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É TEMPO DE SALVAÇÃO

É TEMPO DE SALVAÇÃO
25 de novembro de 2021 Zwei Arts

Leia a reflexão sobre Lucas 21,25-28.34-36, texto de Kezzia Cristina Silva

Boa leitura!

“Quando começarem a acontecer estas coisas, reanimai-vos e levantai as vossas cabeças; porque se aproxima a vossa libertação” (Lc. 21.28)

Na tradição cristã, inauguramos hoje o primeiro domingo do advento, que de acordo com o calendário, refere-se aos 04 domingos que antecedem a celebração do Natal de Jesus. Nesse período, não apenas a comunidade cristã, mas as mais diversas comunidades espalhadas pelo mundo, são convidadas a se envolverem com a mensagem de esperança em um novo tempo que há de vir. Neste primeiro domingo, o convite é para que os corações orantes reflitam e orem olhando para as necessidades reais e urgente de seu tempo e identifique sinais de clamor pela segunda vinda do glorioso Jesus, trazendo salvação hoje a agora.

Tendo em vista do que se trata o período e qual é a proposta do advento, ninguém mais indicado do que o apóstolo Lucas para nos inspirar com uma narrativa profunda, provocadora e animadora do evangelho de Jesus.

É bem provável que Lucas tenha concluído sua narrativa do evangelho por volta do ano 85, e escreve voltado para um público de pessoas em situação de pobreza ao lado de pessoas ricas e poderosas que detinham o controle do sistema religioso, político e econômico da época, ambas inseridas em cidades grandes como por exemplo a Antioquia da Síria, Éfeso e até mesmo a cidade da Grécia. Cidades governadas pelo império Romano que se sustentavam com um sistema de trabalho escravagista e indecentes taxações de impostos. Além das cruéis práticas do sistema econômico de exploração e dominação, as comunidades lucanas também sofriam com a perseguição política de intolerância religiosa ao se declararem seguidoras do Jesus de Nazaré, aquele que foi torturado e morto por levar mensagem de libertação ao povo pobre e oprimido. Diante disso, é importante ressaltar que a mensagem de Lucas faz um caminho da periferia para o centro. Jesus inicia na Galileia e termina em Jerusalém e é ali no centro de Jerusalém, diante do templo de pedras que Jesus denuncia as práticas de ganância, soberba, mas também aponta para sinais de profunda piedade como é o caso da viúva pobre que doa tudo o que tem (Luc. 21.01…). Também é diante do templo que Jesus avisa sobre os dias difíceis e de ódio que estavam por vir contra suas seguidoras e seguidores, mas, também é ali, que ele anuncia esperança de vida para aquelas e aqueles que se mantivessem perseverantes (Luc. 21.06-19…). De fato, os anos que se seguiram foram de total perseguição contra a comunidade seguidora de Jesus o Cristo.

Por conta de todo esse cenário de desolação, as pessoas daquelas comunidades estavam atravessando um momento de crise, manifestando cansaço, desânimo e descrença. Nesse sentido, Lucas escreve com a intensão de outra vez animar e reavivar a fé das seguidoras e seguidores de Jesus. O evangelista inicia sua narrativa lembrando a comunidade de que em Cristo temos o Deus da salvação e que essa salvação é para hoje.: “Nasceu-vos hoje um Salvador, que é o Cristo-Senhor” (Lc 2,11).

A leitura sobre o contexto da comunidade lucana é um convite para levantar o olhar sobre as nossas comunidades e apontar clamores de salvação e misericórdia. Assim como nos dias atuais, fica evidente que havia naquele período um projeto de destruição em curso que se materializava nas ações de controle do poder religioso e político de sua época. Hoje, observamos que esse projeto de morte se apresenta de diversas maneiras, seja associada a falta de recursos para a saúde, moradia digna, alimentação, trabalho e renda, ou na falta de espaço de respeito e vivências das experiências subjetivas de cada indivíduo.

Hoje no Brasil, ainda em meio a uma pandemia, por falta de um plano eficiente, urgente e comprometido com a promoção da vida de todas as pessoas, chegamos a um número absurdo de mais de 600.000 mortes decorrentes da pandemia provocada pela COVID-19; o genocídio da juventude negra é uma realidade cruel vivida diariamente no Brasil; somos pelo 12º ano o país que mais mata pessoas LGBTQIAP+; ocupamos o 5º lugar no ranking mundial de feminicídio, segundo dados da ONU;  o Brasil é extremamente vulnerável, uma realidade que é vivenciada por milhões de pessoas que estão hoje abaixo da linha da pobreza e outros milhões que estão na pobreza; o Brasil tem cerca de 40 milhões de trabalhadoras e trabalhadores sem carteira assinada e cerca de 12 milhões de desempregadas e desempregados, segundo dados da (OIT); em pesquisa realizada entre agosto e dezembro de 2020, destaca que a insegurança alimentar no Brasil, que alcançou seu nível mínimo histórico em 2013 (22,6%), já atinge 36,7% dos domicílios brasileiros, conforme constatado pela IBGE. 2017/2018, bem antes, portanto, do início da pandemia[1].

O evangelho do Jesus da Galileia continua provocando e inspirando as comunidades de fé a assumirem sua missão profética de denúncia de toda e qualquer injustiça e anunciar um novo tempo de vida abundante para todas as pessoas. Nesse primeiro domingo do advento, toda a comunidade cristã é convidada a se posicionar perseverante como reais agentes de uma era promotora de justiça e paz onde todas as pessoas possam desfrutar da salvação misericordiosa de Jesus, hoje e sempre. Levantemos as nossas cabeças pois está chegando o tempo da vossa salvação. Advento é espera do verbo esperançar, é fé movida em profunda compaixão.

[1] cartacapital.com.br