Reflexão do Evangelho

PALAVRAS DURAS: uma reflexão sobre Jo 6,60-69

Leia a reflexão sobre Jo 6,60-69, texto do Kinno Cerqueira

Boa leitura!

A cena de Jo 6,60-69 é a última da sequência de cenas que compõe este capítulo. O cenário deste capítulo divide-se entre “a beira do lago da Galileia”, também conhecido como lago de Tiberíades (Jo 6,1), e “uma sinagoga” (Jo 6,59), sendo ambos, o lago e a sinagoga, nos domínios da cidade de Cafarnaum (Jo 6,1.17.59). O tempo da narrativa é um tanto vago, embora não sem importância: diz-se apenas que estava próxima a Páscoa, a festa dos judeus (Jo 6,4), anotação que também confere o clima psíquico da narrativa, a saber, uma festa litúrgica de peregrinação. Diferentemente do que ocorre na primeira Páscoa (Jo 2,13), Jesus, desta vez, não peregrina a Jerusalém: as cenas de Jo 6 apresentam uma outra peregrinação, mais sutil e mais mordaz, a peregrinação das palavras.

Anteriormente, assistimos a diálogos e discursos faiscantes entre Jesus, as multidões (6,22-40) e os judeus (Jo 6,41-58). Agora, em Jo 6,60-69, o diálogo se dá entre um numeroso grupo de discípulos e Jesus (Jo 6,60-66), e, no final, entre Jesus e os Doze (Jo 6,67-69). Quem primeiro toma a palavra é o referido grupo de discípulos:

Então, muitos de seus discípulos,
tendo ouvido essas coisas,
disseram:
“Dura é esta palavra.
Quem pode ouvi-la?”

Há uma sequência lógica na disposição dos verbos dos quais esses discípulos são agentes: primeiro, “ouvem” o hostil jogo argumentativo travado entre Jesus, as multidões e os judeus; depois, “dizem”, ou seja, exprimem uma reação à ação argumentativa de que foram testemunhas. A reação desses discípulos permanece no plano das palavras e dirige-se às palavras de Jesus: acusam-no de proferir uma palavra dura; em seguida, retórica e ironicamente, lançam mão de uma pergunta por meio da qual insinuam não haver quem possa suportar ouvir essas ditas duras palavras de Jesus.

A afirmação de que a palavra de Jesus é dura é uma figura de linguagem denominada sinestesia, nome que se dá à união de ao menos duas modalidades sensoriais distintas. No caso em questão, estamos diante de uma sinestesia som-tato, uma vez que “palavra” é da ordem da sensação auditiva e “dureza”, da sensação tátil. O emprego dessa sinestesia som-tato parece expressar o quanto as palavras, jamais circunscritíveis ao campo auditivo, podem avançar ao corpo, inclusive com insuportável dureza.

Jesus, sabendo da acusação que seus discípulos lhe imputavam, sai em defesa própria: faz-lhes uma pergunta com a qual os reputa facilmente escandalizáveis: “Isto vos escandaliza? E quando virdes o filho do homem subindo para onde estava antes?” (Jo 6,61-62). E, depois de proferir umas poucas palavras pouco claras, tenta pôr em descrédito a acusação segundo a qual dura é sua palavra: “As palavras que eu vos disse são espírito e vida” (Jo 6,63), disse sem sequer cogitar a possibilidade de estar sendo pouco razoável, para não dizer injusto. E, como se não bastasse, acrescentou, insinuando que a referida acusação e a possível rejeição de sua autodefesa eram motivadas por ausência de fé: “Mas há, entre vós, alguns que não creem” (Jo 6,64), concluiu.

A tirar pelos verbos dos quais os discípulos voltaram a ser agentes, podemos ter uma ideia de como a autodefesa e a insinuação de Jesus soaram aos ouvidos desses discípulos: “A partir daí, muitos de seus discípulos se ‘retiraram’ e não mais ‘andavam’ com ele” (6,66). Palavras duras podem engendrar processos de resistência e de fuga. A fuga não é um tipo de resistência?

“Disse, então, Jesus, aos Doze: ‘Acaso vós também não quereis partir?’” A reação daqueles que não se dobraram a Jesus endureceu-o ainda mais? Ou será que ele pretendia, com tanta dureza, apenas suscitar, nos Doze, o medo gerador de fidelidade incondicional? Seja como for, a resposta de Simão Pedro é arrepiante: “Senhor, a quem iremos nós? Tu tens palavra de vida eterna, e nós temos crido e conhecido que tu és o Santo de Deus” (Jo 6,68-69).

Simão Pedro, que parece falar em nome dos Doze, assume uma postura diametralmente oposta à dos discípulos subversivos: primeiro, chama Jesus de “Senhor”, assumindo sua piegas servidão; depois, afirma não haver outro a quem ir, uma forma de dizer que, diferentemente daqueles discípulos indômitos, os Doze jamais lhe dariam as costas; posteriormente, contrapondo-se aos que disseram ser dura a palavra de Jesus, diz que sua palavra é de vida eterna; por fim, e mais uma vez buscando distanciar os Doze daqueles discípulos que Jesus acusou de falta de fé, Simão Pedro assevera que os Doze têm não apenas crido, mas conhecido que Jesus é o Santo de Deus.

As palavras de Jesus eram insuportavelmente duras para uns, espírito e vida para ele mesmo e vida eterna para os Doze. As palavras de Jesus tocam os corpos de maneiras mil, porquanto irrepetíveis são as sensibilidades corpóreas. Quiçá, um passo revelador que espera por ser dado é aquele que consiste em ler Jo 6,60-69 a partir dos corpos que experimentam a insuportável dureza da palavra de Jesus e não se submetem a ela. Palavras duras geram medo e coragem, obedientes e subversivos, piegas e destemidos.

* Pastor batista, biblista e assessor do CEBI na área de estudos bíblicos.

Liga228 situs judi bola merupakan situs judi bola online dengan pasaran terlengkap.

Kunjungi situs judi bola terlengkap dan terupdate seluruh asia.

Situs sbobet resmi terpercaya. Daftar situs slot online gacor resmi terbaik. Agen situs judi bola resmi terpercaya. Situs idn poker online resmi. Agen situs idn poker online resmi terpercaya. Situs idn poker terpercaya.

situs idn poker terbesar di Indonesia.

List website idn poker terbaik.

Game situs slot online resmi

slot hoki terpercaya

slot terbaru

rtp slot gacor

agen sbobet terpercaya

slot online judi bola terpercaya slot online terpercaya judi bola prediksi parlay hari ini

Seu carrinho está vazio.

×