Jesus ressuscitou! O Mandacaru floriu no Sertão de nossas Vidas!

Por Hermes A. Fernandes

Hoje é um grande dia! Celebramos a Páscoa do Senhor. Ele ressuscitou! Gostaria de propor uma reflexão sobre a perícope lucana que nos fala do encontro de Jesus ressuscitado com os Discípulos de Emaús (Lc 24,13-35). “Reconheceram-no ao partir o pão” (Lc 24,30-31). Antes, sentiram seus corações ardentes com suas palavras. Palavras de esperança. Sentimento que aquece, faz caminhar.

Os discípulos de Emaús, o casal Cléofas – quem sabe? – convidam-no para o pernoite. “Fica conosco, Senhor! Já é tarde” (Lc 24,29). Na acolhida da casa pobre dos Cléofas, havia pão e amparo. A dor de ver o Messias – a Esperança que se fez Homem – esvair-se em dor na Cruz, não tinha medida! Jesus, o Mestre do Amor, morreu. Uma dor que não se podia definir. Mas, naquele companheiro do caminho, esta morte começou a fazer sentido. A partir dos profetas, fez-se entender que ele, Jesus, “carregou sobre si nossas dores” (Is 53,4). Com corações ardentes, a luz começa a se fazer revelar. Primeiro por uma simples faísca. E foi se tornando chama e, ao partir o pão, Jesus ressuscitado se fez conhecer no caminhante sábio que – com eles – percorreu do caminho da decepção em Jerusalém ao alento do lar, em Emaús. Ao partir o pão, na comensalidade solidária, o Cristo Ressuscitado se fez conhecer. A morte foi humilhada pela vida que brota na certeza da partilha.

Sobre o belíssimo texto lucano que nos fala sobre o Caminho de Emaús, é preciso perguntar: onde está Jesus ressuscitado? Muitos gostariam que ele estivesse apenas em Deus. Seria mais cômodo. Ainda há quem queria confiná-lo num Templo, ou de prendê-lo em instituições, estruturas e esquemas. E isso seria muito interessante para quem deseja manter sob controle a palavra e ação de Jesus. Ou usar-lhe como fonte e método para satisfazer seus interesses. É aqui que vale pensar: neste texto da comunidade lucana, somos apresentados à verdadeira lógica messiânica. Jesus não está onde os interesses do poder gritam. Sua presença se faz em lugares onde a ressurreição é imperativa. Primeiro ele se encontra nos caminhos da humanidade, atento às aspirações e sonhos do povo, sobretudo aqueles e aquelas que clamam por misericórdia e vida plena. Depois se encontra na palavra, e na Palavra por excelência, registrada nas Sagradas Escrituras. Em seguida, no gesto da partilha. Ele está presente no partir do Pão (cf. Lc 24,30-31).

O relado sobre os discípulos de Emaús pode ser entendido como um primeiro anúncio. Os discípulos contam o que aconteceu em Jerusalém, sobre a morte do Justo, aquele que significava a esperança do povo. É importante nos atentarmos para a forma com que se referem a Jesus: “um profeta poderoso em obras e palavras, diante de Deus e diante de todo o povo” (Lc 24,19b). Ao denominá-lo profeta, asseguram que ele foi enviado por Deus. Em seguida, toda a vida de Jesus é apresentada por quatro palavras-chave: ação, palavra, diante de Deus, diante do povo. Trata-se de um resumo do que Jesus disse e fez, cumprindo o projeto de Deus em favor do povo. E o testemunho continua: os chefes do povo o condenaram e o crucificaram (Lc 24,20). E, por fim, relatam sobre a dor que os aflige, a decepção: esperavam que Jesus fosse o messias libertador e que Deus fosse vingá-lo no mesmo dia, mas já se passaram três dias (Lc 24,21). A cultura judaica acreditava que a força vital de um ser humano o abandonava em definitivo entre três e quatro dias após a morte. Fazendo com que o cadáver entrasse em decomposição. Esta palavra, já se passaram três dias, significa o fim da esperança. A frustração.

Diante da incompreensão, muitas vezes consequente da dor que nos cega, é o próprio Jesus que nos faz voltar à realidade e, por que não, à esperança. No relato lucano, ele mesmo mostra o caminho para entender sua pessoa e ação, à luz da compreensão das Sagradas Escrituras. Na Bíblia estava anunciado tudo o que o Messias, enviado por Deus, deveria realizar: “‘Será que o Cristo não devia sofrer tudo isso para entrar na sua glória?’ E, começando por Moisés e passando pelos Profetas, explicava aos discípulos todas as passagens da Escritura que falavam a respeito dele” (Lc 24,26-27). Não era vontade de Deus que Jesus fosse perseguido, que sofresse violência sem medida e fosse morto. Não! A vontade de seu Pai era que o Evangelho fosse anunciado, que aos vulneráveis fosse apresentada uma Boa Notícia, uma esperança de libertação (cf. Lc 4,16-21) e, por isso, confrontando os poderes opressores, ele foi perseguido e morto. Os responsáveis pela morte de Jesus foram os mantenedores de uma ordem social fundada na injustiça. Tais mantenedores recusaram o projeto de Deus apresentado por Jesus. A morte do Messias não é resultado do capricho de um Deus sádico, é consequência do compromisso dele para com a causa dos pequeninos, marginalizados, oprimidos, massacrados pela ocupação romana e pelo judaísmo normativo.

Mesmo iluminados pela catequese do companheiro de caminhada, ainda não o reconheceram como o Messias ressuscitado. Foi no acalento da acolhida, na partilha do teto e do pão, que eles o reconheceram. Por que é somente no gesto da partilha que as pessoas reconhecem que Jesus está vivo entre elas? Porque a partilha é a alma do projeto de Deus realizado por Jesus. É partilhando o que se é, e o que se tem, que todos poderão ter acesso à liberdade e à vida. Isso nos mostra como a Eucaristia tem um sentido econômico e político: ela é o sinal do mundo novo, onde as relações de poder são substituídas por relações de fraternidade, e onde as relações econômicas são norteadas pelo espírito de partilha igualitária. É desse gesto de partilha que nasce o mundo novo e a nova história, superando toda a desigualdade gerada pelo poder e pela riqueza. E, vale lembrar, a partilha não se trata de bondade ou generosidade, e sim de justiça. O Dom de Deus é feito para todos e deve ser partilhado entre todos e todas. E estas lições foram reveladas pelo Cristo que se fez conhecer, ao partir o pão, naquela casa amiga em Emaús.

E ao reconhecer Jesus Ressuscitado ao Partir do Pão, voltaram à Jerusalém, à terra da dor, para testemunhar: Ressuscitou! (cf. Lc 24,31-34).

Somos todos Discípulos de Emaús. No caminho da dor, da decepção, dos corações frustrados; o Senhor se nos aproxima. Aquece nosso coração. Faz-nos caminhar. No sertão de nossas vidas, faz florir o mandacaru da esperança por tempos melhores. Faz florir e caminhar.

Somos todos Discípulos e Discípulas de Emaús. Caminha conosco o Cristo Ressuscitado. Devemos, como naquele dia que nos narra o texto lucano, caminhar na dor com ouvidos atentos às palavras dos profetas. O mandacaru vai florir no sertão de nossas vidas. E, na alegria da partilha do pão e da beleza, vamos reconhecer a vida que vence a morte. Em Jesus, o Ressuscitado, voltaremos à terra da dor – à Jerusalém existencial de nossas vidas, às muitas situações de sofrimento – e juntos, todos nós, gritaremos: chega de chorar! Nosso Deus é um Deus de Vida! Nosso Senhor está vivo!

Carrinho de compras
Rolar para cima