As diversas Páscoas e o Mundo Atual

Marcelo Barros

Muita gente fala de Páscoa como se só existisse uma. De fato, no mundo religioso, existe a Páscoa judaica e a Páscoa cristã. Na sociedade, existe a Páscoa de quem aproveita o feriado para ir à praia ou passear. Mesmo em cada uma das Páscoas religiosas, há várias formas de viver e celebrar esse evento.

Provavelmente, o termo Páscoa (Peshach) significa passo, ou passagem. Em regiões do antigo Oriente Médio,  designava uma  dança de primavera. Era o passo (Páscoa) dos abrigos do inverno para o convívio com as outras pessoas e a natureza. Então, por sua origem e em seu DNA, a Páscoa tem caráter ecológico e, até hoje, a humanidade festeja a primavera.

Assim, no hemisfério-sul, em setembro, comunidades indígenas e afrodescendentes mantêm festas, nas quais celebram as manifestações divinas na Mãe-Terra, nas águas e na natureza. É possível que, no Candomblé Ketu, a festa das Águas de Oxalá tenha algo a ver com isso. É um rito de procissão na qual as pessoas carregam água e recordam o mito de Oxalá, que estava preso e foi libertado. É comemoração de uma libertação.

Até hoje, no Judaísmo, a festa de Páscoa, conhecida pelo nome de Peshach ocorre nas sinagogas e comunidades de todo o mundo. Neste ano de 2026, a Páscoa judaica é celebrada de 1º a 9 de abril. Recorda a libertação do povo oprimido que, conforme a Bíblia, era escravo no Egito e em uma festa de Páscoa, tomou uma refeição apressada, para partir para a libertação.

Desde tempos antigos, essa festa consiste, principalmente, em uma ceia litúrgica chamada Seder. Além disso, durante sete ou oito dias, as pessoas evitam comer alimentos fermentados (chamêts). Consomem matsá (pão ázimo) e outras comidas simbólicas, que lembram o sofrimento e a saída apressada do Egito.

A tradição traduziu o termo hebreu como judeu e, posteriormente,  a própria Bíblia identificou hebreu com israelita. Historiadores, exegetas e pesquisadores da história, como o estadunidense Norman Gottwald e o alemão Gerd Theissen, acreditam que o termo hebreu não designava etnia ou raça e sim categoria social, que, hoje, corresponderia a lavrador sem-terra, ou migrante sem-documento.

Infelizmente, hoje, muitos religiosos e religiosas do Judaísmo tradicional celebram liturgicamente a Peshach, mas, ao mesmo tempo, apoiam o governo sionista que massacra o povo palestino e chama o Irã de amalecitas, que, conforme a interpretação fundamentalista de textos do livro de Josué, devem ser simplesmente exterminados.

Mesmo no Judaísmo, não existe uma única forma de celebrar a Páscoa. Existe a celebração da Peshá, que, apenas, faz memória de um passado mítico, mas não se traduz por atitude ética de continuar hoje o que aquele episódio antigo significou. Por todo o mundo, há sinagogas tradicionalistas que celebram a Peshá e, na própria ceia pascal, coletam dinheiro para a guerra. No mesmo bairro, pode haver outra sinagoga que celebra a ceia pascal e proclama ao mundo que Deus é Amor e está sempre do lado dos povos crucificados de hoje. Os ritos, em sua essência, são os mesmos. O que muda é a interpretação e a ética com a qual as pessoas ligam o rito à vida concreta e à realidade de hoje.

Essas comunidades recordam o passado para atualizá-lo. Celebram a Páscoa para testemunhar que  a ação divina é sempre libertadora de todas as pessoas oprimidas e da própria terra maltratada. Nessa Páscoa de 2026, em nome da fé, soldados israelitas negam-se a participar da guerra.

Desde 1969, em Tel Aviv e em Jerusalém, as comunidades do Neve Shalom, Oásis de Paz, reúnem pessoas judias e árabes. Embora enfrentem sérios problemas de segurança e ameaças de grupos fundamentalistas judeus e muçulmanos, a Neve Shalom mantém escolas bilingues, em hebraico e árabe e presta socorro às famílias, vítimas da guerra. Nesta quarta-feira, 1 de abril, essa comunidade celebra o SEDER, a ceia pascal judaica. Na quinta-feira, inicia a celebração cristã da Páscoa.

No Cristianismo, nem todas as Igrejas celebram a Páscoa. As Igrejas “novas” não observam, propriamente, calendário litúrgico. Assim, reagem ao ritualismo das Igrejas mais antigas. Se quiser, o pastor prega sobre a morte de Jesus e sua ressurreição. Em geral, só as Igrejas consideradas históricas celebram a Páscoa. Entre elas, há grupos que procuram ligar Liturgia e Vida e outros que se negam até a cantar o hino da Campanha da Fraternidade, porque não o consideram religioso.

As comunidades da caminhada procuram atualizar-se e compreendem a missão como Igreja em saída,  na direção das periferias do mundo. Elas têm dificuldade de celebrar a morte e a ressurreição de Jesus, porque todo o aparato litúrgico dos ritos, dos textos e dos cânticos têm uma linguagem sacrificial. Mesmo os textos pascais, baseados nas cartas de Paulo, lidas de forma literal, falam de Jesus como cordeiro pascal que foi imolado e celebram a morte de Jesus como sacrifício oferecido a Deus para salvar a humanidade do inferno. Essa é a linguagem e o conteúdo da maioria dos textos e cânticos católicos e evangélicos de nossos livros litúrgicos. Uns cantam a cruz, na qual Cristo, por sua morte, nos salvou. Outros escrevem nas paredes: O sangue de Cristo tem poder.

Graças a Deus, em todo o mundo, cresce o número de grupos e comunidades que acreditam: não foi por sua morte e seu sangue que Cristo nos salvou. Foi por sua vida. Cremos na vida e não na morte. Não podemos acreditar em um Deus que precisa que seu filho morra para se reconciliar com a humanidade. Cremos na salvação, não como apenas libertação do pecado e sim como vida nova que, através do Espírito, o Cristo Ressuscitado nos dá, para renovar-nos interiormente e transformar as relações humanas e todo o universo.

No evangelho de João, fica claro que mesmo a Páscoa cristã pode ser celebrada de formas totalmente opostas. Em vários momentos, o evangelho alude à Pascoa e explica tratar-se da “Páscoa dos judeus” (Jo 2:13, 6:4, 11:55). Nesse caso, o termo judeus não significa raça nem população. Designa os chefes religiosos do templo que mantinham a religião como forma de dominação sobre o povo, a serviço do império romano. Até hoje, na Igreja Católica e em outras Igrejas, há ministros e grupos que celebram esse tipo de Páscoa, baseada em ritos, obrigações e preceitos a serem cumpridos No entanto, o mesmo 4º Evangelho fala de outro modo de celebrar a Páscoa. No capítulo 5, diz que Jesus, no lugar de subir ao templo para a festa, desce até o fosso onde há uma piscina na qual uma multidão de doentes das mais diferentes enfermidades jaz prostrada esperando um milagre. E ali, no sábado, dia em que era proibido qualquer atividade, Jesus cura um paralítico e manda que ele carregue sua cama até sua casa. No capítulo seguinte, está próxima a Páscoa e Jesus, no lugar de ir a Jerusalém, vai para o outro lado do lago (é simbólico ir para o outro lado) e ali junta uma multidão de pobres para a qual ele faz o sinal da partilha dos pães.

É em uma festa de Páscoa,  que Jesus denomina a sua hora (Jo 13, 1), que ele enfrenta pacificamente as autoridades religiosas e políticas e leva a sua profecia até o ponto de entregar a vida. Sofre o martírio e une a comunidade de fé em uma nova forma de celebrar a Páscoa do Senhor. Não mais como sacrifício (em sua ceia, não se fala em cordeiro pascal). A nova forma de viver a Páscoa é marcada pela partilha de vida, força nova de esperança e doação da energia divina do Espírito, para que toda justa insurreição que existir no mundo contra as estruturas iniquas, transforme-se em ressurreição (nova ou dupla insurreição). Assim, podemos afirmar como o apóstolo Paulo: “Se alguém é de Cristo, é criatura nova. Todas as coisas antigas já passaram. Agora, surgiu uma novidade que é total” (2 Cor 5, 17).

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