Prezadas irmãs em Cristo, saúdo cada uma de vocês com a paz que excede todo entendimento e conhecimento.
Aprendemos que o Evangelho é uma boa notícia, gostaríamos de acordar e só respirar o Evangelho da nossa vida que acontece todo dia. Porém, não vos trago notícias muito boas, o nosso evangelho envelheceu, nossas vestes foram rasgadas, as folhas amareladas e nossos corpos dilacerados pelo martelo do patriarcado operando cotidianamente contra nós mulheres, crianças e homens. A violência grita nas ruas: safada! Vagabunda! Não merecem viver!
As crianças choram as ausências dos seios de suas mães. As mães lamentam suas filhas violadas
As nossas anciãs entram no mundo do esquecimento, porque as memórias doloridas são por demais doídas para serem lembradas. O presente se mistura com o passado nos olhos daquelas que já viram, ouviram e sofreram todas as violências. Suas rugas e seus cabelos brancos denunciam as marcas das dores sofridas e da sabedoria adquirida.
Irmãs queridas, não vos trago boas novas. Nossa Mãe Gaia está com febre e sofre com dores de parto até agora, nossos rios estão minguando e suas veias se afinam dia a dia, seus leitos adoecidos de entulhos e lixos que se acumulam no horizonte. Para onde olhamos, nosso horizonte é um mar de soja e milho, a monocultura agrotóxica que nos mata cotidianamente.
São tantos muros, fronteiras e separações que nosso Planeta treme ao som de bombas atômicas e misseis que cortam os ares, os mares…tudo gira em torno do lucro e poder, enquanto milhões choram, poucos se fartam matando nossas matas, nossas roças, nosso verde. O céu por aqui, ficou cinza e o ar anda carregado de veneno. Nossa água que era boa de beber tornou-se insalubre, estamos sendo contaminadas por dentro e por fora e o pior veneno é a fome.
Sim, minhas irmãs, por aqui muita fome, muita dor de barriga. Gostaria de trazer uma boa notícia, um Evangelho da vida, mas o mundo anda estranho e cada vez mais violento. Enquanto milhões são exilados e amedrontados pelas bombas, poucos ainda tripudiam sobre os corpos de crianças famintas.
Talvez uma boa notícia, digo talvez, porque o tempo é incerto, mas a boa noticia é que a despeito de todo mal que nos rodeia, estamos vivas e brilhantes como diamante sendo lapidado a cada dia.
Acordamos sempre mais forte para a luta, mesmo que o sono esteja faltando, as forças fraquejando, os olhos lacrimejando, vamos à luta, estamos na luta e vamos pra Vida.
Devo admoestar que sejamos unidas, mesmo que diferentes e diversas. Que sejamos irmãs na vida e na morte e jamais fiquemos umas contra as outras. Exorto a cada uma que não haja julgamentos entre nós, porque já somos demasiadamente julgadas pelo patriarcado. Vamos acolher as falhas e limitações umas das outras e acima de tudo, respeitar as diferenças e limites de cada uma.
De suma importância que seguremos firmes uma na mão da outra, que sejamos aquela que levanta a irmã com elogios e afirmações positivas. Nunca seja aquela que aponta os defeitos, mas sim aquela que exalta as qualidades da companheira.
Minha palavra de despedida desta pequena carta, é que continuem firmes e constantes no nosso propósito maior que é derrubar as muralhas do patriarcado e proclamar a plenos pulmões a paz e a justiça para toda a humanidade.
Não desanimem diante do Estado Opressor, não se apequenem diante do Capital, não se curvem ao patriarcado, levantem suas vozes, acendam suas fogueiras, alimentem seus corpos, se preparem para a batalha, porque somos muitas, somos metade desta humanidade, somos mães da outra metade. Somos a dona da vida, nossos corpos geram outros corpos, nossas mãos que amparam a Terra. Somos grandes, somos como águas que quanto mais se juntam, mas avassaladoras se tornam.
Nunca esqueçam do seu poder de Ser, Ter e Fazer!
Até breve, até a próxima trincheira, nos encontramos na Marcha da Vida, na jornada da existência.
Com amor e reverência
Pra. Lilith



