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PALAVRAS DURAS: uma reflexão sobre Jo 6,60-69

PALAVRAS DURAS: uma reflexão sobre Jo 6,60-69
18 de agosto de 2021 Zwei Arts

Leia a reflexão sobre Jo 6,60-69, texto do Kinno Cerqueira

Boa leitura!

A cena de Jo 6,60-69 é a última da sequência de cenas que compõe este capítulo. O cenário deste capítulo divide-se entre “a beira do lago da Galileia”, também conhecido como lago de Tiberíades (Jo 6,1), e “uma sinagoga” (Jo 6,59), sendo ambos, o lago e a sinagoga, nos domínios da cidade de Cafarnaum (Jo 6,1.17.59). O tempo da narrativa é um tanto vago, embora não sem importância: diz-se apenas que estava próxima a Páscoa, a festa dos judeus (Jo 6,4), anotação que também confere o clima psíquico da narrativa, a saber, uma festa litúrgica de peregrinação. Diferentemente do que ocorre na primeira Páscoa (Jo 2,13), Jesus, desta vez, não peregrina a Jerusalém: as cenas de Jo 6 apresentam uma outra peregrinação, mais sutil e mais mordaz, a peregrinação das palavras.

Anteriormente, assistimos a diálogos e discursos faiscantes entre Jesus, as multidões (6,22-40) e os judeus (Jo 6,41-58). Agora, em Jo 6,60-69, o diálogo se dá entre um numeroso grupo de discípulos e Jesus (Jo 6,60-66), e, no final, entre Jesus e os Doze (Jo 6,67-69). Quem primeiro toma a palavra é o referido grupo de discípulos:

Então, muitos de seus discípulos,
tendo ouvido essas coisas,
disseram:
“Dura é esta palavra.
Quem pode ouvi-la?”

Há uma sequência lógica na disposição dos verbos dos quais esses discípulos são agentes: primeiro, “ouvem” o hostil jogo argumentativo travado entre Jesus, as multidões e os judeus; depois, “dizem”, ou seja, exprimem uma reação à ação argumentativa de que foram testemunhas. A reação desses discípulos permanece no plano das palavras e dirige-se às palavras de Jesus: acusam-no de proferir uma palavra dura; em seguida, retórica e ironicamente, lançam mão de uma pergunta por meio da qual insinuam não haver quem possa suportar ouvir essas ditas duras palavras de Jesus.

A afirmação de que a palavra de Jesus é dura é uma figura de linguagem denominada sinestesia, nome que se dá à união de ao menos duas modalidades sensoriais distintas. No caso em questão, estamos diante de uma sinestesia som-tato, uma vez que “palavra” é da ordem da sensação auditiva e “dureza”, da sensação tátil. O emprego dessa sinestesia som-tato parece expressar o quanto as palavras, jamais circunscritíveis ao campo auditivo, podem avançar ao corpo, inclusive com insuportável dureza.

Jesus, sabendo da acusação que seus discípulos lhe imputavam, sai em defesa própria: faz-lhes uma pergunta com a qual os reputa facilmente escandalizáveis: “Isto vos escandaliza? E quando virdes o filho do homem subindo para onde estava antes?” (Jo 6,61-62). E, depois de proferir umas poucas palavras pouco claras, tenta pôr em descrédito a acusação segundo a qual dura é sua palavra: “As palavras que eu vos disse são espírito e vida” (Jo 6,63), disse sem sequer cogitar a possibilidade de estar sendo pouco razoável, para não dizer injusto. E, como se não bastasse, acrescentou, insinuando que a referida acusação e a possível rejeição de sua autodefesa eram motivadas por ausência de fé: “Mas há, entre vós, alguns que não creem” (Jo 6,64), concluiu.

A tirar pelos verbos dos quais os discípulos voltaram a ser agentes, podemos ter uma ideia de como a autodefesa e a insinuação de Jesus soaram aos ouvidos desses discípulos: “A partir daí, muitos de seus discípulos se ‘retiraram’ e não mais ‘andavam’ com ele” (6,66). Palavras duras podem engendrar processos de resistência e de fuga. A fuga não é um tipo de resistência?

“Disse, então, Jesus, aos Doze: ‘Acaso vós também não quereis partir?’” A reação daqueles que não se dobraram a Jesus endureceu-o ainda mais? Ou será que ele pretendia, com tanta dureza, apenas suscitar, nos Doze, o medo gerador de fidelidade incondicional? Seja como for, a resposta de Simão Pedro é arrepiante: “Senhor, a quem iremos nós? Tu tens palavra de vida eterna, e nós temos crido e conhecido que tu és o Santo de Deus” (Jo 6,68-69).

Simão Pedro, que parece falar em nome dos Doze, assume uma postura diametralmente oposta à dos discípulos subversivos: primeiro, chama Jesus de “Senhor”, assumindo sua piegas servidão; depois, afirma não haver outro a quem ir, uma forma de dizer que, diferentemente daqueles discípulos indômitos, os Doze jamais lhe dariam as costas; posteriormente, contrapondo-se aos que disseram ser dura a palavra de Jesus, diz que sua palavra é de vida eterna; por fim, e mais uma vez buscando distanciar os Doze daqueles discípulos que Jesus acusou de falta de fé, Simão Pedro assevera que os Doze têm não apenas crido, mas conhecido que Jesus é o Santo de Deus.

As palavras de Jesus eram insuportavelmente duras para uns, espírito e vida para ele mesmo e vida eterna para os Doze. As palavras de Jesus tocam os corpos de maneiras mil, porquanto irrepetíveis são as sensibilidades corpóreas. Quiçá, um passo revelador que espera por ser dado é aquele que consiste em ler Jo 6,60-69 a partir dos corpos que experimentam a insuportável dureza da palavra de Jesus e não se submetem a ela. Palavras duras geram medo e coragem, obedientes e subversivos, piegas e destemidos.

* Pastor batista, biblista e assessor do CEBI na área de estudos bíblicos.