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Evangelho, Caminho de Libertação

Evangelho, Caminho de Libertação
23 de setembro de 2021 Zwei Arts

Leia a reflexão sobre Marcos 9. 38-43; 47-48, texto do Marcos Aurélio dos Santos

Boa leitura!

Sobre o Evangelho deste domingo iremos refletir a experiência de caminhada libertadora de Jesus de Nazaré com seus discípulos e discípulas, experiência de fé em meio aos múltiplos desafios da vida, sobretudo, nesse pequeno trecho do Evangelho de Marcos. A informação chega a Jesus por meio do discípulo João e da resposta de Jesus quanto as suas dúvidas e inquietações sobre os que falavam e agiam em nome de Jesus, mas não pertenciam ao grupo dos discípulos. Já de início percebemos, nessa passagem, a dificuldade e resistência de João em acolher pessoas de outros grupos. O Judaísmo fechado e exclusivista ainda estava impregnado na mente do discípulo, e, portanto, o impedia de construir uma relação mais próxima com os que não pertenciam ao novo grupo de seguidores e seguidoras do subversivo da Galileia.

A Galileia era um lugar de muitos povos, considerada a região periférica da Palestina, uma mistura de judeus e gentios, lugar dos excluídos, lugar rejeitado pela elite política e religiosa de Jerusalém. Foi nas estradas empoeiradas da Galileia que Jesus deu início ao seu movimento libertador, viveu a maior parte do seu tempo com o povo, por isso, era também chamado de Galileu.

Ao receber a informação de João de que havia um homem expulsando demônios em seu nome, mas não o seguia, a resposta de Jesus foi simples e direta: “não o impeçam”! Foi uma orientação não apenas para João, mas para todos os discípulos e discípulas. Jesus aprofunda sua resposta dizendo que, quem não é contra nós, está a nosso favor. (v.40). Jesus em suas palavras busca um caminho de abertura e aproximação dos discípulos para acolher novos seguidores e seguidoras, construindo assim, uma comunidade fraterna, buscando quebrar as barreiras da exclusão que dividia o povo.

Jesus quer ensinar aos seus discípulos que seu mestre não é de propriedade exclusiva de um pequeno grupo, mas que veio para servir a todos e todas com liberdade. Jesus ensina uma das virtudes do Evangelho que é simplicidade, que respeita e acolhe, uma atitude que vai ao contrário à prática dos religiosos de seu tempo, que se achavam únicos, queriam ser exclusivos de Deus, por isso se afastavam dos que não pertenciam ao seu grupo religioso. Quem não é contra nós é por nós seria um incentivo da parte de Jesus, um início de um diálogo de aproximação com os que estavam distante.

No decorrer da conversa, Jesus compartilha com seus discípulos e discípulas a importância da aproximação, do acolhimento e serviço aos pequeninos. Os pequeninos a quem Jesus se refere aqui, como também em outros Evangelhos, não são apenas os da irmandade pertencente ao nosso clã, mas todos e todas e quem tivermos a oportunidade de encontrar, sobretudo os que sofrem opressões e exclusão por parte dos poderosos. O ensino de Jesus, ao qual João chama de “Mestre” aponta para um movimento libertador, não para o surgimento de uma nova religião com seus códigos, ritos e dogmas, que no seu tempo resultava em divisão, hierarquias e projetos de poder.

Não acolher um pequenino e servi-lo poderia resultar em exclusão, levando-o ao tropeço e sofrimento. No tempo de Jesus, o povo sofria sob opressão do Império Romano que governava com mão de ferro, isso com o apoio dos religiosos do sinédrio. Muitos estavam, como disse Jesus, debaixo de um fardo pesado, principalmente os mais pobres da região periférica da Galileia, que amargavam grande sofrimento com a cobrança de impostos abusivos, trabalho escravo e exploração política. O eixo dessa passagem do Evangelho de Marcos está no versículo 41. Dar um copo d’água a quem tem sede, seja a quem for, tem um profundo significado. Significa acolher, servir, compartilhar, amar, mesmo este não sendo um dos nossos, uma atitude que mantém viva a esperança utópica do Evangelho cumprindo assim as palavras de Jesus, “amai-vos uns aos outros”.

Hoje, urge continuar no seguimento de Jesus. Os tempos são difíceis. É preciso manter vivo o espírito acolhedor e fraterno. Em meio à pluralidade religiosa, é um erro pensar que nosso grupo é exclusivo, não podemos achar  que somos únicos e que Deus tem prediletos. Deus não caminha na divisão e muito menos na soberba, mas seus passos estão marcados na estrada da diversidade. No mundo de hoje, há muitas religiões, cada uma com sua maneira de ser, pensar e agi. Falam e agem em nome de Jesus, algumas delas em vão, contudo prevalece a missão dos que seguem a Jesus, a saber: discernimento, fé e esperança. Muitos tem desanimado no meio do caminho, contudo continua a missão de compartilhar um copo d’água, um abraço e palavras de encorajamento, para que assim vençam o tropeço e retomem o caminho de libertação.

O acolhimento aos pequeninos e pequeninas não deve ser apenas em palavras, mas em ações concretas. Muitos falam dos pobres, dos marginalizados e excluídos, contudo, estão distantes deles, não vivem a realidade dos que sofrem, dos que dormem debaixo dos viadutos e calçadas nos grandes centros urbanos, pequeninos vítimas da opressão capitalista, com apoio dos senhores da religião. Na contramão do Evangelho de Jesus de Nazaré, esses senhores da religião atraem fiéis que lotam os templos em busca de uma benção material e muitos se esqueceram do Evangelho, onde o pobre é explorado, sob falsas promessas e engano. O copo d’água, que representa o acolhimento e partilha, toma lugar de curandeirismo ilusório.

O Evangelho de Jesus é a boa nova de libertação, em que todas e todos são chamados para caminhar no seguimento do Mestre, caminho cheio de amor e esperança. É tempo de renovar as alegrias, dar continuidade, não deixar morrer a profecia!  São muitos os desafios para os que pretendem permanecer no seguimento de Jesus: dar de comer a quem tem fome, água a quem tem sede, agasalhar os que sofrem mas noites frias, oferecer abrigo ao desamparado,

Evangelho de Jesus, Evangelho de hoje que nos anima. Evangelho que nos enche de alegria, que nos fortalece em tempos de angústia e dor, restaurando as forças na caminhada libertária.

Marcos Aurélio dos Santos, teólogo popular e integrante do CEBI Rio Grande do Norte