Ramos de esperança para uma humanidade sem rumo

Marcelo Barros

Domingo de Ramos – ano A: Mt 21, 1 – 11

A Semana Santa começa com o Domingo de Ramos. Desde séculos antigos, neste dia, a Liturgia Romana une duas celebrações diferentes e aparentemente distantes uma da outra:

1º – A celebração de Ramos.

Nos séculos antigos, no domingo anterior ao Tríduo Pascal, em Jerusalém, a comunidade cristã costumava recordar a entrada de Jesus em Jerusalém para a Páscoa. Liam o evangelho correspondente a essa cena e faziam uma procissão festiva, com ramos nas mãos.

2º – Domingo da Paixão.

Enquanto em Jerusalém a celebração deste domingo retomava o clima alegre e entusiasmado da entrada de Jesus em Jerusalém, aclamado como Messias, a Igreja de Roma sempre preferiu dedicar esse domingo anterior à festa da Páscoa como Domingo da Paixão.

A liturgia católica atual une essas duas celebrações. As missas começam pela bênção e procissão de Ramos, inclusive com a leitura do evangelho que vamos comentar aqui e depois vem a parte diretamente eucarística que consta da leitura do profeta Isaías sobre o Servo Sofredor, depois, o hino da Carta aos filipenses e, como evangelho, lê-se o relato da paixão de um dos evangelhos sinóticos (neste ano A, lemos a paixão segundo Mateus).

Proponho tomarmos aqui agora esse evangelho da entrada de Jesus em Jerusalém, que é para nós uma mensagem de esperança social e política. (Para quem quiser, proponho seguir uma meditação sobre o evangelho da paixão de Jesus).

No Brasil, a bênção e a procissão de ramos formam um rito muito popular, já que a maioria das pessoas gosta de procissões e quer levar o ramo como sinal de bênção, para colocar nas portas ou paredes da casa, como sinal de bênção. Atualmente, com a valorização da espiritualidade ecológica, esse rito deve tomar cuidado para não significar corte leviano de árvores. Ao contrário, deve representar a ocasião para a valorização das plantas e dos ramos, como sacramentais do amor divino.

Nas tradições afro-brasileiras, os cultos de tradição Yorubá valorizam Ossaim, o Orixá das folhas e das matas e há vários ritos nos quais as folhas são fundamentais. No Candomblé se diz: “Cosi Ewé, cosi Orijá” (Sem folha, não há Orixá). É importante que a bênção e a procissão de ramos possam retomar essas tradições populares e dialogar com essas culturas.

Com esse espírito de comunhão com as culturas do nosso povo, meditemos o evangelho do domingo de Ramos. Conforme o Evangelho de João, durante sua vida de adulto, Jesus teria ido a Jerusalém, ao menos três vezes, para as festas mais importantes do ano. Nos evangelhos de Mateus, Marcos e Lucas, Jesus só vai uma vez a Jerusalém e é para celebrar a sua Páscoa e doar a sua vida sob pena de morte na cruz.

Assim, esses evangelhos resumiram várias peregrinações de Jesus em Jerusalém em uma só e contam que Jesus entrou na cidade santa, montado em um/a jumento/a e com o povo camponês que vinha do interior em peregrinação ao templo, para a festa da Páscoa, a mais importante festa judaica na época. Foi esse povo do interior, gente pobre e a maioria de lavradores que também entrava na cidade.

Os evangelhos contam que esse povo do interior o acompanhava. Agitava ramos nas mãos e cantava versos do salmo 118.  É desse salmo o verso: Bendito o que vem em nome do Senhor. Hosana!

Na época de Jesus, esse gesto e esse salmo faziam parte dos ritos não da Páscoa e sim da  festa das Tendas (Sucot, em hebraico), que até hoje, as comunidades judaicas celebram no outono do hemisfério norte (em setembro) e recorda a caminhada do povo hebreu no deserto e a esperança da libertação. É uma festa centrada na esperança messiânica, portanto, na fé de que a libertação não foi só do passado, mas é promessa da libertação definitiva e o mais cedo possível.

Conforme os evangelhos, ao menos dessa vez, por ocasião da entrada em Jerusalém, Jesus deixou que o povo pobre o aclamasse como Filho de Davi, portanto, descendente do rei e Messias, isso é, Libertador. Só que ele faz isso, exatamente no momento da vida em que mais assume a pobreza e a impotência. É um pobre camponês da Galileia, vindo em peregrinação a Jerusalém e essa cena ocorre não na entrada solene da cidade e sim ainda nas aldeias da periferia da cidade. Como, no Brasil de hoje, um sertanejo pobre do Nordeste caminha  dias e dias até Juazeiro para homenagear o Padinho Cícero. Como em cada região, muita gente simples vai em peregrinação a santuários como Aparecida, Pirapora, Bom Jesus da Lapa, o Círio de Nazaré em Belém e outros.

Mateus diz que Jesus fez isso, inspirado na profecia de Zacarias (Zc 9, 9- 12). Por isso, entra na cidade, não como rei vitorioso, montado em um cavalo branco e cercado de soldados. Jesus entra nas aldeias da periferia de Jerusalém, montado em um jumentinho e cercado por gente do campo, explorada e sofredora. Esse pessoal esperava um Messias que viesse ocupar o trono de um futuro Israel libertado dos romanos. Por isso, as pessoas gritavam: “Filho de Davi!”.

Conforme os evangelhos, o projeto de Jesus não era esse do povo que o aclamava como Messias, ou seja, libertador político. É possível que, historicamente, tenha sido, mas depois da sua morte, no começo do movimento cristão, mal visto pelas autoridades judaicas e também pelo império romano que condenaram Jesus à morte, os discípulos e discípulas não salientaram essa função de Jesus. Precisaram espiritualizar a sua missão para não serem eles também simplesmente extintos do mundo[1].

Seja como for, o fato que os evangelhos não negaram é que ele teria aceitado a manifestação popular que o saudava como Messias e Libertador. Não proibiu nem interviu de nenhum modo. Pelo modo como agiu naquela ocasião, deixou claro: a libertação só virá através dos próprios pobres. Como diz a canção: “Eu acredito que o mundo será melhor, quando o menor que padece acreditar no menor”.

Jesus transforma a procissão ritual que a tradição judaica fazia com ramos em uma marcha social e política dos pobres explorados da Galileia que entram simbolicamente em Jerusalém, com hinos de libertação como o salmo 118 e gritando Hosana!

Parece que historicamente essa expressão aramaica foi mal entendida. A Igreja a interpretou como expressão de louvor. E colocou nas missas: Santo, santo, santo… Hosana nas alturas!. Mas em aramaico, hosana significa “liberta-nos agora”. Não era tanto aclamação de louvor e sim grito quase desesperado de pedido de socorro.

Diante dessa manifestação social e política de Jesus e do povo da roça, entrando na cidade, as reações da elite da cidade e das autoridades são de receio e rejeição. Medo dos romanos. Medo de serem vistos como aliados dos subversivos do campo. No evangelho de hoje, Mateus diz que “toda a cidade de Jerusalém estremeceu”. O verbo é o mesmo que o evangelho usa para dizer que quando Jesus morreu, a terra tremeu. Lucas, no seu Evangelho, diz que os chefes vieram pedir a Jesus que mandasse os discípulos e o povo se calarem. E Jesus responde: – Se eles se calarem até as pedras gritarão!

Já o povo pobre que o acompanhava conclui que quem está ali é o profeta Jesus de Nazaré da Galileia. Então, Jesus não entra na cidade como rei e sim como profeta. É como profeta da esperança da libertação que ele quer, hoje, ser acolhido na nossa vida e nas nossas comunidades.

Atualmente, no mundo inteiro e também no Brasil, todas as pessoas e comunidades de boa vontade e que amam a paz e a justiça não têm muito motivo para ter esperança. Qual o futuro para a humanidade que sofre mais de 50 guerras espalhadas por vários países do mundo? E como imaginar um futuro promissor vendo as injustiças sociais se multiplicarem, os direitos dos pobres serem ignorados e o mundo dominado por meios de comunicação que só informam o que é do interesse da minoria que oprime econômica, social e politicamente o mundo inteiro?

Mais do que nunca, precisamos de novos sinais de esperança, que sejam como os ramos que ainda se distribuem nas comunidades católicas. Que esses ramos sejam como a flor que uma pessoa apaixonada oferece à outra e significa o amor que se partilha. Que possamos assumir a tarefa das pequenas libertações, mas que, às vezes, doem tanto. Hoje, seja com ramos nas mãos, seja apenas com o ramo da esperança que teimamos em viver interior e socialmente, recordemos aquele povo oprimido saudando Jesus como libertador e ele aceitando isso, mesmo sabendo que caminhava para ser condenado à morte e morte de um escravo rebelde na cruz.

Que hoje, nosso ramo não seja apenas de folhas. Pode ser uma palavra que até aqui não sentíamos força de dizer. Pode ser um sinal de amizade ou de carinho afetuoso que hesitávamos em fazer. Pode também ser a coragem de sermos generosos e nos entregarmos de coração e alma a aquilo no qual cremos.

Que esses ramos simbólicos vão nos fazendo acumular  energia para as vigílias pela democracia, os bate-panelas para protestar contra o poder que oprime.  Os ramos  revelam o mais importante: pertencemos a uma rede de solidariedade, de luta por justiça e paz, e de comunhão nessa nova Páscoa que vamos celebrar.

Deixo com vocês um poema do nosso querido patriarca e profeta Dom Pedro Casaldáliga:

“E chegarei de noite,

com o feliz espanto,

de ver, por fim,

que andei, dia após dia,

sobre a palma da tua mão”.

[1] – Ver sobre isso o livro ASLAN, Reza. O Zelota. Ed. Zahar, 2013.

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