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XXII Assembléia Nacional do CEBI : Construindo caminhos de transformação com as periferias (Texto Motivador)

XXII Assembléia Nacional do CEBI : Construindo caminhos de transformação com as periferias (Texto Motivador)
26 de maio de 2021 Comunicação

“CONSTRUINDO CAMINHOS DE TRANSFORMAÇÃO COM AS PERIFERIAS”

DEUS VISITOU SEU POVO

 

Por Rafael Rodrigues da Silva e Silva  Souza*

 

O tema da XXII Assembleia Nacional do CEBI tem uma importância para os tempos que estamos vivendo e para a caminhada do CEBI e a Leitura Popular e Libertária da Bíblia. Três dimensões estão presentes neste tema e que exige reflexão, aprofundamento e ação: primeiro, no âmbito do lugar social, há que se perguntar pelo lugar social do CEBI: estamos com as periferias ou estamos nas periferias? Qual a função social da Leitura Popular da Bíblia? Segundo, no âmbito político, libertário e transformador, há que se perguntar pelos passos construídos no caminho para a mudança política e para a transformação. Que caminhos de transformação estamos construindo? Que transformações promovemos com as periferias (Mulheres, Crianças, LGBTQI+, Etnias Afrodescendentes e Etnias Indígenas, Sem-teto, Sem-terra, Desempregados e Desempregadas, Escravizados e Escravizadas, Encarcerados e Encarceradas)?. Terceiro, no âmbito profético, há que se resgatar a teologia da compaixão e a teologia política da luta pela dignidade dos oprimidos e da defesa das vítimas frente um sistema opressor, explorador e espoliador. Estas são três dimensões a provocar a caminhada do CEBI e o serviço da Leitura da Vida e da Bíblia para as Comunidades e para as pessoas empobrecidas enquanto sinais de libertação.

Nesta perspectiva o texto bíblico iluminador e provocador para nossa reflexão e aprofundamento vem das lembranças, memórias e vivências das comunidades lucanas nas periferias das sociedades gregas e helenizadas. Vamos caminhar neste processo de construção da Assembleia Nacional iluminados por Lc 7,11-17.

Em seguida, Jesus foi a uma cidade chamada Naim. E seus discípulos e uma grande multidão o acompanhavam. Quando Jesus se aproximou da porta da cidade, levavam para fora um morto, filho único de uma viúva. E uma multidão da cidade acompanhava a viúva. Quando a viu, Jesus encheu-se de compaixão e lhe disse: “Não chore”. Aproximou-se, tocou no caixão, e os carregadores pararam. Então disse: “Jovem, eu lhe ordeno, levante-se”. O morto sentou-se e começou a falar. E Jesus o entregou à sua mãe. Todos ficaram com muito medo e glorificavam a Deus, dizendo: “Um grande profeta apareceu entre nós. Deus visitou o seu povo”. E essa notícia se espalhou pela Judeia inteira e por toda a redondeza (Evangelho segundo as Comunidades de Lucas 7,11-17).

Qual o trajeto de Jesus conforme a comunidade lucana? De 4,14 – 9,50 Jesus percorre a Galileia ensinando e curando, pois em 9,51 é dito que “tomou a firme decisão de partir para Jerusalém”. Ou seja, a narrativa traça de 9,51 – 19,27 o caminho para Jerusalém e de 19,28 – 24,53, a chegada a Jerusalém e o relato dos conflitos, a paixão, morte e ressurreição. Portanto, a narrativa que irá iluminar a nossa reflexão demonstra as ações de Jesus na Galiléia, começando na sinagoga de Nazaré, onde inaugura o seu ministério e ação junto aos/às pobres. A abertura de seu caminhar na Galileia para as comunidades lucanas se dá a partir da leitura do texto de Isaías 61,1-2 e sua interpretação com os que estão na margem da sociedade: viúvas, leprosos e estrangeiros. Na Galileia, Jesus interpreta as Escrituras, cura, provoca os fariseus e escribas, chama discípulos/as (não podemos esquecer as mulheres que fazem parte do caminho conforme 8,1-3), transmite a missão ao discipulado e ensina na planície (6,20-69).
“Quando terminou de falar todas essas coisas ao povo que o escutava, Jesus entrou em Carfanaum” (7,1). Ali curou o servo do centurião. “Em seguida, Jesus foi a uma cidade chamada Naim” (7,11). Duas cenas de cura depois do Sermão da Planície. Uma em Carfanaum e outra em Naim.
Carfanaum é uma antiga aldeia na margem noroeste do mar da Galileia. O seu nome em grego (Kapharnaoum) significa “aldeia de Naum” e conforme o Evangelho é aí que Jesus iniciou o seu ministério. Quanto a cidade de Naim, esta fica a sudeste de Nazaré (muitas vezes é identificada com o moderno vilarejo de Nein), seu nome quer dizer: “aldeia do consolo”, que em hebraico significa “ser agradável, beleza, amabilidade, encanto”. Ela está situada na região de Jezreel (como Nazaré) e reporta para os tempos antigos como uma vila marcada pela agricultura e de acordo com os interesses econômicos da época era uma vila muito pobre apesar da riqueza das plantações de oliveira, trigo, uvas e figos na região.

 

Podemos ver que Jesus andava pela periferia da Galileia e dali foi-se espalhando a Boa Notícia e levando as multidões ao seu encontro (Veja: 4,14.16.31.37.38.42; 5,1.3.15.19.29; 6,17-19; 7,1.9.11.12.24; 8,1.4.19.37.40.42. 45; 9,10.11.12.16.18.37.38; 11,14.27.29; 12,13.54; 13,14.17; 14,25;18,36.
19,3. 37). No relato da paixão tem três mo(vi)mentos: a multidão que o seguia (23.27) , a multidão junto com as autoridades que o condenam à morte (22,47; 23,1.4.18) e as multidões que foram assistir ao espetáculo e voltam batendo no peito (23,48).

Em 7,1-17, o caminho das periferias, do discipulado e das multidões, seja no acompanhamento de Jesus de Cafarnaum para Naim, seja de Naim para toda a Judeia, espalhando a todos/as a boa notícia; é espelho para as comunidades empobrecidas na Grécia entre os anos 70 a 80 d.E.C. Como vimos, o Evangelho segundo as comunidades lucanas faz afluir as multidões até Jesus, ou seja, ora uma multidão está acompanhando Jesus pelo caminho, ora Jesus vai de encontro a outra multidão que está na margem.

As comunidades nesta pequena cena trazem à lembrança uma mulher viúva a chorar a morte de seu único filho. Ao narrar os encontros de Jesus e com a viúva e seu filho morto e o encontro das multidões, apontam para a situação daqueles/as que estão na periferia. A sociedade daquele tempo nega direitos para mulheres, viúvas, doentes, órfãos, pobres e pedintes e os coloca na anonimato. Porém, o movimento das ações nesta cena faz com que a “multidão” perca seu anonimato e se transforme em anunciantes de duas dimensões importantes nas antigas tradições: a profecia e a teologia do êxodo enquanto teologia da compaixão. “Um grande profeta apareceu entre nós” e “Deus visitou o seu povo” se apresentam como o grande ressurgir da transformação para o vilarejo de Naim: o redescobrir a teologia e a tradição que dá identidade ao seu lugar: “Aldeia do consolo e da beleza”. A riqueza da cena da viúva junto com a multidão a levar o seu filho para ser enterrado aparece na ação de Jesus que “se compadece dela e lhe disse: Não chore” (7,13). O verbo ter compaixão/ter ternura (splagnizomai que traduz o verbo hebraico rähäm) aparece três vezes no Testamento Cristão para se referir ao ser humano: Mateus 18,27; Lucas 10,33 e 15,20 e oito vezes para se referir a Jesus: Mateus 9,36; 14,14; 15,32; 20,34; Marcos 1,41; 6,34; 8,2; 9,22 e Lucas 7.13. O verbo “chorar” no imperativo presente e logo após a negação (“Não chore!”) dá o tom da ação de Jesus que é mais que humana com aquela mulher que vem da periferia (viúva, pobre, sem filho e, consequentemente, sem a herança). Na cena não podemos ficar com uma palavra estática, de ordem e de um Jesus distante da vida. A cena evoca o abraço terno, o enxugar as lágrimas e o consolo que brota do útero/das entranhas.

Quando o texto evoca a memória da profecia e da teologia do êxodo como teologia da compaixão, faz a partir da ação de Jesus que restitui aquele menino para a sua mãe. “o morto sentou-se e começou a falar e Jesus o entregou (restituiu) para a sua mãe” (7,15). O texto de Lucas 7 utiliza a mesma expressão que está na Septuaginta ao narrar que o profeta Elias devolve a vida do filho da viúva de Sarepta e “o entrega/restitui à sua mãe” (1Rs 17,23). Tudo indica que as comunidades fazem uma releitura das profecias que sobreviveram na margem da sociedade, sobretudo, as profecias andarilhas e curandeiras ao redor de Elias e Eliseu.

Nas periferias, Jesus e as comunidades não devem estar preocupadas com os rituais de pureza, com os costumes que separam e distanciam e nem tampouco com as religiões que sobrevivem sobre cadáveres e corpos violentados e mutilados. Mas deve caminhar para promover rupturas e transformações. Há um grande silencio na cena sobre a vida na periferia sobre as condições da mulher e seu filho, sobre a cidade de Naim e a multidão que segue o cortejo fúnebre. Esta mulher vivia de que? O filho morreu do que? O que será desta mulher sem filho naquela sociedade patriarcal? Tendo o filho vivo nos braços, o que muda para esta mulher naquela sociedade patriarcal e androcêntrica? Muitas perguntas ao redor da mulher silenciada na cena e que no fundo são perguntas que o Evangelho escrito conforme a memória e a leitura da vida, fez para os seus dias marcados por violência, morte, exploração, abusos, roubos, entre outros crimes.

A desconstrução da cena deve partir justamente do silêncio sobre a mulher de Naim. O seu choro foi impactante e provocador. Da compaixão à transformação.
O que a narrativa construída pelas Comunidades Lucanas tem a dizer para o CEBI em seu caminhar e no seu serviço e compromisso transformador com as periferias?
Qual o lugar social do CEBI e do serviço da Leitura Popular da Bíblia?
Quais os silêncios que estamos encontrando/identificando nas periferias?
Que rupturas estamos fazendo com os modelos, sistemas e organizações da sociedade que silenciam as periferias?
As comunidades lucanas descreveram o caminho transformador de Carfanaum à Naim e daí para outras aldeias e que caminhos de transformação estamos construindo? Com quem? Como? Quais processos e passos? De onde e para onde?
Que CEBI queremos e estamos construindo com as periferias sociais, étnicas, culturais, sexuais, políticas, econômicas, religiosas e eclesiais?
Que boas notícias trazemos das periferias?
Que boas notícias iremos levar para as nossas periferias?
Como estamos a partir da Leitura Popular da Bíblia fazendo acontecer a profecia e a teologia da compaixão e ternura?

Venham todas e todos animados/as para a Assembleia Nacional do CEBI, fazendo brotar do chão de nossa gente as reflexões, as memórias do caminho, as provocações de nossas periferias , de modo que sejamos cada vez mais sinal de libertação e de construção de caminhos para a transformação.

Estimados/as irmãos/ãs desde seus espaços aprofundem o tema e as questões, produzam reflexões, cantos, símbolos, poesias à luz de Lucas 7,11-17 para serem partilhados no momento de estudo e reflexão em nossa XXII Assembleia Nacional. A contribuição de cada um/a é fundamental para a construção de caminhos de transformação com as periferias e de resgate da profecia e da teologia da compaixão e da ternura em nossas práticas

Até lá!

 

*Rafael Rodrigues é assessor e da direção nacional do CEBI

** Silvia Souza é biblista popular e integrante do CEBI/PE, do Conselho Nacional do CEBI (Triênio 2018-2020). É bacharel em Comunicação Social.