Um Céu Lilás

Autora: Regina Marchesini

Penso em todas as mulheres que conheci. Também nas que vieram antes de mim. Que mistérios e dores, que sonhos e alegrias existiam em seus corações? Como elas enxergavam o mundo? Em que Deus elas acreditavam?

Há tantas histórias que entrelaçam nossas vidas. Tantas são iguais, tantas são parecidas, pois são histórias de mulheres e, onde uma sofre e sonha, todas sofrem e sonham, mesmo cada um sendo única.

Penso nas Saras, todas elas desejosas de terem filhos, pois se não o tivessem para que serviriam? Para quê servem as mulheres numa cultura patriarcal?

Penso nas Agares, obrigadas a se submeterem ao capricho de homens e de mulheres infelizes, mulheres tão feridas como ela.

Penso nas Dinas, jovens, violadas, usadas como objeto para lucro e disputa política.

Penso nas Judites, que usaram até de violência extrema para salvarem o seu povo, tanto quanto as Esteres, que usaram de sua beleza e astúcia para protegerem aqueles que amavam.

Penso nas Mírians corajosas a dançarem e cantarem nas vitórias, profetisas, líderes, essenciais na travessia de cada Êxodo, porém silenciadas por questionarem o papel de um homem.

Penso nas Raabes, tão inteligentes e sábias, fortes na acolhida e na compreensão do seu tempo a ponto de jamais serem esquecidas.

Penso nas Maria e seu corajoso sim: – Eis me aqui, vamos juntas dispersar os poderosos.

Penso nas Dorothys, Marielles, Tainaras, Nádias, que tiveram seus sorrisos interrompidos. Foram mais de 1.470 só no ano passado.

Penso nas mães de Gaza.

Penso nas minhas avós, na minha mãe, nas minhas irmãs e no que ser mulher significou em cada época a cada uma delas! Penso em como todo o sentido de ser mulher nesse mundo formou cada uma de nós. Penso no que nos origina e nos educa a sermos como somos.

Penso na minha neta brincando com sua boneca e chamando-a de “filha” e no significado que isso tem e em tudo o que essa brincadeira carrega de história, de alegria e também de cultura patriarcal.

Então respiro profundamente, olho para o céu e desejo que ele seja totalmente lilás.

Afinal, dizem que no céu todo o esforço será compensado. Que assim seja!

Um céu em que sejamos acolhidas e respeitadas; em que possamos sonhar e pisarmos leves nas nuvens. Onde possamos dançar sem medo, sorrir, colher flores. Onde possamos falar o que pensamos. Um céu no qual não precisemos provar nada a ninguém. Que existir seja tão bom e natural, que possamos andar seja lá onde for, como for, sem temer ser uma a menos.

Um céu lilás, que aconteça já, que seja presença sublime de Jesus no meio de nós, com a mesma acolhida e amorosidade que ele teve, com a mesma ousadia em enfrentar os valores contrários à vida e à dignidade das pessoas, principalmente da marginalização e exclusão das mulheres com as quais ele conviveu. Um céu cuja cor, seja a cor da espiritualidade que liberta.

Então, lutemos juntas e juntos. Não tenhamos medo! Façamos com nossas mãos uma grande corrente de força e fé em busca da igualdade, do respeito, da paz para nossos corpos. Nós, mulheres, queremos viver!

Assim, quando esse dia chegar e certamente chegará, olharemos para o céu que conquistamos e poderemos dizer: A vida de tantas valeu a pena! E o Dia Internacional da Mulher será somente dia de festa, nunca mais de luta! E o dia será lilás da cor do céu!

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