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O poder e seu exercício: a serviço de qual projeto de sociedade?

O poder e seu exercício: a serviço de qual projeto de sociedade?
15 de outubro de 2021 Zwei Arts

Leia a reflexão sobre Marcos 10:35-45, texto do Herlon A. Bezerra

Boa leitura!

Herlon A. Bezerra, ministro pastoral leigo

Diocese Anglicana do Recife, Igreja Episcopal Anglicana do Brasil

Quando buscamos por comentários sobre o trecho do Evangelho de Marcos que temos diante de nós (10:35-45), é recorrente que os encontremos vinculados ao tema da liderança. De modo geral, são meditações que buscam extrair dele “princípios éticos” para o desenvolvimento de modelos de liderança adjetivados como “cristãos”, “bíblicos”, “genuínos”, dentre outros. Não raro, encontramos neles afirmações acerca de certa “crise de liderança na sociedade atual” seguidas do entendimento segundo o qual apresenta o texto legado pela Comunidade de Marcos “modelos alternativos de liderança”.

Essas afirmações carregam consigo, decerto, algo da verdade desse legado de fé por nós recebido. Em todo, não seria o caso de encararmos com maior seriedade o fato de “numa meia verdade poder estabelecer-se uma mentira completa”? Afinal, salvo louváveis exceções, essas interpretações rapidamente tomam a tonalidade da literatura de autoajuda corporativa, ideologicamente desenvolvida para enquanto lança luz, por um lado, sobre os limites éticos do modo como o poder é exercido em todos os âmbitos das sociedades capitalistas, escamotear, por outro lado, o fato dessa forma de expressão do poder ser intrínseca ao projeto de sociedade que move esse sistema social, fundado na exploração e dominação.

Ao que tudo indica, essas interpretações, mesmo quando desenvolvidas por pessoas e organizações que se entendem no Caminho de Jesus, sofrem da mesma cegueira para o núcleo de sua mensagem que o Evangelho de Marcos testemunha entre as pessoas que o seguiam. Vejamos:

O trecho ao qual aqui nos dedicamos nos apresenta ao terceiro dos três momentos da difícil caminhada pedagógica na qual Jesus sai da Galileia em direção a Jerusalém para ser torturado, crucificado, morto e, ao fim, ressuscitar na Esperança Libertadora de toda forma de opressão produzindo, assim, Nova Criação.

Em cada um desses três momentos, Jesus tenta anunciar o sentido profundo de sua condição messiânica às pessoas que com ele caminhavam. Seu esforço parece se dar em vão, não sendo um mero acaso que a cegueira e sua cura sejam tema recorrente nesses trechos!

Ao final do primeiro desses anúncios (8:27-9,29), testemunhamos Pedro repreendendo a Jesus após ele não somente ter proibido que informassem às demais pessoas sobre sua condição messiânica como, em acréscimo, ter afirmado, abertamente, sobre a necessidade de seu padecimento e rejeição pela cúpula da religião oficial e do estado. Jesus não hesita diante da resistência de Pedro, apenas aparentemente piedosa e crente: “(…) e olhando para os seus discípulos, repreendeu a Pedro, dizendo: Retira-te de diante de mim, Satanás; porque não compreendes as coisas que são de Deus, mas as que são dos homens.”

A caminhada continua com as pessoas próximas a Jesus ainda sem entender suas palavras e, ademais, receando interrogá-lo. Mesmo assim, Jesus faz uma segunda tentativa de anúncio (9:30-10:31) diante da qual se silenciam as/os que o seguiam, pois vinham disputando “entre si qual era o maior” … Jesus, “assentando-se, chamou os doze, e disse-lhes: Se alguém quiser ser o primeiro, será o derradeiro de todas/os e a/o serva/o de todas/os. E, lançando mão de um menino, pô-lo no meio deles e, tomando-o nos seus braços, disse-lhes: Qualquer que receber um destes meninos em meu nome, a mim me recebe; e qualquer que a mim me receber, recebe, não a mim, mas ao que me enviou.”

Esse é o contexto de ensinamentos no qual encontrarmos, no trecho a que nos dedicamos, o terceiro anúncio de Jesus, feito em resposta ao pedido de “Tiago e João, filhos de Zebedeu”: “Mestre, queremos que nos faças o que te pedirmos (…): Concede-nos que na tua glória nos assentemos, um à tua direita, e outro à tua esquerda.”

Olhando retrospectivamente, somos tentados a julgar: quanta cegueira a desse povo! Em todo caso, precisamos de prudência nesse julgamento. Afinal, compreenderíamos nós hoje o sentido profundo do messianismo de Jesus? Expressariam nossas crenças e práticas, pessoais e institucionais, esse sentido?

Sobre o enorme desafio presente no desejo de enxergar claramente nosso lugar no mundo, Louis Althusser sublinha, ao tratar da “Ideologia e luta ideológica” (1966), quão opacas são para todas as pessoas as estruturas que determinam suas próprias representações do mundo e de si. Em alguma medida, funcionam como uma verdadeira proteção inconsciente, que nos ajudam a “suportar nosso estado, seja a miséria da exploração que nos vitimiza, seja do prestígio exorbitante do poder e riqueza que nos beneficia”.

A radicalidade do messianismo de Jesus, Luz do Mundo (João 8:12), lançou tanta clareza sobre as misérias da realidade de seu tempo e espaço quanto lança hoje sobre as nossas! Não deveríamos, pois, estranhar que nós, também ofuscados pela Verdade e Justiça, não suportemos tanta luz… Sua Morte e Ressurreição anunciaram uma verdadeira revolução e essas não se fazem tratando os problemas em sua aparência.

Percebendo que “os dez”, ciosos de seus próprios privilégios, indignavam-se contra o pedido de “Tiago e João”, Jesus vai ao âmago da questão: “Sabeis que os que julgam ser príncipes dos gentios, deles se assenhoreiam, e os seus grandes usam de autoridade sobre eles; Mas entre vós não será assim; antes, qualquer que entre vós quiser ser grande, será vosso serviçal; E qualquer que dentre vós quiser ser o primeiro, será servo de todos.”

Até onde iremos com Jesus nessa Caminhada? Quanto de nossos privilégios, reais ou meramente imaginários, estamos dispostos a abrir mão para assumir a condição de servas/os umas/uns das/os outras/os? Dito de uma forma mais estrutural: estaríamos dispostos a abdicar do suposto direito à propriedade privada como um princípio anterior ao direito à vida? Em consequência, com qual projeto de sociedade estamos pessoal e institucionalmente comprometidas/os quando nos autonomeamos pessoas cristãs? Como entendemos dever se dar o exercício do poder: a serviço das necessidades de todas as pessoas ou da manutenção de privilégios para poucas pessoas e famílias?

Alguns versículos depois, vemos a multidão irritada com os gritos do cego Bartimeu, que clamava que Jesus lhe possibilitasse ver. Contra tudo e contra todos, Bartimeu insistiu no seguimento de Jesus pelo caminho. Temos fé suficiente para enfrentar a multidão em busca da luz que tudo põe às claras; inclusive nosso medo de ter de beber o mesmo cálice bebido por Jesus, sendo também batizado em seu batismo de sangue?