Segunda-Feira Santa
Is 42,1-7
Sl 26(27),1.2.3.13-14 (R. 1a)
Jo 12,1-11
João Ferreira Santiago, CEBI-PR
A liturgia desta segunda feira santa é um convite à profundidade do ser e ao âmago das palavras. Isaías desenvolve uma teologia poética feita de metáforas que nos permite transitar entre a evidência e o mistério sem deixar razões para se falar em desatino. O servo é ao mesmo tempo o eleito e traz sobre si o Espírito e ainda julgará as nações; o povo massacrado e vitimado por Babilônia, embora apareça fraco como um caniço rachado, não será destruído e ainda carrega uma mecha que fumega, ou seja, será a luz que iluminará o caminho das gerações que virão. A força misteriosa de Deus se expressa na evidência da fraqueza do fraco. E em todos os lugares e tempos será assim, é o que diz a expectativa das ilhas sobre as leis. O Deus que tudo moldou, deu forma, criou, é o Deus da luz e da justiça. Aquele que liberta, cura os cegos é o Deus que faz Aliança com o povo é a Luz das nações.
Salmodiando o caniço que chamega vem o convite à confiança. Confia no Senhor e não temas a mais ninguém. No lugar do choro e dos ais, um salmo é entoado ao Senhor, que nunca nos deixa, que jamais nos abandona. Com quem, além do Senhor, o povo pode contar? A quem devemos temer se contamos com o Senhor diante de nós? “Se um exército vier acampar contra mim, meu coração não teme. Mesmo que a batalha seja deflagrada, conservo a confiança”. (v.3). Quantas famílias vivem a todo momento realidade semelhante frente a um despejo; quantas mulheres vivem todos os dias em nosso país, situação semelhante, por causa da epidemia de feminicídio fruto da misoginia naturalizada nas ruas, nas casas e não raro, nos tribunais? Com quem mais podem contar, senão com o Senhor? A quem mais podem recorrer, senão Àquele que ama e é amor? “Senhor, escuta meu grito de socorro! Tem piedade de mim, responde-me! (v. 7).
O Evangelho desta segunda feira santa é de São João e nos insere no evidente e misterioso enredo da fé e da salvação. A começar pela data, hoje, estamos a seis dias da Páscoa. “Seis dias antes da Páscoa, Jesus chegou a Betânia, onde se achava Lázaro, que ele ressuscitara dentre os mortos”. (v. 1). Betânia, pode significar “casa dos fígados” ou “casa das tâmaras verdes”. Mas também “casa da aflição” e “casa da pobreza”; ou ainda, “casa dos pobres”. Ora, imaginemos que a nossa Betânia seja o nosso coração. Como se encontra e a que podemos comparar a nossa Betânia, findando esta Quaresma, caríssimas e caríssimos? Sobretudo, o que aconteceu de conversão, de unção, de ressurreição, em nossa casa? Na realidade do contexto bíblico do Evangelho de João, Betânia era uma pequena Aldeia, onde viviam Marta, Maria e Lázaro, amigos de Jesus. Onde vivem hoje os amigos de Jesus? Podemos dizer para efeito de esclarecimento que amigo de Jesus é quem faz a vontade do Pai. Ou dito de outra forma, amigo de Jesus é quem testemunha a sua ação salvífica e reconhece em Jesus a presença de Deus. A lição dada por João é contundente: “Pobres, vós os tendes sempre convosco; mas a mim, não me tendes para sempre”. (v. 8). Nesta semana santa nós teremos a oportunidade de refletir sobre o núcleo da mensagem deste Evangelho que fala sobre o testemunho. Qual é a consequência para quem testemunha a presença do amor de Deus em Jesus de Nazaré? Lázaro pode nos responder. “(…) Então, os sumo sacerdotes decidiram matar também Lázaro, visto que era por causa dele que um grande número de judeus os deixavam e acreditam em Jesus”. (v. 11). Por fim, somando-se aos que querem matar Lázaro, estão aqueles que preferem mover multidões e vender perfumes caros em forma de indulgências e milagres. Que a nossa Betânia seja lugar de descanso e de amizades como a amizade que havia entre Jesus, Lázaro, Marta e Maria.
João Ferreira Santiago
Teólogo, Poeta e Militante.
Conselheiro Nacional do CEBI e
Membro da coordenação do CEBI-PR.


