Você teve cinco maridos e o que tem agora não é o seu marido!” Os cinco maridos evocam simbolicamente os cinco ídolos do povo samaritano (2 Rs 17,29-30). Aquele com quem ela convive agora, ou seja, o sexto a que Jesus alude, talvez seja João Batista, venerado como messias, ou a fé diferente dos samaritanos em Javé. O Quarto Evangelho sugere discretamente que o sétimo é o próprio Jesus, o messias, o esposo que o povo estava esperando.

  1. João 4,19-24:Terceira parte do diálogo: a conversa em torno do lugar da adoração

Finalmente, por causa da resposta recebida, a samaritana identifica Jesus e diz: ‘Vejo que o senhor é um profeta”. Neste momento, ela se situa na conversa e começa a tomar a iniciativa. Muda o rumo do diálogo e puxa o assunto para a religião: onde adorar a Deus? Lá em Jerusalém ou aqui no Monte Garizim? Os samaritanos tinham construído um templo no Monte Garizim que ficava perto do poço onde eles estavam conversando. Jesus entra pela porta que a mulher abriu. Primeiro, ele relativiza o lugar do culto: nem aqui nem lá! Neste ponto, os judeus não têm nenhum privilégio. Em seguida, esclarece que tanto judeu como samaritano, ambos adoram a Deus. A diferença é que os judeus adoram o que conhecem. Os samaritanos adoram o que (ainda) não conhecem, “porque a salvação vem dos judeus“, mas não se restringe a eles. E Jesus termina dizendo que chegará o tempo em que se poderá adorar a Deus em qualquer lugar, contanto que seja “em espírito e verdade”.

  1. João 4,25-26:A revelação: “O Messias sou eu que estou conversando contigo!”

A samaritana muda novamente o rumo da conversa e puxa o assunto para a esperança messiânica do seu povo: “Sei que vem um Messias. Quando ele vier, vai nos mostrar todas essas coisas!” Novamente, Jesus aceita a mudança do rumo da conversa, entra pela porta que a samaritana abriu e se apresenta: o Messias “sou eu que estou conversando contigo!” A esta mulher, excluída e herética para os judeus da época, Jesus revelou, por primeiro, a sua condição de Messias! Enquanto ele mesmo tomava a iniciativa, a conversa não avançava. Ela só avançou e atingiu o seu objetivo a partir do momento em que a samaritana se situou e começou a tomar a iniciativa. Será que nós temos a mesma coragem de deixar ao outro a iniciativa, o rumo da conversa?

  1. João 4,27-30: A transformação que o diálogo realiza na samaritana

Os discípulos tinham ido ao povoado comprar alimento (Jo 4,8). Retornando, encontram Jesus conversando com uma mulher. Estranharam, mas não disseram nada. Então, a samaritana largou o balde perto do poço e voltou sem água para o povoado. Já não precisava da água do poço de Jacó, da antiga Lei. Ela havia encontrado a fonte da água que brotava dentro dela para a vida eterna (Jo 4,14). Chegando no povoado, ela anuncia Jesus: “Venham ver um homem que me disse tudo o que eu fiz! Será que ele é o Messias?” O resultado deste difícil diálogo parece muito reduzido. Jesus só conseguiu provocar uma pergunta na mulher: ‘Será que ele é o Messias?” Talvez seja este o resultado mais positivo que se possa imaginar! Jesus não dá respostas. Ele levanta perguntas que levam a pessoa a refletir sobre o sentido da vida.

  1. João 4,31-38:A transformação que o diálogo realiza em Jesus

Mesmo correndo o risco de não obter nenhum resultado, Jesus não se impôs nem condenou a mulher, mas respeitou-a profundamente. Durante a conversa, ele não se fechou dentro da sua religião nem dentro da sua raça, mas se orientava por aquilo que ele mesmo ia aprendendo da própria samaritana. No fim, esqueceu até da comida que os discípulos tinham trazido, pois prestava atenção ao que o Pai lhe tinha a dizer através da conversa com a samaritana: ‘Meu alimento é fazer a vontade daquele que me enviou e completar a sua obra!” (Jo 4,34). Jesus lê os fatos com outros olhos. Para os judeus, os samaritanos eram um povo a ser desprezado. Para Jesus, eles são um campo fértil, pronto para a colheita (Jo 4,35). Ele descobre que, na vida da samaritana, pessoa não judia e não praticante, existe o dom de Deus” (Jo 4,10). A Boa Nova de Deus existe na vida de todas as pessoas. Os discípulos e as discípulas não são os donos da Boa Nova. Devem ser servidores, instrumentos. Sua missão é ajudar as pessoas a descobrir o dom de Deus dentro das suas vidas.

  1. João 4,39-42: O resultado da missão de Jesus na Samaria

Aqui temos o mesmo processo que já vimos na formação da primeira comunidade: encontrar, experimentar, partilhar, testemunhar, conduzir até Jesus. A samaritana encontrou, experimentou, partilhou, testemunhou e conduziu o seu povo até Jesus. Os samaritanos, por sua vez, escutaram a partilha que ela fez e, por isso, convidaram Jesus a ficar com eles. Durante a convivência de dois dias, eles mesmos experimentaram a Boa-nova e começaram a partilhar e a testemunhar a sua experiência com a samaritana: “Nós próprios ouvimos e sabemos que este é verdadeiramente o Salvador do mundo!” Resumindo: nesta longa conversa, Jesus transgrediu várias normas religiosas e culturais da época: Passou pela Samaria, o que não era costume dos judeus. Sendo judeu, conversou com uma samaritana, o que era proibido. Sendo homem, conversou com uma mulher e pediu bebida a uma pessoa proibida, sem preocupar-se com as normas severas da pureza. Conviveu dois dias com os samaritanos. Conviver, comer e beber juntos era sinal de grande intimidade. A comunhão de mesa era permitida só com os da mesma religião.

 

Alargando

As mulheres no Evangelho de João

O papel das mulheres nas comunidades do Discípulo Amado era muito importante. Logo no início, o primeiro milagre-sinal de Jesus foi realizado por intervenção de Maria, a mãe de Jesus (Jo 2,1-11). E no fim, ao pé da cruz, é novamente ela, a mãe de Jesus, que se torna mãe da comunidade do Discípulo Amado (Jo 19,25-27).

Nos capítulos 2, 3 e 4 aparece claramente uma evolução na fé que vai desde a desconfiança de Jesus a respeito dos judeus (Jo 2,23-25), passando pela incapacidade de Nicodemos para entender a novidade do Espírito (Jo 3,1-12), até chegar à mulher samaritana. Ela não somente acreditou, mas levou muitos samaritanos a aceitar Jesus como o Messias (Jo 4,39-42). No centro da confrontação entre Jesus e os judeus aparece outra mulher, aquela que deve ser apedrejada por adultério. A simples presença daquela mulher já é uma denúncia e uma crítica para eles (Jo 8,1-11).
No centro do Evangelho, está a confissão de fé de Marta (Jo 11,27), igual à confissão de Pedro no Evangelho de Mateus (Mt 16,16). Se Pedro faz esta confissão de fé e por isso recebe as chaves do Reino como sinal da sua autoridade, a confissão de Marta indica que, nas comunidades do Discípulo Amado, é uma mulher que assume este serviço. Cabe a Marta a responsabilidade de levar a fé em Jesus ao seu pleno amadurecimento. No final do ministério público de Jesus, está outra mulher, Maria de Betânia.

Com um gesto profético, ela unge os pés de Jesus (Jo 12,1-11). O seu gesto é repetido pelo próprio Jesus na última ceia (Jo 13,1-16) para expressar o serviço amoroso como identidade do verdadeiro discípulo e discípula. Há ainda um grupo de discípulas de Jesus que estão junto com Maria, sua mãe, na hora da sua crucifixão. São elas a mãe de Jesus, a irmã de sua mãe, Maria de Cléofas, e Maria Madalena (Jo 19,25).

Surpreendente é o papel de Maria Madalena. Ela é a mulher da busca incansável. É ela quem vê primeiro o túmulo vazio e vai correndo anunciá-lo aos discípulos. Sua persistência na busca leva-a à experiência do encontro com Jesus
ressuscitado.

Jesus aparece primeiro a ela e envia-a com uma mensagem para os Onze (Jo 20,11-18). A credencial para ser apóstolo é ter visto o Senhor ressuscitado e ter sido enviado a anunciá-lo (1Cor 9,1-2;15,8-11; Gl 1,11-16). Por isso, desde o começo da tradição apostólica, Maria Madalena recebeu o título de apóstola dos apóstolos.

Este uso do Antigo Testamento mostra que, em Jesus, chegou um novo critério para entender o sentido pleno da Bíblia e da história do povo. O desafio que fica para nós é este: reler hoje o nosso passado e a nossa história, tanto escrita como oral, de tal maneira que também nós possamos descobrir nela a ação do Espírito de Deus que orienta o nosso povo e a nossa cultura em direção à vida plena em Cristo.

 

Comparando as duas conversas

Tanto a conversa de Jesus com Nicodemos (Jo 3,1-12) como a conversa com a samaritana, ambas só existem no Evangelho de João. Comparando as duas conversas, percebemos que o evangelista quer acentuar algumas diferenças e, assim, transmitir uma mensagem. Diferenças não tanto de conteúdo, mas principalmente entre as duas personagens. De um lado, temos Nicodemos (Jo 3,1-21). É um homem, um judeu importante, de idade avançada. Dele sabemos o nome. No entanto, ele procura Jesus durante a noite, atraído pelos sinais que Jesus fazia, mas com dificuldades para crer. Ele está num processo pessoal de busca e parece não entender bem a proposta de Jesus, a quem chama apenas de Mestre. Do outro lado, temos a samaritana (Jo 4,1-30). É uma mulher, uma samaritana sem nenhuma importância social, desprezada e marginalizada. Dela não sabemos o nome. Ela não procura Jesus diretamente, mas é uma mulher com sede de vida, disposta a ter uma água que não seja a água parada do poço. Sente-se atraída pela proposta de Jesus, crendo, aceitando e reconhecendo nele o Messias. A conversa com a samaritana acontece em plena luz do dia. Ela não tem medo de ninguém e proclama para todos as suas descobertas. Ao fazer um paralelo entre estas duas atitudes, o Evangelho de João nos mostra que o caminho feito pela samaritana é muito mais agradável a Jesus do que a busca medrosa feita por Nicodemos. Afinal, Jesus “não precisa de informações a respeito de ninguém porque ele conhecia o homem por dentro” (Jo 2,25).