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Missão Ecumêmica em apoio aos Guarani-Kaiowá MS

Missão Ecumêmica em apoio aos Guarani-Kaiowá MS
26 de julho de 2016 Centro de Estudos Bíblicos
Missão Ecumêmica em apoio aos Guarani-Kaiowá MS
Na última terça-feira, 12 de julho, mais um ataque aos Guarani-Kaiowá aconteceu no Mato Grosso do Sul. Três indígenas: um homem de 32 anos e dois jovens de 15 e 17 anos foram baleados. Os crimes ocorreram em meio ao processo de demarcação de terras dos povos indígenas na região de Caarapó. Os indígenas estavam acampados no “Tekoha-Guapoy”, e foram atacados por pistoleiros que chegaram em quatro caminhonetes e um trator.

Esse é o terceiro ataque aos Guarani-Kaiowá no último mês, na região de Dourados (MS). No dia 14 de junho, o indígena Clodiodi de Souza foi assassinado, e outros seis indígenas foram baleados, incluindo uma criança de 12 anos.

Frente à guerra em curso no estado, travada por ruralistas e suas milícias armadas contra indígenas, a Coordenadoria Ecumênica de Serviço (CESE), o Conselho Nacional de Igrejas Cristãs do Brasil (CONIC), o Centro Ecumênico de Estudos Bíblicos (CEBI) e a Articulação e Diálogo Internacional (PAD), que desde outubro de 2015 coordenam a Missão Ecumênica seguiram com uma nova missão para o Mato Grosso do Sul.

O objetivo do ato foi denunciar

Há uma guerra em curso no estado do mato Grosso do Sul. Segundo relatório do Conselho Missionário — CIMI, só entre o ano de 2000 e 2014, 390 indígenas foram assassinados no Estado.

“Guaranis e Terenas acolhem-se entre si e aos que vieram em solidariedade”
Rafael Soares de Oliveira (Koinonia)

Houve uma convocação pública para o II -Ato Ecumênico em defesa dos povos indígenas, que aconteceu nos dia 14 de julho, em frente à Assembléia Legislativa do Mato Grosso do Sul.

Além de denunciar os crimes cometidos por ruralistas e com a omissão do Estado, buscam sensibilizar a população da importância do apoio de todos na luta pela garantia dos direitos dos povos indígenas garantidos pela Constituição Brasileira de 1988.

Religiosos de várias tradições e regiões do país protestaram contra a violência, praticada na maior parte dos casos por ruralistas.

A situação só vem se agravando. Diversas denúncias foram feitas e diversos documentos publicados dentro e fora do Brasil. Estamos aqui em nome de várias organizações ecumênicas comprometidas com a luta por direitos. Enquanto o sangue indígena estiver correndo por este chão não podemos ficar omissos” Pastora Sônia Mota (CESE)

Pastora Sônia lembrou ainda que um dos propósitos das entidades presentes é cobrar de perto atitudes do governo e das instituições no sentido de assegurar o respeito aos direitos dos povos indígenas.

“Nós crescemos vivendo o sofrimento.Em 88 lutamos para assegurar nossos direitos na constituição. Conseguimos segurar em dois artigos o direito sagrado sobre a terra. E querem nos tirar. Nosso povo está pagando caro. Aconteceram duas CPIs para nos apontar como culpados. Disseram até que nós iríamos invadir a cidade para jogar a sociedade urbana contra nosso povo. Nós não vamos nos calar. Direito não se negocia e nem se abandona”.Alberto da Terra Buriti -Cacique Terena

Embora o acirramento dos conflitos territoriais tenha mobilizado parte da atenção da sociedade para o tema, somente em 2014, 138 índios foram mortos de acordo com relatório do Conselho Indigenista Missionário (CIMI). Os recentes atentados, inclusive com mortes, representam a continuidade num histórico muito mais longo de negação de direitos.

Além dos assassinatos e das campanhas de deslegitimação da causa indígena, pesam ainda contra essa população problemas como a mortalidade infantil — de 42 crianças mortas por mil nascidas vivas (22 é a média nacional) — e a desnutrição, principal causa de morte entre crianças indígenas até os 9 anos. Entre os adultos, o índice de suicídios supera em mais de cinco vezes a média nacional, atingindo em cheio os jovens.

“A gente sabe que a juventude que hoje sofre tem rostos, locais e demandas específicas. Ela está na periferia, lutando pela terra como aqui. Viemos dizer que o luto de vocês se faz nosso luto e que a dor de vocês se faz nossa dor. Não pensem que estão sozinhos. Sabemos que há muita diferença entre a nossa situação e a daqueles que estão perdendo familiares, mas acredito que em conjunto possamos garantir uma resistência mais forte”. Edoarda Scherer, facilitadora da Rede Ecumênica da Juventude (Reju)

Missão Ecumênica se reúne com procurador chefe da questão indígena de MS

Os missionários estão visitando o estado pela segunda vez com foco na defesa e apoio aos Guarani Kaiowá. Após o grande ato realizado na Assembleia Legislativa, seguiram para reunião no Ministério Público Federal de MS com Emerson Kalif Siqueira, que é procurador chefe da matéria indígena no Estado.

A coordenação da missão reforçou a preocupação com o genocídio em curso no Estado e os ataques constantes às comunidades e tekohás.

Em sua fala de apresentação da Missão, a pastora Sônia Mota, que é de Salvador e representante da Coordenadoria Ecumênica de Serviço (CESE), ressaltou que é com tristeza, mas com muita força de continuar caminhando com os povos indígenas de MS, que os missionários voltam ao Estado.

“Quando tivemos aqui no ano de 2015, em outubro, tinha acabado de acontecer o assassinato do líder indígena, Simeão Vilharva, agora voltamos com o assassinato do agente de saúde, Clodiodi de Souza, com diversos feridos, resultado dos ataques às áreas de retomada. E como cenário se acirrou ainda mais, resolvemos retornar, nos abastecer de todas as informações possíveis e voltar para continuar denunciando a situação aos organismos nacionais e internacionais, fazendo todo o possível para dar o apoio necessário a esse povo tão sofrido”, disse.

Os missionários ouviram do representante do MPF, Emerson Kalif, um pouco sobre o cenário de guerra do estado e quais as medidas que vem sendo tomadas pelos poderes constituídos, em especial o Ministério Público.

“É muito bom receber esta Missão aqui no Ministério Público, como recebi no ano passado e é de suma importância colaborar para que eles sejam porta vozes da realidade que acontece em MS. Podemos adiantar que o Ministério Público está investigando a fundo as mortes ocorridas e estamos tomando as providências que nos são cabíveis”, afirmou.

O Representante do povo Guarani Kaiowá, Adalto Barbosa de Almeida, usou a palavra e reforçou a importância da resistência do seu povo na luta pela terra.

“Nós vivemos confinados, não temos espaço suficiente para as nossas famílias viverem, para nós a terra é a mãe, ela dá frutos, ela dá vida e precisamos dela para sobreviver, sabemos que somos os verdadeiros donos dos territórios já reconhecidos, temos mapas, documentação e só estamos batalhando pelos nossos direitos e isso tem custado a vida de muitos guerreiros e guerreiras, pois a arma do homem branco, não é a de fogo, a nossa é a resistência, pois acreditamos na justiça maior”, disse.

A reunião terminou com uma benção e um belo canto do povo Guarani Kaiowá e os missionários seguiram para o município de Dourados-MS, região foco dos últimos conflitos e mortes.

Missão em Dourados

Missão Ecumênica em apoio aos Guarani-Kaiowá visitou na sexta-feira (15) as comunidades recentemente atacadas.

Segundo lideranças locais, conflitos territoriais na região já custaram quase 400 vidas. A Missão Ecumênica visitou área indígena de Dourados-Amambaipeguá, no município de Caarapó, local do mais recente atentado contra os índígenas. O ataque, no último dia 11, feriu um adulto e dois adolescentes.

O dia começou com um ato ecumênico junto às comunidades Tey Jussú, seguido de uma visita a comunidade Apyka’i.

Além de participar de cerimônias e manifestações públicas, os religiosos puderam conhecer de perto as terras que têm sido palco e razão principal dos conflitos.

Segundo contam lideranças locais, apenas 0,2% das terras do estado são reivindicadas pelos indígenas. Requerer essa fração tem provocado a ira de ruralistas e a série de conflitos que já custou a vida de quase 400 pessoas.

“Precisamos que divulguem o que estamos vivendo hoje. Não é fácil para o sangue Guarani-Kaiowá quando vemos nossas crianças sofrendo, massacradas. Não é fácil vermos nossas lideranças morrendo. E cadê a investigação? Cadê a justiça? A justiça só será feita quando a terra for nossa. Enquanto isso não acontecer continuarão nos matando”, desabafou a professora Elizabeth Fernandes, que integra a coordenação das retomadas (nome dado pelos indígenas às ocupações de territórios tradicionais).

A missão esteve também na área onde no dia 14 de junho de 2016 Clodiodi Aquileu Rodrigues de Souza foi assassinado.

Aquele território foi rebatizado. Agora se chama Tekoha Kunumi Poty Vera, o “guerreiro que brilha”, em homenagem a homenagem ao agente de saúde Clodiodi, assassinado num atentado recente que entre os feridos teve uma criança de apenas 12 anos.

Os religiosos visitaram o túmulo de Clodiodi, onde realizaram um pequeno rito em sua memória. Em todas as comunidades por onde passaram, os missionários foram saudados com cânticos e agradecimento.

A atmosfera, no entanto, é de comoção e muita apreensão. Segundo a líder da comunidade de Apyka’i, Cacica Damiana, há também um desrespeito dos fazendeiros aos Tekoha (as aldeias e espaços sagrados para os Kaiowá) e, por extensão à própria tradição indígena.

“Fomos tratados que nem cachorro. Nos expulsaram e queimaram tudo.Tiraram até a cruz do túmulo do meu marido. Só queremos voltar para nossa terra”, contou Damiana.

Além da solidariedade e compromisso com a denúncia das violações de direitos no MS, os missionários levaram também cobertores arrecadados pelas igrejas. O material foi entregue ao Conselho Indigenista Missionário (CIMI) para distribuição entre as comunidades.

“Uma missão como essa foi além das nossas intenções. Renovou o compromisso ecumênico para a causa Kaiowá e o desfio da presença das Igrejas em situações limite por direitos e defesa da vida. Mas também esperanças entre os apoiadores locais, união entre diferentes Tekoha´s sem condições de se encontrarem no cotidiano e muitas formas de oração conferindo dignidade a todas pessoas ali em igualdade”. Disse Sônia Mota.

 
“Voltamos para nossos lugares de origem para nossos trabalhos com o sentimento de que foi importante ter ido prestar a nossa solidariedade e com o desafio de continuar com a Missão”, Missão Ecumênica em apoio aos Guarani-Kaiowá MS/Julho de 2016
Textos: Kátia Visentainer, Karina Villas Boas, Luana Almeida e Thiago Ansel.
Fotos: Júlia Esther Castro, Karina Villas Boas, Rafael Soares Rodrigues e Sônia Mota.