Sebastião Santana da Silva[1]
(Sebastião Catequista)
Olá, sou Sebastião Catequista!
Moro em Caruaru, PE
Sou negro, faço parte da coordenação do Cebi-PE.
Em minha comunidade, na Paróquia Santuário Nossa Senhora Aparecido, me dedico a formação de jovens, homens e mulheres na catequese. Leigo, sou praticante da tradição da Oração de Jesus – espiritualidade concernente aos Padres do Deserto.
Nessa semana em que fazemos memória de Jesus através dos mistérios pascais, somos convidados a escutar e meditar a palavra de Jo 13,21-33.36-38.
O texto (Jo 13,21-33.36-38)
21Depois de dizer essas coisas, Jesus ficou profundamente comovido e disse com toda a clareza: “Eu garanto que um de vocês vai me trair.” 22Desconcertados, os discípulos olhavam uns para os outros, pois não sabiam de quem Jesus estava falando. 23Um deles, aquele que Jesus amava, estava à mesa ao lado de Jesus. 24Simão Pedro fez um sinal para que ele procurasse saber de quem Jesus estava falando. 25Então o discípulo se inclinou sobre o peito de Jesus e perguntou: “Senhor, de quem estás falando?” 26Jesus respondeu: “É aquele a quem vou dar o pedaço de pão que estou umedecendo no molho.” Então Jesus pegou um pedaço de pão, o molhou e o deu para Judas Iscariotes, filho de Simão. 27Nesse momento, depois do pão, Satanás entrou em Judas. Então Jesus lhe disse: “O que você pretende fazer, faça logo.” 28Ninguém aí presente compreendeu por que Jesus disse isso. 29Como Judas era o responsável pela bolsa comum, alguns discípulos pensaram que Jesus o tinha mandado comprar o necessário para a festa ou dar alguma coisa aos pobres. 30Judas pegou o pedaço de pão e saiu imediatamente. Era noite.31Quando Judas Iscariotes saiu, Jesus disse: “Agora o Filho do Homem foi glorificado, e também Deus foi glorificado nele. 32Deus o glorificará em si mesmo e o glorificará logo.33Filhinhos: vou ficar com vocês só mais um pouco. Vocês vão me procurar, e eu digo agora a vocês o que eu já disse aos judeus: para onde eu vou, vocês não podem ir. 36Simão Pedro perguntou: “Senhor, para onde vais?” Jesus respondeu: “Para onde eu vou, você não pode me seguir agora. Você me seguirá mais tarde.” 37Pedro disse: “Senhor, por que não posso seguir-te agora? Eu daria a minha vida por ti.” 38Jesus respondeu: “Você daria a vida por mim? Eu lhe garanto: antes que o galo cante, você me negará três vezes.”
Meditação
O texto nos fala da última ceia. É um texto conhecido. A perícope nos põe diante do diálogo de Jesus com seus discípulos. Jesus, Pedro, o Discípulo Amado, Judas… o tom da conversa é desconcertante: Jesus será traído. Especulação nasce: Quem será o traidor? Há uma pista, mas em meio a uma ceia tensa, quem ligou para isso? O diálogo continua e Pedro é a “bola da vez” como se diz, aqui no Brasil. Ele se coloca com defensor de Jesus, mas o Senhor revela-lhe sua fraqueza e impetuosidade. Mas, há uma personagem desconhecida nessa cena. Uma leitura mais atenta percebe que apesar de mencionado, não se diz o nome, apenas que é “o discípulo amado”. Isto sugere intimidade, confiança, está um passo a mais que os outros discípulos. O que faz ali? Quem é essa pessoa? Que papel assume nessa narrativa?
O discípulo amado na tradição eclesial foi identificado como sendo João, o autor do quarto evangelho. Há quem acredite que seja uma outra personagem, inclusive feminina, mas o texto não nos permite tirar tais conclusões. O fato é que, sua menção aí é proposital. Isso provavelmente indique que, a comunidade do autor do quarto evangelho esteja querendo dizer ao leitor de sua importância na vida do Mestre, sobretudo, nesse momento tenso, constrangedor, de inquietação.
O fato é que, em véspera de sua paixão, Jesus tem medo, sofre as consequências de sua fidelidade ao Pai, ao Reino, aos Pobres excluídos, marginalizados, sofridos e oprimidos. Nem perante seus amigos se sente seguro por hora, mas pode contar com a presença do discípulo amado. Uma presença que em meio a tantas presenças (outros discípulos) lhe é humanamente “uma presença” ainda que momentânea.
Ao olhar e meditar essa cena, voltamos nosso olhar para os que hoje estão na dor após perder seu teto, sua identidade, sua vida. Da Venezuela a Ucrânia, da Faixa de Gaza ao Irã, dos Moradores de Rua aos Sem Teto de nosso país, quantas vítimas! Das vítimas por feminicídios e dos que lutam em diversas lutas pela justiça, pela qualidade de vida e inclusão! Todas e todos são movidos por uma esperança que têm do seu lado, um ‘discípulo amado’. Deus age de modo estranho, está tão próximo e não o vemos, age conosco e não atinamos… Jesus sempre teve um amor incondicional pelo Pai e sabia que, quando mais precisasse, Ele o socorreria. O discípulo amado talvez lhe lembrasse isso. Quando todos nos abandonam há sempre o amor ao nosso lado que nos dá resistência e enfrentamento.
Nesse evangelho de hoje, uma certeza fica para todos nós: é quando estamos na pior das situações, quando todos nos abandonam, quando o futuro é incerto, quando o medo nos apavora, quando os amigos nos deixam ou nos trai, haverá sempre “alguém” que nos ama por inteiro, que está ali do nosso lado e por isso, não desistimos nunca. Cada um de nós tem seu calvário, sua cruz, e o amado. Por amor, a vida é mais forte que a morte (cf. Ct 8,6).
Como esse evangelho ajuda-nos a criar relações mais fraternas? Como a presença do discípulo amado no texto fortalece a ideia de ânimo, força, coragem e lucidez diante das injustiças e ameaças de morte? Em que a paixão de Jesus fortalece a paixão dos que estão sofrendo com as guerras, sem moradia, sem trabalho e sem comida?
Oremos
Senhor, vós que fostes traído, abandonado, humilhado, pregado numa cruz, olhai para os que hoje sofrem com as guerras, com a falta de moradia, com a fome, sem teto e sem família. Daí pelas mãos solidárias de muitos a coragem da indignação, a proclamação da profecia da vida, evangelho de justiça, e por meio de teu Espirito, faze-nos novas criaturas do Bem-Viver, homens e mulheres de uma nova sociedade, antiga lembrança que nos acalenta de um novo céus e nova terra, amém.
[1] Sebastião Catequista é leigo, membro do Cebi PE, do CONIC Agreste e atua na catequese e nos movimentos populares.


