Quem vai ao poço ao meio dia?

Domingo III da Quaresma

Lecionário Comum
Êx 17.1-7
Sl 95
Rm 5.1-11
Jo 4.5-42
Lecionário Católico
Ex 17,3-7
Sl 94(95),1-2.6-7.8-9 (R. 8)
Rm 5,1-2.5-8
Jo 4,5-42 ou mais breve 4,5-15.19b-26.39a.40-42

Eu sou Michelli, do CEBI Mato Grosso do Sul, evangélica de confissão batista.
E hoje eu convido vocês a caminharem por uma história que começa com um deslocamento.

João 4 nos conta que, quando Jesus percebeu que estavam comparando seu ministério com o de João — quem fazia mais discípulos, quem batizava mais — ele deixou a Judeia. Ele não entrou na disputa. Ele não transformou fé em competição.

Ele mudou de território.

Era preciso passar por Samaria.

Samaria não era apenas um lugar no mapa. Era um território desacreditado, acusado de fé misturada, considerado espiritualmente suspeito. Era o chão que se evitava para preservar a própria identidade.

Ao atravessar a Samaria, Jesus senta-se à beira de um poço. O poço de Sicar, próximo ao monte Gerizim — centro do culto samaritano, considerado ilegítimo pelos judeus de Jerusalém. Não era o lugar “certo” da fé oficial. Era parte de um território visto como misturado, teologicamente suspeito, religiosamente desacreditado.

E é justamente ali — nesse território considerado inadequado pelo discurso dominante — que Deus escolhe se revelar. O que o centro chamava de erro torna-se cenário de verdade. O que era visto como desvio torna-se caminho.

O poço é, portanto, lugar de encontro.
Não é templo.
Não é palácio.
É espaço cotidiano. Espaço de sobrevivência. Espaço de mulheres.
O poço não é lugar de domínio; é lugar de dependência.

É por volta da hora sexta.
Meio-dia. Jesus está cansado, com sede, vulnerável.

Meio-dia.
O horário em que nenhuma mulher “respeitável” iria ao poço.
As mulheres iam cedo, em grupo.
Meio-dia denuncia solidão, desvio, marginalização.

Não sabemos o seu nome.
Ela é mulher.
Ela é samaritana.
É assim que a sociedade a vê.
Dois marcadores de exclusão:
gênero e etnia.

“Dá-me de beber.”

Um homem judeu pede água a uma mulher samaritana. Ele se coloca em posição de dependência. Ele não tem vasilha. O cântaro está nas mãos dela.

O cântaro é mais que objeto – é trabalho, é peso, é rotina, é sobrevivência.

Quando Jesus se senta ali, ele não está apenas quebrando uma regra religiosa.
Ele está interrompendo uma lógica que decide quais corpos importam e quais vozes podem falar de Deus.

Com Jesus, um outro modelo de masculinidade é possível.
Não a masculinidade que controla e performa autossuficiência.
Mas a que reconhece cansaço.
O Messias aparece vulnerável.

“Como tu, sendo judeu, pedes de beber a mim, que sou samaritana?”

Ela conhece a estrutura.
Ela conhece os interditos.

E então Jesus responde: “Se conhecesses o dom de Deus e quem é que te diz: ‘Dá-me de beber’, tu é que lhe pedirias, e ele te daria água viva.”

Ela ainda não entende.

“Senhor, nem sequer tens uma vasilha e o poço é profundo; de onde, pois, tiras essa água viva? És, porventura, maior que o nosso pai Jacó?”

Ela fala da realidade concreta.
O poço é profundo.
Ele não tem vasilha.

Ela invoca a memória coletiva.
O poço foi herança. Foi sustento. Foi tradição.
Jacó deu aquele poço ao povo.
Era identidade.

Não é uma pergunta abstrata.
É uma pergunta política.

Ela quer saber se aquele novo discurso sustenta a vida mais do que os antigos.

O poço de Jacó foi necessário um dia.
Sustentou gerações.
Mas exige retorno constante.
Esforço repetido.
Carga diária — quase sempre feminina.

E hoje, quantos discursos continuam prometendo matar a sede e não matam?
Prometem família, fé, ordem, masculinidade forte.
Mas entregam controle, culpa e violência.

São águas que não libertam.
Mantêm as mulheres voltando ao poço — mais cansadas, mais vigiadas, mais expostas à morte simbólica e real.

E Jesus responde: “Aquele que bebe desta água terá sede novamente; mas quem beber da água que eu lhe darei nunca mais terá sede.”

Jesus não despreza o poço. Ele revela o limite.

Aquela água mata a sede por algumas horas. Depois, é preciso voltar – voltar amanhã, voltar sozinha, voltar ao meio-dia, voltar ao peso do cântaro. Quando Jesus diz que essa água não basta, ele denuncia sistemas que produzem sede em vez de vida.

“Senhor, dá-me dessa água, para que eu não tenha mais sede, nem tenha de vir mais aqui para tirá-la.”

Ela quer descanso.
Quer interromper o ciclo da exclusão.
Quer não carregar o peso todos os dias.

“Vai, chama teu marido.”

Não é acusação moral. É exposição da estrutura. Ter tido cinco maridos não é promiscuidade. É vulnerabilidade. Mulheres não herdavam terras, não tinham renda própria, sobreviviam como podiam.

O Messias se revela a uma mulher, samaritana.
Gênero e etnia.

Antes, marcas de exclusão.
Agora, lugar da revelação.

Antes, tradição usada para manter hierarquias.
Agora, Deus que se dá a conhecer fora do templo.

Antes, silenciamento.
Agora, palavra.

Antes, fronteira.
Agora, ponto de partida.

Ela deixa o cântaro.

O que era peso torna-se ruptura.
Ela sai da posição de quem carrega para a de quem anuncia.

A primeira missionária do Evangelho de João é uma mulher samaritana.
Sem nome. Sem cargo. Sem autorização institucional.

Quem vai ao poço ao meio-dia? Quem carrega sozinha o peso da água, do cuidado, da sobrevivência? O que faremos com a sede que Jesus revela? Porque diante dessa água que liberta, o Evangelho já não permite neutralidade.

À beira do poço, a fé encontra o corpo
Revelando território, poder e desigualdade.

À beira do poço não é o fim.
É lugar de decisão.

É lugar de encontro.
É lugar onde Deus continua passando.

E continua confiando sua palavra
às mulheres que conhecem o peso do cântaro
e a profundidade do poço.

E só quem tem coragem de atravessar Samaria descobre que os lugares desacreditados podem se tornar fontes de águas vivas.

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