Epifania: ousada manifestação de Deus fora do poder e dos muros fechados da religião

Os textos da celebração de Epifania apontam aspectos importantes para percebermos como Deus nasce e se manifesta entre nós. Começando pela profecia das discípulas e discípulos de Isaías, escrita depois do exílio. Esta profecia apresenta toda a esperança na reconstrução da cidade com o fim da violência e opressão. Hino de alegria por novos tempos (Is 60,1-6).  O Salmo 72, uma bela oração messiânica que diz que o messias que vem, julgará com justiça e será a defesa dos pobres conforme o direito e a paz. Fará justiça aos pobres e esmagará o opressor. A Carta aos Efésios (Ef 3,2-6) vai dizer que a participação no projeto de Deus e messias é promessa para toda gente.

O Evangelho de Mt 2,1-12 é a cena da visita de três magos ao recém-nascido em Belém. Os magos são apresentados no Evangelho de Mateus com uma certa familiaridade e evidentemente que deve ter provocado muitas comunidades de então que se julgaram detentoras do projeto de Jesus e da tradição. As comunidades na região da Síria ousaram em descrever a manifestação da promessa e do messianismo num ambiente marcadamente fechado. A manifestação de Deus para os de fora. Esta estranha manifestação de Deus para as comunidades que transmitiram o Evangelho de Mateus aponta um entendimento aberto da Epifania. Quem são os magos? A única menção no evangelho é que eles vêm do Oriente, porque viram uma estrela que indicava o nascimento do rei dos judeus. Tudo indica que eles eram sábios que interpretam sonhos, visões e outras artes da adivinhação. O interessante é que no relato eles são apresentados em oposição a Herodes, o rei de plantão e seus correlegionários (sumo sacerdotes, sacerdotes e escribas). Os donos do poder e da religião são incapazes de reconhecer a manifestação de Deus no rei-criança que acaba de nascer; em contrapartida, os magos que vem de outra cultura e práticas religiosas, reconhecem o messias e vêm ao seu encontro. Os magos são conduzidos pela estrela, que aponta que o rei-criança não está em Jerusalém, mas na periferia do país. Ou seja, não se encontra no centro político e religioso. A Epifania se dá em outras paragens e paisagens. O cenário é uma casa, na qual encontram uma mãe e uma criança recém-nascida. Adoram o menino e lhe oferecem presentes e retornam para suas terras. Porém, avisados em sonho não retornam pelo mesmo caminho para não encontrar com Herodes, que representava uma ameaça.

A comunidade de Mateus nos apresenta o Deus-criança que se manifesta fora das certezas que muitos entendiam e se fecharam nelas.  O Deus-criança que nasce entre os pobres e injustiçados, que nasce na periferia e nas tradições esquecidas e apagadas na história. Por isso, o Evangelho apresenta esta manifestação à luz das profecias.

Hoje em nossas comunidades e somos convidados pelo Evangelho da comunidade de Mateus a alargar o nosso olhar para reconhecer a manifestação do Deus-Criança nas paisagens, lugares, territórios e corpos, que em grande medida são negados e excluídos pelos donos de plantão da religião. A epifania em Mt 2,1-12 desconcerta as certezas que cristalizamos e repetimos a cada celebração. Para viver Epifania é preciso reconhecer Deus nos pobres, nos injustiçados, nos inocentes, nos negros, nas mulheres violentadas, injustiçadas e que lutam com seus corpos contra toda forma de violência e morte. É preciso reconhecer Deus na luta pela vida das pessoas invisibilizadas em seu direito de ser, como as pessoas LGBTQIAP+. Como dizia a música de Caetano Veloso e Gilberto Gil: “E na TV se você vir um deputado em pânico/ Mal dissimulado/ Diante de qualquer, mas qualquer mesmo/ Qualquer, qualquer plano de educação/ Que pareça fácil/ que pareça fácil e rápido/  E vá representar uma ameaça de democratização/ Do ensino de primeiro grau/ E se esse mesmo deputado/ Defender a adoção da pena capital/ E o venerável cardeal/ Disser que vê tanto espírito no feto/ E nenhum no marginal…). Poderíamos complementar que hoje tantas pessoas donos da religião e quase donos de Deus são incapazes de ver e caminhar ao encontro do Deus-criança nas irmãs e irmãos que foram lançados na margem da sociedade. Carregamos a concepção fechada da manifestação de Deus em nossos espaços sacralizados e determinados por nosso poder e controle. A manifestação de Deus está fora dos muros que construímos e na contramão de nossos conceitos e concepções idolátricas.

Queremos terminar esta reflexão com um pequeno poema-oração de Dom Pedro Casaldáliga:

 

DIANTE DE NÓS, IA A GARÇA BRANCA

Diante de nós, ia a graça branca

Como uma bandeira de Natal,

andando

com a chuva e o vento

inclementes

(Mostrando que caminhos

ainda não trilhados?

Que notícias

trazendo e levando?)

Éramos três cavaleiros,

três chapéus de palha

encharcados;

e uma mulinha parda

e dois cavalos brancos

E era quase noite de Natal

E era tão verde o campo

que o Mundo parecia

recém-criado

Diante de nós

ia a garça branca

como uma Boa Nova rente à grama e entre cascos…”

Rafael Rodrigues da Silva e Eliana da Silva
CEBI-AL

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