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Ecologia, animais não humanos e fé cristã: o que o Pantanal tem a nos dizer?

Ecologia, animais não humanos e fé cristã: o que o Pantanal tem a nos dizer?
10 de outubro de 2020 Comunicação

Helder Maioli Alvarenga*

 

Não é possível a humanidade desenvolver-se plenamente num modelo político-econômico centrado na comercialização sem limites da vida

 

Enquanto esse texto é escrito, dois milhões e trezentos mil hectares do Pantanal brasileiro foram consumidos pelas chamas. No rastro do fogo, vidas vegetais e animais, nossa fauna e flora destruídas e povos tradicionais ameaçados. Pelas diversas mídias, as imagens da vegetação transformada em cinzas ou dos animais não humanos feridos ou carbonizados nos chocam. As cenas, tornadas cada vez mais comuns, indicam uma economia e uma política assentadas sobre a crueldade, fomentando sofrimento a todo tipo de vida em detrimento do lucro.

Se esta realidade lança um apelo emotivo muito grande, faz-se necessário aprofundarmos o significado e a compreensão do problema real por detrás das queimadas anuais no Brasil. Não são somente as onças pintadas, as araras azuis ou os jacarés, fotografados nos últimos dias, os animais não humanos mais afetados pelos incêndios. A degradação da Amazônia e do Pantanal tem por objetivo a ampliação dos pastos, para criação de gado, a ampliação do cultivo de grãos, em sua maior parte para alimentação animal e também a exploração mineral desses territórios.

Assim, a utilização de animais não humanos como bens de consumo, seja para alimentação, vestuário, entretenimento, pesquisa e estimação, alavancou uma indústria que se utiliza da morte e do sofrimento para atingir a maior quantidade de lucros. Aí, animais humanos e não humanos, bem como toda a natureza, sofrem as diversas consequências e são colocados como objetos.

Se o apelo pela vida dos animais não humanos pode sofrer resistência devido aos nossos hábitos, podemos afirmar ainda que a questão animal é na verdade uma questão humana. Humana pelo fato de nossa espécie compartilhar da natureza animal e pelas consequências ecológicas provenientes de nossa relação com os demais animais.

Hoje, a pecuária lança mais gases responsáveis pelo efeito estufa na atmosfera que todo o sistema de transporte mundial. Cerca de 75% das terras aráveis do mundo são usadas para pastagem ou produção de ração. De toda a proteína vegetal produzida no Brasil, somente 16% é utilizada para alimentação humana, 80% é utilizada na alimentação dos demais animais. Gasta-se, em média, 15 mil litros de água e 25 kg de grãos para produzir 1 kg de carne bovina. Em 2013, nos lares brasileiros, havia 52,2 milhões de cachorros e 44,9 milhões de crianças até 14 anos.

Se fôssemos colocar outros números, não haveria espaço neste texto. A intenção desses poucos dados é mostrar que: 1) é impossível defender uma pauta ecológica sem que se reflita sobre a questão animal; 2) o fogo que consome o Pantanal é apenas a ponta do iceberg de todo um sistema centrado na morte e no sofrimento de vegetais e animais humanos e não humanos.

Toda mudança de mentalidade acarreta a construção de novas visões dos diversos grupos que compõem a realidade. É sobre este princípio que nos perguntamos: teria a fé cristã algo para nos dizer sobre esta temática? Aparentemente não, mas em profundidade sim, há uma riqueza pouco percebida ou explorada.

Para o cristianismo a natureza é mais do que só natureza, ela é criação. Dizer que o mundo é criação implica interpretá-lo na relação com seu Criador. Por Deus o mundo foi criado, em Deus o mundo subsiste e para Deus o mundo está destinado.

Que pese o fato do livro do Gênesis ser lido, majoritariamente, centrado no sexto dia, que relata a criação do humano, o ponto culminante de toda a criação é o sábado, dia santificado e de encontro de Deus com todas as suas criaturas. Aqui todos os seres encontram-se inter-relacionados e abertos à comunhão com Deus. Deus não cria o mundo e o deixa à sua própria sorte. Ele participa da vida do criado atraindo-o para si e oferecendo a possibilidade de plenitude.

O ser humano, singular na criação e distinto dos demais seres, é criado à imagem e semelhança para exercer o domínio, a administração da criação, como um guardião do jardim e não o destruidor. A singularidade humana frente aos demais seres é o ministério que este exerce no todo da criação, como o seu cuidador, como espécie servidora das demais.

Toda essa releitura teológica, feita nos dias atuais da revelação cristã, encontra em Francisco de Assis a dimensão prática da vida cristã. O santo, num momento em que no cristianismo o pensamento dominante colocava o ser humano acima e separado das demais espécies, resgata para a tradição cristã outra postura frente à criação.

Francisco de Assis não escreve grandes tratados sobre a relação dos seres humanos com os demais seres. Ele sente! Não por acaso, a maioria das pessoas se apegam e enfatizam mais a dimensão racional como elemento de distinção e se esquecem do sentir, que é elemento de união entre a nossa espécie e as demais espécies animais.

Em Francisco de Assis três chaves de leitura são importantes para o nosso tema: a união de uma mística evangélica com uma mística cósmica, em que o processo subjetivo inter-relaciona-se com o todo do mundo, dado objetivo; o conceito de fraternidade universal expresso no Cântico das Criaturas e que indica a relação nossa com todo o universo; a ideia de não possuir nada de próprio, que no fundo é uma experiência de desapropriação, não somente relacionado às coisas materiais, mas também aos demais seres. Não é sem sentido haver na regra escrita pelo santo a proibição de se possuir animais pelos frades. Nem mesmo a vida do outro animal é posse minha.

Assim, Francisco abre para o cristianismo uma nova forma de interpretar a nossa relação com as demais criaturas. Essa relação parte do cuidado humano para com todos os demais seres, que não são posse humana, mas criaturas de Deus. Essa grande fraternidade universal, que une seres tão diferentes, é imagem da comunhão do Deus cristão que é Uno e Trino, comunhão em si e para outro.

Atualmente outro Francisco, o de Roma, inspirado no de Assis, propõe, no diálogo com o mundo, um novo modelo para humanidade que rompa com o paradigma tecnocrático e com a idolatria do dinheiro. Não é possível a humanidade desenvolver-se plenamente num modelo político-econômico centrado na comercialização sem limites da vida. É este modelo que produz as cenas que temos visto no Pantanal e na Amazônia. O fogo que consome as vidas vegetais e animais é um grito aos céus por justiça e misericórdia. Ele atesta que não cumprimos a nossa missão dada por Deus como seus semelhantes. Além disso, aponta que muitos cristãos perderam a dimensão simbólica do que vem a ser a criação.

A tradição judaica conta que certo dia um homem entrou, muito agitado, na casa do rabi Menahen Mendel de Kotz afirmando a chegada do Messias. Como prova, relatava os milagres e os feitos extraordinários. O rabi ouviu o homem pacientemente e depois o levou até a janela de sua casa e daí mostrou um carroceiro espancando o seu cavalo. Os dois juntos chegaram à conclusão de que o Messias não havia chegado, pois havia sofrimento no mundo.

Em época de Messias propagadores de ódio no discurso, de sofrimento nas ações e de indiferença nas relações, o verdadeiro Messias, centro da fé cristã, mestre de Francisco de Assis, nos indica outro caminho: o do cuidado, do amor para com todas as criaturas, até às ervas daninhas, como ensinava Francisco de Assis.

O ser humano, centrado na figura de Jesus, o Cristo, não é aquele que se impõe com um domínio irrestrito sobre os demais, mas aquele que se reconhece em comunhão e em responsabilidade com todos.

Num país de população majoritariamente cristã, as cenas de destruição da vida atentam contra a própria fé deste grupo. E não podemos nos calar, precisamos dar testemunho dessa fé, de nosso amor e da nossa esperança.

 

*Helder Maioli Alvarenga é mestre em ciências da religião pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC Minas), bacharel em teologia pelo Instituto Santo Tomás de Aquino (ISTA) e licenciado em filosofia pelo Centro Universitário Salesiano (UNISALES)

 

Foto Lula Marques

Artigo publicado no portal DOM TOTAL :https://domtotal.com/