Rei Popular, Povo que clama: a entrada profética de Jesus de Nazaré em Jerusalém

Domingo de Ramos 

Lecionário Comum
Sl 118.1-2, 19-29
Is 50.4-9a
Sl 31.9-16
Fp 2.5-11
Mt 21.1-11 e (Mt 26.14-27.66 ou Mt 27.11-26)
Lecionário Católico
Is 50,4-7
Sl 21(22),8-9.17-18a.19-20.23-24 (R. 2a)
Fl 2,6-11
Mt 21,1-11/Mt 26,14-27,66 ou mais breve 26,11-54

Ronaldo Sales – CEBI Borborema/PB

O relato da entrada de Jesus em Jerusalém (cf. Mt 21,1-11; Mc 11,1-10; Lc 19,28-40; Jo 12,12-19) situa-se no ponto de virada da narrativa evangélica. Jesus sobe para a cidade de Jerusalém no contexto da Páscoa, época de forte expectativa messiânica e tensão social sob o domínio romano. O episódio é construído pelos evangelistas como um gesto profético encenado, inspirado nas tradições do Antigo Testamento e carregado de significado simbólico.

Jesus chega ao Monte das Oliveiras, que fica a leste de Jerusalém. No Antigo Testamento, esse monte aparecia em duas situações importantes.No livro de Ezequiel (11,23), a glória de Deus se afasta do templo em direção a esse monte, como um sinal de julgamento contra os líderes corruptos. No livro de Zacarias (14,4), o mesmo monte é o lugar onde o Messias guerreiro viria triunfar no “dia do Senhor”. Ao vir do Monte das Oliveiras, Jesus já estava realizando um gesto carregado de significado.

Jesus envia dois discípulos a um povoado próximo (Betfagé ou Betânia) para buscar um jumento que nunca fora montado. Se alguém questionar, devem responder: “O Senhor precisa dele”. Esse detalhe mostra que a chegada do Reino de Deus conta com a colaboração das pessoas.

Enquanto os romanos entravam nas cidades conquistadas com cavalos e carros de guerra – símbolos de dominação militar –, Jesus escolhe um jumento, animal humilde associado à paz e à realeza servidora. A ordem de desatar a jumenta e seu jumentinho remete às palavras com as quais Jacó abençoou seus doze filhos. Nessa bênção, o patriarca profetizou que não seria “afastado de Judá o cetro” até que chegasse “aquele ao qual pertence e ao qual a obediência dos povos é devida” (Gn 49,10). A seguir, Jacó especificou a característica que revelaria o anunciado: ele teria “amarrado sua jumenta à videira, e o jumentinho à videira melhor” (Gn 49,11). O convite de Jesus para desamarrar a jumenta indica que em sua pessoa se cumpriu essa profecia.

No tempo das tribos, os líderes que libertavam o povo montavam jumentos (Jz 5,10; 10,14). Segundo o profeta Zacarias (9,9), o jumento é a montaria de um rei pobre, de origem popular, que chega para libertar o povo – contrastando com a expectativa de um rei nobre e guerreiro que entra triunfante em um cavalo após uma conquista militar. Com Jesus, volta o ideal libertador e igualitário das tribos: ele é o líder vindo do povo e aclamado pelo povo para libertá-los dos opressores, para que vivam segundo a justiça e o direito.

O povo exclama: “Bendito o Rei que vem em nome do Senhor! Paz no céu e glória nas alturas!”. Essa aclamação ecoa o Salmo 118,26 e reconhece Jesus como o Messias prometido que vem em nome do Deus libertador. O povo entende bem isso: “Hosana! Finalmente chegou o tempo de celebrar a liberdade e a vida. Agora é o tempo da justiça e os poderosos que se cuidem”.

Os que estendem os mantos no chão e agitam ramos são, em sua maioria, pobres e peregrinos. Eles não tinham muitos bens, mas ofereceram o pouco que possuíam. Esse gesto de estender os mantos lembrava a aclamação de novos reis no passado (2Rs 9,13). Era uma forma de declarar lealdade a Jesus como rei.

Também acenavam com os ramos que haviam cortado das árvores para fazer uma procissão em celebração a ele. Os ramos evocam a festa das Cabanas, como espera da manifestação do libertador de Israel (Lv 23,40). Para essa festa, confeccionavam-se ramalhetes feitos com palmas, murta e salgueiro, que se agitavam no pátio do templo ao grito de “Hosana”, que, em hebraico, significa “Salva-nos, pois!” (Sl 118,25), expressão de júbilo para o esperado Messias.

Duzentos anos antes, quando Judas Macabeu libertou o povo de opressores, ele foi recebido em Jerusalém com ramos de palmeira (2Mc 10,7). Depois disso, sua família governou por mais de cem anos. Assim, ao acenar ramos, o povo estava dizendo: Jesus também é um libertador.

Chamar Jesus de “Filho de Davi” era o título mais claro que podiam dar. Davi havia feito de Jerusalém sua capital quase mil anos antes, e o povo sonhava com um novo rei como Davi que os livrasse da opressão. Para eles, , com certeza, aquele era o momento tão esperado!

Quando Jesus entrou em Jerusalém, a cidade ficou agitada, perguntando: “quem é esse?” (Mt 21,10). Na versão do evangelho da comunidade lucana (Lc 19,39-40), alguns fariseus, incomodados, pedem que Jesus repreenda os discípulos. Tentam reprimir a voz do povo. Os fariseus, intérpretes das escrituras e da “verdadeira” devoção religiosa, querem calar a multidão. Talvez acreditem que a salvação vem apenas pela obediência a regras morais e religiosas: bastam orações, jejuns, dízimo, pureza e obediência às autoridades? Será que o anúncio da chegada aqui na terra do Reino de Deus é perigoso para elas?

A resposta de Jesus é poderosa: “Se eles se calarem, as pedras clamarão”. Essa resposta faz referência ao texto do profeta Habacuc (2,11), segundo o qual a denúncia das injustiças será gritada até pelas pedras das paredes e pela madeira das vigas da casa do opressor. Mesmo que tentem reprimir o clamor do povo, a denúncia da injustiça e o anúncio de que a justiça está às portas da cidade não poderão ser silenciados – nem pela pedra com a qual fecharão o túmulo de Jesus.

Jesus é reconhecido como profeta, aquele que denuncia as injustiças e anuncia a justiça de Deus. Assumindo o papel de profeta tradicional de Israel, pronunciou oráculos e parábolas de julgamento iminente de Deus contra as instituições governantes da Palestina judaica, o Templo e o sumo sacerdócio. Jerusalém, cidade assassina dos profetas (Mt 23,37), era a sede do poder político, econômico, ideológico e religioso. O Templo de Jerusalém era a base de todo o sistema político-econômico-religioso. O Templo, portanto, era simultaneamente: palácio, tribunal, banco e fortaleza militar.

Após sua entrada apoteótica em Jerusalém, recebido pelo povo como um rei-profeta popular, Jesus teria também realizado vários gestos proféticos em oposição ao Templo, protestando simbolicamente no pátio externo dos gentios contra a manutenção do culto corrupto de uma elite pontífice ávida de lucros: purificação do Templo, bloqueio das oferendas, denúncia da exploração da viúva pelo tesouro do Templo, recusa de pagar impostos a César, anúncio da destruição do Templo. Esse confronto provocará a reação das autoridades político-religiosas de Jerusalém, que buscarão uma forma de prender e executar Jesus de Nazaré.

Jesus será preso e denunciado por iniciativa da aristocracia sacerdotal (as autoridades locais eram responsáveis pela prisão de encrenqueiros) e executado na cruz pelos romanos como um líder popular politicamente perigoso. As acusações principais levantadas contra Jesus eram que ele tinha ameaçado destruir o Templo, afirmado que era um rei messiânico e atiçado o povo a não prestar tributo a César.

A entrada de Jesus em Jerusalém não é apenas uma cena bonita para repetirmos com ramos nas mãos. É um gesto profético que nos interpela até hoje. Jesus não monta um cavalo de guerra, mas um jumento – e com isso nos ensina que o Reino de Deus não se impõe pela força, mas pelo serviço e pela justiça compartilhada. Ele vem como rei servidor, aclamado pelos pobres, e entra na cidade que mata os profetas para denunciar tudo o que oprime a vida do povo.

Nas comunidades da América Latina e em tantas partes do mundo, esse mesmo Jesus continua entrando em nossas cidades, vilas e periferias. Ele entra onde há gente que luta por terra, teto, trabalho, dignidade e liberdade. Ele entra onde os poderosos tentam calar a voz dos que clamam por justiça. E continua dizendo: se tentarem calar o povo, as pedras clamarão.

A entrada de Jesus em Jerusalém nos convida a não separar a fé do compromisso histórico. Quem acolhe Jesus como Messias é chamado a estar ao lado dos que estendem os mantos – mesmo quando só têm um manto – e a agitar ramos de esperança, anunciando que outro mundo é possível. As comunidades de fé são chamadas a ser, hoje, esse “jumentinho” que o Senhor precisa: instrumentos humildes, mas disponíveis, para a sua missão libertadora.

Que a Semana Santa nos encontre com os olhos abertos para ver onde Jesus continua entrando, com os ouvidos atentos para ouvir o clamor do povo que não se cala e com os pés dispostos a seguir o Caminho que passa pela cruz, mas que não termina nela. Pois o mesmo Jesus que entrou humilde em Jerusalém foi levantado na cruz e, ressuscitado, permanece vivo na luta do seu povo e na construção do seu Reino.

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