O relato da Paixão segundo Mateus[1]
Mt 26, 14 – 27, 66
Escutar, nas Igrejas, o relato da paixão de Jesus, ou ver filmes sobre isso, nem sempre ajuda a perceber a mensagem própria com a qual cada evangelho conta como Jesus viveu esse processo que culminou na cruz.
A comunidade de Mateus escreveu nos anos 80 do primeiro século. Formada por uma maioria de irmãos e irmãs, vindos do Judaísmo, a primeira questão parece ter sido como responder à decepção de muitas pessoas das comunidades de fé. Elas esperavam que, como Messias, Jesus tivesse liderado a guerra contra os romanos e instaurado no mundo o projeto divino de liberdade e justiça para todos e todas. Conforme os evangelhos, Jesus nem tentou essa luta.
Conforme os evangelhos, ao investir contra a dominação romana no país, Jesus atacou profeticamente a religião ritual do templo e a espiritualidade legalista dos sacerdotes e professores da lei. Por isso, os chefes do judaísmo o prenderam em Jerusalém, entregaram-no ao governador romano, que o condenou à morte na cruz, como os romanos faziam com os rebeldes que se levantavam contra o império.
Para sustentar a fé de comunidades cristãs de origem judaica, o evangelho de Mateus mostra, em cada página, que Jesus assumiu as profecias sobre o Messias, não como rei, filho de Davi, guerreiro e sim como profeta, servidor sofredor de Deus, como aparece no 2º Isaías e em alguns salmos.
É a partir de uma fonte comum que Mateus, Marcos e Lucas contam as cenas da paixão e morte de Jesus. Por isso, nos três evangelhos, o relato da paixão obedece à mesma sequência: começa pela ceia, a seguir vem o relato da traição de Judas. Depois os três evangelhos contam a oração no jardim de Getsêmani e a prisão de Jesus. A seguir, vem o interrogatório que ele sofreu no tribunal religioso do templo (o sinédrio). Depois, os inimigos o conduzem ao processo e julgamento no tribunal do governador romano (o pretório). Ali, ocorre a condenação à morte.
Jesus foi condenado à morte pelo poder político, mas por insistência dos sacerdotes e líderes religiosos do templo. Já condenado à morte, durante aquela noite, Jesus é torturado, como era o costume. Na manhã seguinte, levam Jesus, com a cruz às costas, pelo caminho entre a cidade e o local onde será crucificado. Assim, o evangelho conta o caminho com a Cruz às costas, a crucifixão, morte e sepultura.
Sobre os detalhes, um evangelho diverge do outro. Para Marcos, Jesus foi crucificado pelas nove da manhã (na terceira hora do dia) e morreu pelo meio-dia. Para Mateus e Lucas, foi crucificado ao meio-dia e morreu às três da tarde.
Diferentemente dos outros, Mateus liga cada cena da paixão com uma passagem bíblica do primeiro testamento para mostrar que Jesus realizou profundamente outro modelo de Messias, diferente do Messias-Rei que o povo esperava. Esse outro modelo do Messias como profeta também tinha sido descrito e previsto na Bíblia. Seria para nós, hoje, um bom estudo bíblico, abrir a nossa Bíblia e verificar a que passagem do primeiro testamento, o evangelho liga cada cena da paixão de Jesus.
Muitas vezes, na história, interpretou-se a argumentação de Mateus, como se o evangelho dissesse que a libertação que Jesus veio realizar não é política e sim espiritual. Essa leitura dualista e alienada acabou por fortalecer uma interpretação religiosa, baseada no sacrifício. Jesus teria morrido como oferenda para aplacar a Deus, irado por causa dos pecados da humanidade. Esse tipo de interpretação é contrária ao que Jesus quis revelar: um Deus todo amor e graça, que jamais pediu ou desejou que o seu Filho morresse para salvar o mundo.
Escrito nos anos 80, Mateus reflete o conflito existente entre as comunidades cristãs e o Judaísmo da época, dirigido pelos rabinos e fariseus. Por isso, ao contar a paixão de Jesus, o evangelho sublinha a culpa dos religiosos do templo, na condenação de Jesus e diminui a responsabilidade de Pilatos e dos romanos. Pode ter sido estratégia para inserir-se com mais aceitação no império romano. No entanto, também revela que a maior revolução de Jesus foi no modo de falar de Deus como Amor incondicional, amigo da humanidade e solidário do povo sofredor. A libertação é integral, mas começa pela espiritualidade.
A opressão que qualquer pessoa, ou todo um povo, sofre no plano social e político é intrinsecamente violenta. No entanto, a opressão religiosa, vestida com aparência espiritual é pior, porque atinge a pessoa e a comunidade em seu ponto mais íntimo: o espírito. Na opressão religiosa, a pessoa é desrespeitada e violentada, em nome de Deus e da fé. Jesus foi torturado e assassinado em nome das duas.
O relato da Paixão segundo Mateus pode ser compreendida à luz dos muitos relatos de martírio que enriquecem nossa Igreja na América Latina, desde massacres dos índios, negros e categorias oprimidas, até o assassinato de pastores, padres e bispos que decidiram ser fieis ao evangelho.
Até hoje, existem autoridades religiosas cristãs, padres e pastores, que legitimam a opressão política, exploram economicamente o povo em nome de Deus e apoiam estruturas sociais e políticas opressoras, sempre usando a religião como instrumento de poder e de domínio. Jesus foi vítima dessa estrutura religiosa e política, ainda vigente no mundo atual.
Em nosso continente, da década de 1960 até hoje, não foram governos comunistas ou ateus que perseguiram e assassinaram irmãos e irmãs militantes das pastorais sociais e das comunidades de base. Foram governos católicos. O Pastor Fred Morris que, em 1974, foi barbaramente torturado, em um quartel militar do Recife pelo, Coronel Meziak, que lhe explicou: – Estou fazendo isso com você para salvar a civilização cristã.
Os irmãos e irmãs mártires da fé e do testemunho do projeto divino no mundo foram acusados de não serem suficientemente fieis à religião e à fé. Foram acusados de ser subversivos, como Jesus que, nesse evangelho, é acusado de ter blasfemado contra o templo e contra o império e por isso é condenado.
Monsenhor Romero afirmava: “Mata-se a quem está atrapalhando. A quem não atrapalha, não se mata”[2]. Jesus foi morto porque atrapalhava e ameaçava a religião ritual, que usava o nome de Deus para exercer poder sobre o povo. Ao deslegitimar os sacerdotes e o poder religioso, aliado do império, Jesus desafiava o próprio império. Fez isso, como pobre e indefeso.
Os textos bíblicos mais citados por Mateus para explicar a paixão de Jesus foram tirados das profecias do Servo Sofredor no 2º Isaías. Em alguns desses textos, o Servo Sofredor aparece como figura individual de um profeta (ou profetiza). Em outros, trata-se de uma figura coletiva. Na América Latina, Ignacio Ellacuría, mártir jesuíta em San Salvador, revelou que, hoje no mundo não são apenas pessoas que continuam a ser condenadas à morte. São povos inteiros, crucificados, pelo poder político e econômico opressor.
Não basta contemplar o Cristo crucificado nos milhões de vítimas desse mundo cruel. A nossa resposta à meditação da paixão segundo Mateus deve levar-nos ao compromisso de fazermos tudo o que for possível para descer da Cruz as pessoas oprimidas e os povos crucificados. As teologias da libertação e a espiritualidade dos irmãos e irmãs, mártires da caminhada, ensinam que essa é a missão de todos e todas nós [3].
É preciso que a leitura da paixão de Jesus segundo Mateus fortaleça em nós a solidariedade a toda pessoa que, hoje, é vítima da injustiça e da desumanidade da sociedade dominante e daqueles que a governam. Ao mesmo tempo, convida-nos a não desanimar e a ver que, mesmo nos aparentes fracassos das comunidades e movimentos que lutam pacificamente pela transformação do mundo, esses profetizam a transformação do mundo e a vitória da vida, ou seja a ressurreição.
[1] – Algumas comunidades têm preferido ler o relato da Paixão em um ofício próprio de leitura e meditação da Palavra. Esse ofício pode ser no domingo ou em algum dia da semana, antes do Tríduo Pascal que começa na 5ª feira à tarde.
[2] – SOBRINO, Jon. Jesus, o Libertador. I – A história de Jesus de Nazaré. Petrópolis: Vozes, 1992, p. 288.
[3] – Cf. TAVARES, Sinivaldo. Cruz de Jesus e o sofrimento do mundo. Petrópolis, Ed. Vozes, 2002, p. 168.


