Alex Sandro
CEBI-MT
| Domingo II da Quaresma | Lecionário Comum Gn 12.1-4a Sl 121 Rm 4.1-5, 13-17 Jo 3.1-17 ou Mt 17.1-9 |
Lecionário Católico Gn 12,1-4a Sl 32(33),4-5.18-19.20.22 (R. cf. 22) 2Tm 1,8b-10 Mt 17,1-9 |
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A transfiguração de Jesus é um marco importante de sua passagem aqui na terra. O episódio é narrado pelos três Evangelhos (Mt 17,1-9; Mc 9,2-13; Lc 9,28-36), o que explica sua relevância para a vida das comunidades cristãs desde então. No texto, há a confirmação de Jesus como o Filho amado de Deus: seu rosto se transforma e fica “resplandecente como o sol”, e ouve-se a voz que diz: “Este é o meu Filho amado, em quem me comprazo. Escutai-o”.
Observa-se que Jesus sobe a uma montanha com três discípulos — Pedro, Tiago e João —, ou seja, Ele escolhe os mais próximos. No entanto, ao observarmos trechos anteriores, percebemos que são também aqueles que mais demonstram dúvidas quanto aos caminhos adotados por Jesus, especialmente sobre o seu Reino. Pedro mostra-se resistente e fechado; foi o único dos Doze a quem Jesus chamou diretamente de “Satanás”, por se colocar como pedra em seu caminho (cf. Mt 16,23). Tiago e João, além de ambiciosos — disputando os primeiros lugares (cf. Mc 10,35-40) —, tinham temperamento explosivo, a ponto de serem chamados de “filhos do trovão” (cf. Mc 3,17). Assim, compreende-se a dificuldade deles em aceitar a mensagem do Messias e suas escolhas para cumprir a missão que o Pai lhe confiara.
O local escolhido também é significativo, pois a montanha simboliza, na tradição bíblica, o lugar do encontro com Deus. A palavra “transfiguração” significa transformar ou mudar. O texto, portanto, apresenta a experiência de uma transformação de Jesus diante dos discípulos, como sinal de que aquilo que duvidavam ou não compreendiam tornava-se verdade naquele momento. Aprofundando a reflexão, muitos estudiosos afirmam que a redação desse relato ocorreu após a ressurreição. Isso nos leva a considerar a possibilidade de que os evangelistas tenham iluminado o episódio com a experiência pascal, uma vez que a luz, o brilho e a brancura são sinais do novo: à medida que o Reino de Deus se instaura, toda a criação se renova.
Na montanha, Jesus encontra Moisés e Elias, que representam a Lei e os Profetas — figuras centrais do Antigo Testamento e fundamentos da fé judaica —, agora plenamente realizados em Cristo. Dessa forma, evidencia-se que Jesus é o Messias em quem se cumpre a nova Aliança. A proposta dos discípulos de construírem três tendas, uma para cada um, pode ser compreendida como uma tentativa de prolongar aquele momento glorioso e, talvez, retardar a paixão que estava por vir — algo que Jesus já anunciara, mas que ainda era difícil de aceitar. Alguns estudos sugerem que Jesus os levou intencionalmente para que tomassem consciência de sua identidade e missão, fortalecendo sua fé e preparando-os para ajudar os demais discípulos a crer nas promessas e no cumprimento do que havia sido anunciado, revelando que Ele reinará em sua glória.
A manifestação de Deus Pai durante a transfiguração, ao afirmar que Jesus é seu Filho amado, representa não apenas uma confirmação de sua identidade, mas também um chamado a todos para colocar em prática seus ensinamentos. Jesus torna-se, assim, direção de vida para a comunidade. É necessário colocá-lo no centro de tudo e fazer d’Ele nosso porto seguro em cada decisão e nas ações vividas em comunidade.
A cena causa medo nos discípulos, mas Jesus prontamente os acalma. Quando eles se dão conta, já não veem mais ninguém, a não ser o próprio Jesus. Ao descerem da montanha, Ele pede que não comentem o ocorrido por enquanto, pois era necessário que primeiro passasse por toda a paixão, morte e ressurreição, para que, somente depois, pudessem testemunhar o que haviam visto.
Por fim, o texto é provocativo no que tange à nossa vivência enquanto comunidade. Ele reforça a importância de Cristo como centro de nossa vida, bem como espelho para tudo o que formos realizar, pensar e planejar. Somos comunidade que emana desse amor e desse exemplo de vida; acreditar que, com fé, tudo podemos é fundamental. Jesus veio para transformar, e essa transformação deve ser aquilo que nos move.
Não se trata apenas de um convite, pois é comprovada a verdade e a Boa Nova que Ele nos trouxe.
Para além de crer, nós, enquanto propagadores dessa Boa Nova, precisamos entender que não basta simplesmente acreditar em Jesus dentro dos templos. É necessário, junto com Ele, romper barreiras e ir ao encontro das pessoas que estão à margem da sociedade, lutar contra os opressores e nos envolver de corpo e alma na defesa da vida.
Ser cristão não é — e não pode ser — apenas um título; precisa ser movimento, atitude que ultrapassa e transborda a realidade. Precisamos, hoje e sempre, ser transformadores e agentes de transformação da realidade.


