Carlos Frederico Schlaepfer
CEBI-RJ
Êx 24.1-11
Sl 116
1 Co 10.16-17
Mt 26.36-56
As leituras propostas para nossa reflexão, revelam um fio condutor profundamente unitário e libertador: a aliança selada no sangue, que encontra sua plenitude na entrega amorosa de Cristo. Do Sinai ao Getsêmani, contemplamos o mistério de um Deus que estabelece comunhão, não com um grupo privilegiado, mas com todo o povo, pessoas de diferentes histórias e condições, igualmente chamadas à dignidade e à participação.
Essa aliança não é pacto de dominação, mas compromisso de vida partilhada. O sangue, símbolo da vida na tradição bíblica, não legitima exclusões; ao contrário, proclama que toda vida é sagrada e merece ser cuidada. A comunhão que Deus inaugura rompe hierarquias que desumanizam e desafia estruturas que silenciam vozes, especialmente as que foram historicamente marginalizadas.
Do monte da aliança ao jardim da entrega, vemos um Deus que se aproxima, que escuta o clamor, que assume a vulnerabilidade humana. Em Cristo, a fidelidade não se expressa pela força, mas pelo amor que se doa. Essa trajetória ilumina nossa caminhada hoje: somos chamadas a viver uma fé que gera igualdade, promove justiça e constrói relações onde ninguém é invisível, ninguém é inferior, podendo experimentar a comunhão como espaço de liberdade e reconhecimento.
Neste horizonte de aliança libertadora, queremos agora aprofundar nossa reflexão à luz das leituras propostas. Ao lermos ou escutarmos esses textos, deixemo-nos abrir à Palavra que questiona estruturas injustas, cura memórias feridas e nos impulsiona a viver relações mais igualitárias, fraternas e fiéis ao projeto de Deus.
Ex 24,1-11: O sangue da Aliança no Sinai
Após a proclamação da Lei, Moisés ergue um altar ao pé do monte e oferece sacrifícios ao Senhor. O momento culminante ocorre quando ele asperge o sangue sobre o povo e proclama: “Este é o sangue da aliança que o Senhor fez convosco”. O sangue, na mentalidade bíblica, é símbolo da vida. Ao ser derramado e compartilhado entre altar (que representa Deus) e povo, estabelece-se uma comunhão vital entre ambas as partes.
A aspersão do sangue revela que a aliança não é mera formalidade religiosa, mas partilha de vida. Numa sociedade que frequentemente reduz a fé a sentimento privado ou a ética genérica e seletiva, o texto resgata a dimensão concreta e existencial da relação com Deus: trata-se de uma comunhão que envolve vida, compromisso e transformação.
Ainda no texto, podemos destacar o papel dos anciãos. Eles “viram o Deus de Israel” e participaram de uma refeição sagrada. A aliança culmina numa comunhão de mesa. Não se trata apenas de um contrato jurídico, mas de uma relação de intimidade. Comer diante de Deus significa partilhar sua presença. A aliança culmina em comunhão, não em medo; em proximidade, não em distância. A experiência de Deus conduz à partilha e à fraternidade.
O texto também sublinha o equilíbrio entre iniciativa divina e resposta humana. A aliança nasce da fidelidade de Deus, mas exige adesão livre: “Faremos tudo o que o Senhor disse”. Em tempos de relativização de compromissos duradouros, essa dinâmica recorda que a liberdade autêntica não é ausência de vínculos, mas capacidade de assumir responsabilidades.
Enfim, podemos concluir que Ex 24,1-11 nos oferece uma chave de espiritualidade bem atual: a fé bíblica não é apenas obediência normativa, mas comunhão viva, compromisso consciente e participação numa história de salvação que envolve Deus e o povo numa relação de amor fiel.
Sl 115/116: O cálice da salvação
O Salmo responsorial retoma o tema da gratidão e da fidelidade: “Elevarei o cálice da minha salvação, invocando o nome do Senhor”. O gesto de erguer o cálice expressa reconhecimento pelos benefícios recebidos e desejo de comunhão.
À luz do Novo Testamento, a imagem do “cálice da salvação” adquire uma densidade ainda maior. A tradição cristã reconhece nela uma antecipação simbólica do cálice eucarístico, onde a ação de graças se torna participação na redenção definitiva realizada por Cristo. O que no salmista é louvor pela libertação histórica torna-se, na fé cristã, comunhão no mistério pascal.
A afirmação “É preciosa aos olhos do Senhor a morte dos seus santos” também conserva enorme atualidade. Em tempos de banalização da vida, diante de inúmeros e escandalosos casos de feminicídio, bem como a indiferença diante do sofrimento, o salmo proclama que Deus não é distante nem insensível. Cada vida tem valor, cada dor é conhecida, cada fidelidade é guardada na memória divina. Essa certeza ilumina inclusive o drama do Jardim de Getsêmani, onde a entrega e o sofrimento assumem sentido dentro da confiança no Pai.
1Cor 10,16-17: O cálice da comunhão
Na Primeira Carta aos Coríntios, São Paulo aprofunda o significado do cálice: “O cálice de bênção que abençoamos não é comunhão com o sangue de Cristo? E o pão que partimos não é comunhão com o corpo de Cristo?”. Aqui, o símbolo torna-se realidade sacramental.
Se no Sinai o sangue dos novilhos selava externamente a aliança, agora é o próprio sangue de Cristo que inaugura a nova e eterna aliança. A passagem do símbolo à realidade não elimina o sinal, mas o plenifica. A Eucaristia não é simples memória psicológica de um evento passado, mas atualização sacramental do mistério pascal. O termo grego koinonia (comunhão) indica participação efetiva, partilha de vida, inserção numa relação que transforma.
Esse ensinamento mantém profunda atualidade. Em uma cultura marcada pelo individualismo religioso — onde a fé tende a ser vivida de modo privado — Paulo recorda que a comunhão com Cristo implica necessariamente comunhão entre os irmãos. “Porque há um só pão, nós, embora muitos, somos um só corpo.” A Eucaristia constrói a Igreja como corpo unido, superando barreiras sociais, culturais e econômicas que já dividiam a comunidade de Corinto e continuam a dividir a sociedade atual.
O texto contém um apelo exigente: não é coerente participar do mesmo pão e alimentar divisões, ressentimentos ou injustiças. A comunhão sacramental exige coerência existencial. A unidade não é mero ideal espiritual, mas consequência concreta da participação no único Corpo de Cristo. A Eucaristia é fonte e critério de unidade, lugar onde a aliança nova se torna experiência viva e onde a fé deixa de ser teoria para tornar-se comunhão real com Cristo e com os irmãos.
Mt 26,36-56: O sangue da nova Aliança no Getsêmani
No Evangelho de Mateus 26,36-56, somos introduzidos no coração dramático da fé cristã: o Getsêmani. Após a ceia, Jesus dirige-se ao Monte das Oliveiras e ali revela, com impressionante humanidade, a profundidade de sua angústia. O “cálice”, que em outros contextos bíblicos podia significar bênção e salvação, torna-se agora símbolo do sofrimento e da paixão iminente.
Essa passagem tem forte ressonância atual. Num mundo que evita a dor a qualquer custo e que muitas vezes absolutiza o próprio desejo, a oração de Jesus — “Não se faça como eu quero, mas como tu queres” — apresenta um modelo de liberdade madura: não a imposição da própria vontade, mas a confiança radical no Pai mesmo na noite da prova. Se no Sinai o povo prometera fidelidade, aqui é o Filho que vive essa fidelidade de modo perfeito. Ele encarna o verdadeiro Israel obediente.
O contraste entre a violência humana e a mansidão divina também interpela profundamente a realidade contemporânea. Diante da prisão, Pedro reage com a espada; Jesus, porém, recusa a lógica da força. A nova aliança não nasce da imposição, mas da entrega. Em tempos marcados por polarizações, conflitos e discursos agressivos, o Getsêmani revela que a transformação do mundo passa pela via da fidelidade, do perdão e da confiança em Deus.
Mateus 26, 36-56 pode ser lido como contraponto teológico ao Êxodo 24,1-11. No Sinai, a aliança é selada com sangue de animais; no Getsêmani, prepara-se o dom do próprio sangue do Filho. No Sinai, o povo permanece à distância; aqui, o Filho mergulha na profundidade da angústia humana. Deus não permanece no alto do monte, mas desce à experiência mais obscura do sofrimento.
Assim, o Getsêmani permanece atual como referência de oração e de fidelidade. Ele ensina que a fé não elimina a angústia, mas a atravessa; que a obediência não é submissão cega, mas confiança amorosa; e que a nova aliança se funda não na força, mas no amor que se entrega até o fim.
No Getsêmani, Jesus assume a angústia humana até o fundo. Ele não foge do sofrimento, mas o atravessa com confiança. Ali se revela um Deus solidário com todas as experiências humanas, especialmente com as que foram historicamente invisibilizadas ou oprimidas. A nova aliança não é fundada na força, mas na entrega amorosa. Não é aliança de dominação, mas de serviço.


