Bem vindo(a) ao CEBI ! (51) 3568-2560

Não podemos deixar de anunciar o que vimos e ouvimos!

Não podemos deixar de anunciar o que vimos e ouvimos!
21 de outubro de 2021 Zwei Arts

Leia a reflexão sobre Marcos 10,46-52, texto do Itacir Brassiani

Boa leitura!

Estamos entrando na última semana do mês que dedicamos à oração e à animação missionária. Neste domingo, celebramos o Dia Mundial de Oração pelas Missões. O Papa Francisco nos convida, citando os Apóstolos da primeira hora, a não calar aquilo que vimos e ouvimos (cf. At 4,20). Trata-se daquilo que vimos e ouvimos nestes quase dois anos de pandemia, de genocídio, de faturamento encima da tragédia, de negociatas obscenas sem o mínimo de empatia e compaixão, mas também de gestos de doação sem medida, de avanço rápido na busca de soluções, de uma capacidade inaudita de resiliência.

É o desejo insaciável de plenitude, de bem viver e conviver que faz com que a pessoa humana se coloque a caminho. Apagar este desejo, ou substituí-lo pela rasteira satisfação de uma segurança feita sob medida para os fortes, equivale a começar a morrer. O ser humano só fica sentado à beira da estrada e condena quem é diferente quando ainda não alcançou sua própria maturidade, ou quando teve roubada a sua dignidade. Só quem ousa caminhar para além do presente é capaz de recusar uma vida sustentada por algumas migalhas.

O desejo mobilizador, criativo e emancipador é também o lugar do encontro com Deus. Quem busca Deus fora da insaciável sede de plenitude e de convivência inclusiva e solidária acaba fabricando ídolos que só fazem amedrontar os viventes e devorar vidas. É Deus quem nos fez sonhadores, misturando ao pó da terra o sopro divino. E é nessa abertura radical que nada pode preencher que ele costuma vir ao nosso encontro, acolhendo-a não como sinal de nossos limites, mas como expressão do infinito que nos habita. É também do adorável fundo desta condição de criaturas desejantes que brota a verdadeira oração.

É na oração que revelamos nossos verdadeiros e mais profundos desejos. Então, o que é que andamos pedindo a Deus? Dirigimo-nos a Deus como se ele fosse um capitão pronto a eliminar, em nosso nome, as pessoas e grupos que não nos agradam ou sentimos como ameaça? Confiamos a ele a frágil economia e a duvidosa moral da nossa família e imploramos que dê segurança às nossas poupanças e propriedades? Talvez cheguemos até a pedir paz, segurança e sucesso à nossa Igreja na concorrência com as demais denominações, que tratamos como concorrentes…

Como são pobres e medíocres estes desejos! Não passam de necessidades geradas no ventre do medo. Por isso, quando se trata de oração, não é suficiente pedir com insistência: é preciso desejar e pedir com ousadia e corretamente grandes coisas. Venha a nós o vosso Reino! Seja feita a vossa vontade! Democracia radical e respeito aos pobres… Bartimeu, que pede esmolas à margem do caminho, começa pedindo compaixão àquele que carrega nas próprias entranhas as esperanças dos pequenos. Antes de manifestar propriamente um desejo, o filho de Timeu expressa sua própria condição de dor e alienação.

Apesar da contrariedade dos que o circundam e seguem, Jesus para e se dirige ao cego e mendigo que implora: “O que você quer que eu faça por você?” Encorajado pelos discípulos, Bartimeu balbucia um pedido que vem do fundo da condição humana, que espanta todos os medos e exorciza todas limitações: “Mestre, eu quero ver de novo!” Neste pedido, aquele homem cego e mendigo resume todas as suas necessidades e desejos: ver claramente as coisas, avaliar com retidão os acontecimentos, vislumbrar o Reino de Deus chegando como graça, tomar decisões políticas responsáveis à luz da razão ética e não dos medos e ódios…

No mesmo conjunto narrativo, um jovem rico havia voltado atrás, entristecido, porque era refém dos próprios bens (cf. Mc 10,17-22), e João e Tiago haviam expressado seus sonhos de poder. Mas o cego se livra do único meio de sobrevivência que possui e se aproxima de Jesus. E é essa fé ativa e dinâmica que abre seus olhos. “Pode ir, a sua fé curou você!” E ele não volta para casa ou para a caserna, mas põe-se a seguir Jesus. Mostra-se mais livre que o jovem rico, que voltou atrás desiludido, e mais lúcido que João e Tiago, que desejam os primeiros lugares. E ele jamais calou aquilo que experimentou, viu e ouviu.

Jesus de Nazaré, peregrino no santuário das dores e sonhos humanos! Escuta o grito que brota das entranhas da terra e abre os nossos olhos para reconhecer-te passando por nossos caminhos. Converte os cristãos do Brasil, para que não ignorem os desejos e sonhos que movem a humanidade. Desperte em nós e em nossas comunidades a corajosa alegria de não calar aquilo que vimos e ouvimos, que estamos vendo e ouvindo. E que ninguém cale em nós o grito do desejo de bem viver, mais forte que todas as razões. Assim seja! Amém!