As Marias e o sequestro de Jesus

Jorge Luis Peil
CEBI-RS

Sábado de Aleluia!

Gn 1,1-2,2
Sl 103(104),1-2a.5-6.10.12.13-14.24.35c (R. cf. 30)
Rm 6,3-11
Sl 117(118) 1-2.16ab-17.22-23
Mt 28,1-10

O Ressuscitado vive entre nós, amém, axé, awerê, aleluia! Celebramos novamente o maior acontecimento da fé cristã e somos convidados a anunciar até os confins da Terra que a nossa esperança permanece viva, que as forças da morte não resistem à teimosia vivificadora de Deus.

Mateus nos convida a mergulhar nesta experiência na companhia de duas mulheres, duas Marias. Uma é a de Magdala, discípula, amiga e apóstola do Nazareno. A outra, pode ser… Maria de Cléofas, que estava junto à cruz. Ou Maria de Betânia, que aprendeu aos pés do Mestre e viu o irmão sair do túmulo. Ou tantas Marias anônimas que a história não registrou. Maria era um nome comum na Palestina do século I. Talvez Mateus propositalmente não a diferencie mais, porque ela é todas: a que traz consigo lutos acumulados, a que enfrentou o descarte, a que aprendeu a esperar contra toda espera.

O cenário é um túmulo; a expectativa era encontrar um cadáver. O que elas encontraram, porém, foi o avesso de toda lógica de morte: um anjo que anunciava que o Crucificado havia rompido os limites da sepultura. Aquele túmulo era como tantos outros que elas conheciam. Mas o corpo que elas buscavam não era apenas mais um corpo. Era o corpo de um condenado político, executado pelo poder imperial romano com o aval das elites religiosas. Pilatos e Herodes, de um lado; Anás e Caifás, do outro. A aliança entre o Estado executor e a religião acusadora.

Na madrugada do primeiro dia da semana, porém, as mulheres testemunham o impossível. O anjo não diz: “voltem ao que era antes”. Diz: “ide depressa anunciar que ele ressuscitou”¹. As mulheres saem correndo, com medo e grande alegria.

A tradição tentou transformar Madalena em pecadora arrependida, mas ela nunca foi isso. “Nos evangelhos, Maria Madalena é a mulher mais citada pelo nome. Chama a atenção o fato de Maria Madalena ser citada em primeiro lugar em todos estes textos.  A citação de Maria Madalena em primeiro lugar parece indicar sua liderança no grupo das discípulas de Jesus”². A ela, e à sua companheira, foi confiada a primeira palavra: “Ele não está aqui. Ressuscitou”. Elas não são coadjuvantes; são as portadoras da Boa Notícia num mundo onde o testemunho feminino não valia juridicamente. Deus, porém, não se guia pelas regras dos poderosos.

E hoje, onde estão os túmulos? Estão nas periferias onde o Estado mata a juventude negra; nos lares onde mulheres são agredidas e mortas; nas valas comuns das guerras que partem corpos e apagam nomes. Estão nos corpos de mulheres trans assassinadas, nos rostos de crianças que conhecem o peso da bomba antes de aprender a ler. Estão no Irã, no Líbano, em Gaza, na Ucrânia, no Iraque — e também aqui, neste Brasil onde o feminicídio ainda é rotina e a transfobia dita sentenças de morte.

Mas há uma contradição ainda mais profunda: o próprio Jesus foi sequestrado. Aquele que foi condenado pela aliança entre a religião acusadora e o Estado executor hoje aparece associado aos mesmos mecanismos que o mataram. Em nome dele, pregam-se ódio político, homofobia, transfobia, misoginia, rejeição aos palestinos e árabes, apoio ao sionismo armado. A cruz, que era denúncia do poder, virou bandeira de quem oprime. O Crucificado, que estava ao lado das vítimas do império, é invocado para abençoar os novos Herodes e os novos Caifás.

Essa contradição escancara que a Páscoa ainda não foi compreendida. Porque se Jesus ressuscita, é para desmascarar essa apropriação. Ele não está do lado dos que consagram estruturas de morte, mas sim das Marias que velam e denunciam. Ele não se reconhece nos discursos que condenam mulheres, que perseguem LGBTQIAP+, que celebram bombardeios sobre crianças.

A canção de Zé Vicente ecoa: “Madrugada ê! Galo cantou. / A paz se faz, / A morte jaz, Jesus ressuscitou!”³ Mas essa paz não é a paz dos cemitérios. É a paz que brota quando mulheres saem correndo do túmulo e se recusam a calar. É a paz que ainda precisa ser construída, porque o Evangelho não é um monumento do passado, mas uma semente que só agora começa a dar frutos.

A Boa Notícia ainda não foi experimentada em sua plenitude. Quantas mulheres continuam sendo tratadas como objetos, quantos corpos são despejados nas esquinas sem que a sociedade se comova? Se Jesus é o Crucificado que ressuscita, então cada mulher crucificada hoje é seu rosto ferido; cada sobrevivente que levanta a cabeça é testemunha da ressurreição. O Evangelho está por ser anunciado na íntegra, porque ainda não aprendemos a honrar o discipulado das mulheres como ele merece.

Por isso, a missão que o Ressuscitado confia às Marias é também nossa. “A profunda experiência de morte e ressurreição que elas fizeram transformou suas vidas. Elas mesmas ressuscitaram e se tornaram testemunhas qualificadas da ressurreição nas comunidades cristãs. Por isso, recebem a ordenação de anunciar: ‘Jesus está vivo! Ele ressuscitou!’”¹ Não para repetir fórmulas do passado, mas para avançar rumo à Galileia. A Galileia é o lugar onde tudo começou: as margens, os pobres, a vida compartilhada. É lá que o Crucificado nos espera — não nas estruturas de morte, mas nos gestos de vida que teimam em brotar.

“Os senhores da morte e da opressão, / Já não dormem, vencidos estarão. / A justiça da terra vai brotar / E o Divino em nós vai triunfar!”³ Cantemos com Zé Vicente. Porque a Páscoa não é a confirmação de um poder que domina, mas a derrota definitiva de todos os poderes que crucificam. E essa vitória ainda está se fazendo — em cada grito de mulher que não se cala, em cada corpo que se recusa a ser túmulo.

As Marias nos ensinam que a ressurreição não é um ponto de chegada, mas um ponto de partida. Elas saem correndo. Saem com medo, mas saem com alegria. Saem para contar. Saem para construir. E nós, com elas, somos convidados a anunciar: o Crucificado está vivo, e sua vida pulsa onde há resistência. A Boa Notícia ainda está por ser feita. Mãos à obra.

Notas

¹ Cf. MESTERS, Carlos; LOPES, Mercedes; OROFINO, Francisco. *Mateus 28,1-20: Ressurreição e Missão – Estudo*. In: CEBI, Por Trás da Palavra, s.d. [texto fornecido].

² LOPES, Mercedes. Maria Madalena, apóstola dos apóstolos? In: CEBI, Boletim Por Trás da Palavra, n. 143, 2004, p. 17-21. [texto fornecido].

³ VICENTE, Zé. Madrugada ê. In: Letras.mus.br. [2021?]. Disponível em: https://www.letras.mus.br/ze-vicente/1623640/. Acesso em: 28 mar. 2026.

 

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